(Nota de Leitura) Eduardo Metzner: Vida e Obra de um Sem-abrigo


Capa Eduardo Metzner

(Eduardo Metzner (1886-1922) morreu faz hoje exactamente 93 anos. Jornalista, panfletário e poeta. Monárquico, libertário e comunista. Recordado agora num livro do investigador da Universidade de Évora, Gabriel Rui Silva. O livro é apresentado hoje, dia 20 de Fevereiro de 2015 às 16,00 horas, no Centro Cultural Casapiano (Biblioteca César da Silva), em Lisboa)

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Nota de leitura: Gabriel Rui Silva, Eduardo Metzner – Vida e Obra de um Sem-abrigo, Editora Licorne, 2014, pp. 94

eduardo_metzner1Eduardo Henrique Metzner nasceu em Lisboa em 20 de Março de 1886 e faleceu na mesma cidade, em 20 de Fevereiro de 1922. Teve uma curta mas intensa vida, marcada pelo infortúnio e a orfandade. Entrou aos oito anos na Casa Pia de Lisboa, onde ficou até aos dezasseis. Ingressou depois no seminário de Coimbra, donde se evadiu, incompatibilizado com a vida religiosa. Afirma-se então como jornalista, panfletário e poeta, embora o seu único livro de versos, Diamantes Negros, só veja a luz três anos após a sua morte, em 1925. Entrega-se ao mesmo tempo a uma vida dissoluta e boémia, enganando a fome a álcool e morfina, que acabará por levar ao trágico desenlace da sua rápida vida.

Há pelo menos três fases da sua produção – uma primeira, entre 1906 e 1908, marcada por panfletos incendiários, de vibrante afirmação libertária e anarquista, em que aparece associado ao grupo carbonário que se reunia no café Gelo, donde saiu o regicídio de 1908; uma segunda, ulterior à morte de Carlos de Bragança e à queda da monarquia, em que a gravocherie anterior continua, mas recaindo agora nas mais eminentes figuras do novo regime, como Teófilo e Bernardino Machado; por fim, uma terceira, balizada pela fundação do jornal A Batalha e pela criação da Federação Maximalista e do Partido Comunista, alinhados então pelo sindicalismo revolucionário ou por teses próximas.

A estúrdia de Metzner não se adequou a uma acção social organizada e o seu nome, tanto quanto a investigação de Gabriel Rui Silva permite dizer, nunca surge nas publicações do sindicalismo revolucionário. Avesso aos constrangimentos naturais dum colectivo, Metzner foi um solitário, um franco-atirador isolado, editor dos seus próprio panfletos, que escrevia num repente, alcoolizado, à mesa dos botequins, como aconteceu em 1911 com a folha Camões morto de fome: ao snr. dr. Teófilo Braga a propósito da santificação do aniversário da morte do cantor das glórias nacionais. Sobre o poema disse o autor: “É um documento histórico que deve ficar como protesto contra a homenagem feita ao génio por cretinos que o apedrejariam ou o matariam à fome se ele vivesse hoje”.

Impiedoso com todos os poderes, vituperando os afortunados poderosos, Metzner, no conflito mundial que opôs a França e a Alemanha, acabou porém por tomar partido pela França contra os impérios centrais, decerto na esteira das teses de Kropotkine, assumidas entre nós por Emílio Costa. Essa opção, uma vez mais tomada num desses panfletos poéticos espontâneos, Os bárbaros do Norte, não o impediu de aderir entusiasticamente à revolução russa de 1917, dando a lume um dos primeiros livros que em Portugal se dedicou a esse acontecimento histórico, A verdade acerca da revolução russa (1919), em que confessa a fé no sindicalismo revolucionário. No mesmo ano, aproximou-se, como tantos outros libertários, da Federação Maximalista e no seguinte fez mesmo parte da “comissão organizadora dos trabalhos para a construção do partido comunista”.

A propósito desta adesão, lembre-se o que em Outubro de 1919 declarava o órgão da Federação Maximalista, Bandeira Vermelha: “para evitar mal-entendidos, todo o indivíduo que em Portugal se declare bolchevista é anarquista ou sindicalista revolucionário.” Nesta linha se entende a proximidade de Metzner de organizações como a Federação Maximalista ou o primeiro Partido Comunista. No derradeiro poema por ele publicado, “A Fé”, que apareceu poucas semanas antes da sua morte no Diário de Lisboa (30-12-1921), fala de Bakunine como herói e da visão libertária como o sonho do futuro. Tudo leva pois a crer que se o autor tivesse sobrevivido à crise de Fevereiro de 1922 que o roubou à vida, se tornaria, como Campos Lima (também maximalista) se tornou, um dos mais veementes críticos da revolução dos sovietes.

No dia seguinte ao seu falecimento, o jornal A Batalha noticiou a sua partida do seguinte modo: Vitimado por uma tuberculose pulmonar faleceu ontem, 20, no hospital de S. José, este conhecido jornalista e poeta revolucionário, realizando-se o seu funeral, amanhã, pelas 15 horas, saindo da sede da Associação dos Trabalhadores da Imprensa, rua das Gáveas. Uma comissão de amigos convida o elemento operário e todos os amigos do extinto a prestar-lhe a homenagem merecida. O Partido Comunista associou-se ao evento, o que foi noticiado a 22 de Fevereiro nas páginas de A Batalha. Em 1925, quando Bourbon de Menezes deu a lume Diamantes Negros, cujo título sinaliza de forma simbólica mas inequívoca o anarquismo visceral deste malogrado, Ferreira de Castro, já então grande prosador, expressou ainda n’ A Batalha (14-12-1925) a sua estima pela figura e pela obra do poeta em curta nota reproduzida de seguida no Diário da Tarde (15-12-1925).

