Dia: Março 23, 2015

Os bloquistas deram agora em estudiosos do pensamento libertário!


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Aí está mais uma conferência/debate sobre Gonçalves Correia, desta vez na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, em Lisboa, onde também vai decorrer na próxima quinta-feira a segunda edição do colóquio “Pensamento Libertário: Passado, Presente e Futuro”. Do ponto de vista libertário todas estas iniciativas são bem vindas e abordar o anarquismo e o ideário libertário é sempre positivo. No debate das ideias e na exposição das práticas nada temos a recear: o anarquismo é vertical (assume com verticalidade as suas posições e opções) e sempre soube juntar muito bem a teoria e a prática.

Por isso, mais surpreendente é que estes debates e conferências estejam a ser “monopolizados” por estudiosos e académicos, na maior parte dos casos,  identificados desde sempre com o Bloco de Esquerda, seja na sua vertente ideológica trotskista ou estalinista (ainda há gente que se afirma como tal, não se riam!). Havendo tanta matéria-prima humana no anarquismo, capaz de dar voz à sua história, para além de surpreendente este novíssimo interesse pelos temas e causas libertárias tomado de supetão por marxistas de fina cêpa levanta ainda mais suspeitas. Que fará Constantino Piçarra, atreito à sua UDP estalinista, a dedicar algumas horas ao anarquista Gonçalves Correia? (De Francisca Bicho, ex-vereadora do PCP na Câmara de Cuba já se sabe que Gonçalves Correia era um “amor” de adolescência, mas esta “fraqueza” de Constantino Piçarra não era conhecida…). Que “linha de estudo” seguirá agora a televisiva, mediática e rubra Raquel Varela para, também ela, se interessar pelo anarquista, vegetariano, antimilitarista e precursor das cooperativas integrais, o alentejano Gonçalves Correia? Ou Fernando Rosas – ele próprio, um dos Papas da extrema-esquerda – a interessar-se agora pel’ “o anarquismo na primeira metade do século XX português” e a participar como conferencista num painel vasto sobre as ideias libertárias?

Tenho para mim que à medida que o pensamento marxista se esfuma só fica o anarquismo como alternativa a quem pretenda lutar por um mundo novo, baseado na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Talvez não seja ainda o caso destes estudiosos, enredados nas suas vestes académicas de muitos comprometimentos com o(s) poder(es), mas é possível que a falta de referências e de lastro histórico e a ausência de saídas alternativas no quadro dos espaços políticos em que se movimentam (e que estão em desmoronamento) os façam – uns com boas intenções, outros como tentativa de recuperação daquilo que já deviam saber que é irrecuperável (o anarquismo e os que lhe deram e dão vida) – aproximarem-se e tentarem compreender as ideias-chave do movimento libertário. Será?

Nós, anarquistas, somos abertos, dialogantes, gostamos do debate e achamos que a história e o passado não são património de ninguém. Recusamos heranças alheias, mas não gostamos que outros se queiram apossar de uma herança e de um património que, sendo de todos, por maioria de razão pertence aos que hoje lutam e travam as mesmas batalhas, em nome das mesmas bandeiras. Por isso, estaremos nestes debates para que a nossa voz se faça ouvir. E para não deixar – se for esse o caso – que “estudiosos” (alguns da mula ruça), mas todos de boa extracção marxistóide, arrastem na lama do seu pensamento alegadamente científico as ideias e as acções de gente que fez da Revolução Social e do Anarquismo (à margem de todas as prebendas e regalias político-sociais) o seu grande objectivo de vida, como foi o caso de Gonçalves Correia e de muitos outros.

 e.m.

confereênia