Estado, o gigantesco polvo que mina a sociedade portuguesa


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Mesmo em degenerescência acelerada, já sem o mínimo de moral ou a mais elementar honestidade, a não ser a  cada vez maior voragem quanto a lucros e a poder, esta classe continua a governar sem alternativa visível, uma vez que aqueles que se apresentam como alternativa são mais do mesmo.

Com o 25 de Abril de 1974 houve mudanças substanciais na sociedade portuguesa que não vale a pena ignorar, desde a liberdade de associação, de expressão e de opinião – com todas as limitações impostas pela sociedade de classes -, até uma mais generalizada melhoria das condições de vida dos portugueses, ao acesso a reformas (embora pequenas), à saúde e ao ensino e que, tal como o fim da guerra colonial, são ainda hoje bandeiras pelas quais vale a pena lutar.

No entanto, mal foi derrubado o regime fascista o aparelho de Estado foi prontamente tomado por grupos mafiosos, em que os interesses económicos e políticos, de grupo e individuais, se misturaram, podendo-se dizer que hoje o aparelho de Estado, os negócios, a política e a actividade mafiosa em Portugal estão tão intimamente ligados que é muito difícil destrinçar onde acabam uns e começam outros.

Esta mistela explosiva, que transforma o aparelho de Estado no principal centro corruptor em que os vários actores se movem quase sempre na maior impunidade (quando há notícia pública é porque ela resulta duma qualquer guerra de grupos) e se sucedem uns aos outros, mas permanecendo sempre com as rédeas das decisões entre mãos, acentuou-se com os milhões vindos dos programas comunitários e tem os seus tentáculos em todos os sectores da sociedade, mostrando, de forma clara, a degenerescência do actual modelo de capitalismo e da sociedade político-burguesa em que assenta.

Casos como os da acusação de assassinato para ficar com os bens duma cliente como é o do antigo líder parlamentar do PSD, Duarte Lima, acusado também de várias actos de corrupção; má gestão e desvio de fundos verificados em muitas empresas públicas geridas pelo PSD/CDS/PS e no BPN, um banco levado à falência pelos seus gestores, todos do arco do PSD/CDS, e que custou aos portugueses já muitos milhões de euros; a gestão fraudulenta do BES por Ricardo Salgado e seus acólitos, habituais financiadores das campanhas do PSD/CDS/PS e de vários candidatos presidenciais; os inúmeros casos de corrupção activa e passiva que têm envolvido ao longos dos anos os principais partidos políticos (do caso de Macau, denunciado por Rui Mateus, até ao mais recente dos vistos Gold) ou a recente prisão dum ex-inspector da Judiciária, próximo do PSD, apanhado a assaltar casas particulares; desde este último episódio de Passos Coelho a fugir aos impostos, a cujo pagamento o seu governo obriga centenas de milhar de portugueses, sob a argumentação de que “não sabia”, aos falsos cursos superiores, entre outros, de Relvas e Sócrates “tirados” à sombra dos seus cargos governativos e outras benesses, compadrios e tráfico de influências em que a classe dirigente, do mundo dos negócios e da política, tem sido fértil, agindo sempre como se de uma casta e classe à parte se tratasse.

E trata, é claro. Entre esta casta que se confunde com o Estado – e é o Estado – e os de baixo, que somos todos nós, pouco há em comum. Só o terreno da luta, do desprezo, da dissidência face ao regime e a quem dele se alimenta, são possíveis.

Mesmo em degenerescência acelerada, já sem o mínimo de moral ou a mais elementar honestidade, a não ser a de uma cada vez maior voragem quanto a lucros e a poder, esta classe continua a governar sem alternativa visível, uma vez que aqueles que se apresentam como alternativa são mais do mesmo. Defendem os mesmos interesses e têm a mesma avidez. Só os diferencia, por vezes, a força e a capacidade de mobilização. Mas quando – e se chegarem ao poder -, com os mesmos métodos centralistas e estatistas, e a mesma visão de uma economia gerida a partir de cima e não de forma autogestionária, os que hoje se apresentam como alternativa serão apenas mais um conjunto de pequenas marionetas nas mãos dos que gerem e, afinal, sempre têm gerido os cordelinhos e que povoam os corredores do aparelho de Estado: a classe dominante, dos negócios e da política.

Até um dia, quando, os de baixo se consciencializarem verdadeiramente que esta ordem social é mesmo para virar do avesso e em seu lugar é imperioso construir uma sociedade de bem-estar e liberdade, sem classes nem Estado, a partir de baixo, autogestionária e fraterna.

 A. Lucas (recebido por email)

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