O trabalho de Gabriel Rui Silva, cujo título não podia ser mais certeiro, exumou do esquecimento uma curiosa figura de poeta panfletário, que parece ser, lado a lado com uma marcante geração de militantes libertários, um dos frutos do valioso trabalho preparatório dum Alexandre Vieira e dum Hilário Marques. Fica agora por reunir em livro acessível a obra – sobretudo os panfletos e o volume de 1925 – deste poeta sem-abrigo.

António Cândido Franco

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A ARTE, A VIDA E A SOCIEDADE

Diamantes Negros

Este livro de poemas, agora editado, vem recordar o nome de Eduardo Metzner, um nome que teve a sua auréola, mas ao qual em breve o olvido atingiu.

É louvável que se tenha tentado roubar à morte o espírito de Metzner, que era digno de nome não efémero.

É provável que Eduardo Metzner tivesse errado, tivesse até claudicado. Uma sociedade composta como esta em que vivemos, obriga até alguns espíritos cheios de elevação a miseráveis transigências. Mas tudo isto, que é do homem e produto dos homens, com o homem desce à sepultura.

Há perante certas mortes um silêncio humilde que é mais nobre do que as grandes atitudes de heroísmo…

Se Metzner se desviou algum dia das sendas bem iluminadas, caro, bem caro pagou esses passos hesitantes… Sua vida foi uma grande tragédia, sua fronte foi sempre osculada pelo sofrimento. Conheci-o alguns meses antes de se lhe ter aberto o coval, conheci-o quando sob a sua epiderme se viam já as linhas dos ossos. Então, como todos os que sofrem muito e irremediavelmente, a sua maior preocupação era mostrar que não sofria… Com os Diamantes Negros ele vem ocupar agora nas nossas letras um lugar ao lado do Fel, de José Duro.

Nada lhe falta para isso – nem dor profunda, nem mesmo esse drama individual do artista, que tantas vezes torna duradoura e amada uma obra predestinada pelo seu valor a ser efémera.

Alem disso tem o livro póstumo de Metzner alguns versos de grande mérito artístico e de intensa pujança revolucionária. Outros ainda são pautados por uma sinceridade que comove. Muitos dos “Diamantes negros” são bem vermelhos e não devem ser apenas o acorde de uma lira que se incendiou e extinguiu em cinzas, mas sim uma chama que crepite por muito tempo, por muito tempo…

Embora eu não concorde com algumas alusões que no prefácio dos Diamantes Negros faz Bourbon e Menezes, é-me todavia muito simpática a iniciativa deste escritor e jornalista, coligindo e fazendo editar os versos de Eduardo Metzner.

F. de C. [Ferreira de Castro]

in A Batalha – Suplemento Semanal, 14-12-1925, p. 3

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Capturar

A FÉ

Basta para vencer que a Fé nos ilumine.
Ela é a chave de oiro, o místico segredo,
que faz santos, heróis, na pira ou no degredo
de Francisco de Assis a Miguel de Bakunine…

A Fé – a coesão, a trajectória, a ponte
Lançada sobre o caos deste báratro escuro…
A Fé – o ritmo, a luz, nimbando no horizonte
A visão libertária, o Sonho do Futuro

É glória e sacrifício… É pulcra e rutilante
como o raio solar que beija o diamante
e o monstro obsceno e vil num beijo de igualdade…

Alma tentacular, dinamizante e forte,
foco da Vida, força – antídoto da Morte,
ela é o paradigma eterno da Verdade…

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O CAVADOR

I.

Despontou a manhã. Retine na alvorada
o toque do rebate. A pé. Começa a luta…
Lá vai o cavador, lá vai…Leva a enxada
que rasga o ventre à terra e fende a rocha bruta…

Nos giestais, em flor, a voz da cotovia
canta um binário rubro… O sol chispeia… Brava,
indómita, feroz, ardente, a luz do dia
dardeja, queima e mata… E o desgraçado cava.

Cai o sol no poente, incendiando, feérico
o cristal dos vitrais num lúcido e quimérico
relampejar de cromo… E o toque das trindades

dobra no campanário… O cavador então,
o escravo, o resignado, olha, ao longe, as herdades
e, erguendo as mãos ao céu, murmura uma oração.

II.

Dezembro. Madrugada. O azul velado. O norte
assobia canções rebeldes a galope.
Nuvens em turbilhão. – O céu faísca. A morte
dardeja temerosa em raivas de ciclope…

Ziguezagueia o raio. E um ruído crispante
arranha ferozmente os nervos, anavalha
e na treva do abismo explode trovejante
o incêndio e o desabar de um bárbaro Walhalha.

E no entanto o escravo, o proletário afronta
a tempestade e vai. A aurora não desponta…
O horizonte é de luto… A noite não tem fim…

Forçado do trabalho, degredado avança.
Conduz a enxada ao ombro assim como uma lança…
ou como a maldição ancestral de Caim…

EDUARDO METZNER

[Diário de Lisboa, 30-12-1921]

relacionado: http://arepublicano.blogspot.pt/2015/02/eduardo-metzner-vida-e-obra-de-um-sem.html

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