(Diagonal) Como o “Daily Mail” serviu para ajudar os imigrantes de Calais


calais

Um grupo de activistas britânicos aproveitou uma oferta do diário para levarem ajuda humanitária a Calais onde vivem mais de 2.000 pessoas migrantes à espera de cruzarem o Canal da Mancha.

fermín grodira (*)

Um grupo de activistas britânicos decidiu utilizar uma oferta do jornal ‘Daily Mail’ para viajar a Calais, cidade onde sobrevivem milhares de imigrantes sem direitos, para os ajudar. O tablóide britânico ‘Daily Mail’ é conhecido pelo seu sensacionalismo e conservadorismo, com ataques dirigidos especialmente contra os imigrantes. O diário publicou uma oferta para os seus leitores: viajar a França por uma só libra, desde Dover até Calais de barco. Ofereciam ainda uma garrafa de vinho a quem cruzasse o canal da Mancha com o carro.

David Charles, um activista que durante um ano viajou várias vezes a Calais, fez um apelo na sua página web para que fossem reservados lugares para viajar no domingo, 1 de Fevereiro, com “mochilas ou carros cheios de tendas de campismo, mantas, sapatos, roupa quente e jogos de dominó”. O objectivo: visitar os campos de imigrantes na cidade portuária francesa que aguardam a sua vez pra tentarem viajar para o Reino Unido, em busca de um futuro melhor. O Reino Unido está a financiar a construção de uma vala à volta do porto para impedir a entrada de imigrantes sem papéis. Em 2014, 15 pessoas morreram quando tentavam chegar às ilhas britânicas. Muitos dos imigrantes procedem de países em conflito como a Síria, Sudão, Iraque ou Somália.

 “Os imigrantes nem sequer têm o estatuto de refugiados, são considerados ilegais pelo governo francês. O campo que visitamos não tem acesso a água corrente ou recolha de lixo” afirmam sobre o centro migrantes de Calais ouvidos pela revista anarquista STRIKE!, um dos colectivos que “aproveitaram” desta generosa oferta do diário conservador para colaborar com os imigrantes. “Os objectos que mais levámos foram luvas e dominós”.

“Mesmo que defendas fronteiras fechadas a pedra e cal, desde que estes migrantes cruzaram estas linhas imaginárias, não podes negar a susa existência e esperar simplesmente que abalem. Mesmo que lhes envies a polícia para lhes partir os ossos à pancada, não o farão. Não têm nenhum sítio onde ir nem nenhum lugar para voltar. Podes acreditar que de alguma forma a decisão é sua – mas imagina uma vida em que um acampamento sujo e gelado e o perigo constante de ser preso, agredido ou morto numa tentativa de passar que falhe, é a tua melhor opção”, afirmam num artigo publicado no The Guardian

Sem notícias do ‘Daily Mail’

 “Não houve qualquer reacção do ‘Daily Mail’, responde STRIKE! por correio electrónio às perguntas de Diagonal. “Fomos seis pessoas do colectivo e só levámos aquilo que conseguimos levar. A reacção foi muito positiva, as pessoas pareciam muito agradecidas pelas coisas que demos e falámos com eles um pouco”. Esta primeira viagem foi uma experiência para uma segunda viagem, a 28 de Março, em que esperam contar com muito mais pessoas e donativos. “Vamos alugar um barco para fazermos uma verdadeira frota humanitária”.

Acções no metro, contra a polícia e o consumismo

A viagem a Calais não foi o primeiro movimento de “guerrilha urbana” realizado pela revista. Em Dezembro, uns cartazes previamente publicados nas página da revista apareceram nalgumas paragens de autocarro de Londres, servindo como resposta a uma campanha da polícia. Neles punha-se em evidência o tratamento diferente dado pela Administração aos consumidores de diferentes drogas – a cannabis e o álcool – relacionando-o com o racismo institucional.

Este Natal, STRIKE! propôs também as “Anarchristmas”: um natal anarquista para toda a família. A revista ácrata convidou à distribuição de autocolantes com a mensagem: “Infiltra-te nas lojas, oferece os brinquedos”.

A 5 de Janeiro, coincidindo com o regresso ao trabalho de milhões de londrinos, publicaram mensagens, em estilo publicitário, sobre o trabalho. “É como se alguém estivesse a inventar trabalhos inúteis com o único objectivo de nos manterem a todos a trabalhar”, dizia um dos textos.

“Como é que alguém pode começar a falar de dignidade no trabalho quando secretamente sente que o seu trabalho não devia existir?” ou “Grande quantidade de pessoas passam a totalidade da sua vida laboral desempenhando tarefas que, no fundo, acham que não são necessárias”, foram outros textos da campanha. As frases foram tiradas do texto “Sobre o fenómeno dos empregos de merda”, do antropólogo social e activista anarquista David Graeber.

(traduzido por Portal Anarquista)

(*) aqui: https://www.diagonalperiodico.net/global/25786-como-racista-daily-mail-sirvio-para-ayudar-inmigrantes-calais.html

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