(70 anos) Auchwitz nunca mais!


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27 de Janeiro. Madrugada. No chão, a infame confusão de membros ressequidos, a coisa Sómogyi.

Há trabalhos mais urgentes; não podemos lavar-nos e, por isso, só podemos mexer nele depois de termos cozinhado e comido. E, além disso, «…rien de si degoûtant que les debordements», diz justamente Charles; é preciso esvaziar o balde. Começámos a trabalhar como todos os dias.

Os russos chegaram enquanto Charles e eu levávamos Sómogyi para um lugar pouco afastado. Estava muito leve. Virámos a maca na neve cinzenta.

Charles tirou o boné. Tive pena de não ter boné.

Dos onze da Infektionsabteilung, apenas Sómogyi morreu durante os dez dias. Sertelet, Cagnolati, Towarowski, Lakmaker e Dorget (deste último, não falei ainda: era um industrial francês que, depois de ter sido operado a uma peritonite, adoeceu de difeteria nasal), morreram algumas semanas mais tarde na enfermaria russa provisória de Auschwitz. Encontrei em Katowice, em Abril, Schenck e Alcalai de boa saúde. Arthur regressou felizmente à sua família, e Charles retomou a sua profissão de professor primário, trocámos longas cartas e espero reencontrá-lo um dia.”

arbeit1É com estas palavras que termina o livro “Se isto é um homem”, de Primo Levi sobre a sua permanência durante cerca de um ano em Auschwitz, de Fevereiro de 1944 até finais de Janeiro de 1945.

A 27 de Janeiro de 1945 – faz hoje 70 anos – chegam aos portões de Auschwitz os soldados russos e deparam com a tragédia que durante a guerra ali se viveu. Uma tragédia que desconheciam e para a qual não estavam preparados.

Em Auschwitz terão morrido mais de um milhão e meio de pessoas, gaseadas ou vítimas de doença, dos maus tratos, da dureza do trabalho, da falta de alimentação ou do frio.

A inscrição sobre o portão “Arbeit Macht Frei” (o trabalho liberta) mostra até que ponto chegava a hipocrisia nazi tão cruamente relatada no livro de Primo Levi.

Hoje, 70 anos depois, ao fim de um século de enormes atropelos e violações à dignidade e à liberdade humanas – e ao seu direito à vida -, e numa altura em que existem, de novo, vozes que insinuam novas ditaduras e novos totalitarismos, recordar Auschwitz é também recordar até que ponto pode chegar a baixeza e a o horror de um regime que fez do genocídio uma das traves mestras do seu programa político.

Entre os mortos de Auschwitz e de outros campos de concentração  alemães estiveram também muitos anarquistas e outros combatentes anti-fascistas, a maioria refugiados da guerra civil espanhola, que integraram os diversos grupos de resistência em França e noutros países.  Mas estiveram sobretudo milhões de seres humanos perseguidos pela besta fascista que, no momento da morte, não escolheu entre judeus, ciganos, anarquistas, comunistas ou quem quer que fosse. A todos pretendeu aniquilar com sanha e raiva, destruindo-os naquilo que cada ser humano tem de mais precioso: a sua individualidade.

Auschwitz

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