Na morte de Herberto Hélder


herberto

desenho tirado daqui

“irmãos humanos que depois de mim vivereis, eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta, fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos, porque nestas idades já não nunca, nem leituras embrumadas, nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem visitas extraterrestres de mulheres exorbitantemente nuas, cruas, sexuais, luminosas, só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa, é como trabalhar: stanca, lavore stanca, queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas, e só tínhamos que perder a alma, hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo, enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram! livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável, estou mais pobre do que ao comêço, e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta, meia volta, e já era, irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo, não peço piedade, apenas peço: não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira, inclitamente vergonhosa, que em testamento vos deixou esta montanha de merda: o mundo como vontade e representação que afinal é como era, como há-de ser: alta, alta montanha de merda – trepai por ela acima até à vertigem, merda eminentíssima: daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios, cada qual obrando a sua própria magia: merda que há-de medrar melhor na memória do mundo”

 *

“pensam: é melhor ter o inferno a não ter coisa nenhuma – como a tantos tanto o nada os apavora! eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia: ninguém que espere a eternidade espera o paraíso: provavelmente o paraíso é improvável como imagem, dêem-nos algum pouco do inferno, o bastante para ocupações gerais, trabalhos breves, jogos da mente, jogos distraídos, jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso, e os cristãos que receberam formação comercial, penso: ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha, eu que em mim sou obscuro, não, não, então recebe lá a minha prece quotidiana: dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila arrebatada ar acima num orgasmo anarquista, a ideia de paraíso é apenas um apoio para o salto soberano, não um inferninho brasileiro com menininhas de programa, púberes putinhas das favelas, mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras, um inferno à medida de cada qual dificílimo, onde se é evasivo, subtilezas desde o xadrez à física quântica, à poesia pura, aos fundamentos da levitação xamânica, ao sufismo, ao surfismo a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita? e a metáfora da água? a ideia de paraíso é muito brutal e louca, e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão trivial e trôpego, tão político, tão tenebroso! não resulta, dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas: formar uma estrutura estritamente poética na sua glória mesma, só com uma inteligência de duplos sentidos, o poema que pede mais que dez dedos, nem os braços lhe bastam e o coração ao meio, e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa do mundo, e o político e o cívico e o administrativo e o económico-financeiro, enfim o ínvio, para quê tantos capítulos? oh claros corredores ao longo das vozes a capella, sim sim, organizam a morte, e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro, fulgurante, poemático, edições os trabalhos do diabo, post-scriptum: meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado, e lá fora eles cantam, os castrati, a capella, vozes furiosamente frias, limpas, devastadoras, oh maldita cocaína, musa minha, droga pura, minha aranha idiomática, estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo, e os já ditos braços meus muito abertos, e entre os braços o já dito coração aos pedaços always toujours sempre oh pulsando pulsando!” Herberto Hélder,  “Servidões”, Assírio & Alvim, Maio de 2013 poesia toda

Durante uma fase da minha vida lisboeta encontrava-me regularmente com Herberto Hélder na Assírio Alvim, na Rua Passos Manuel, em Arroios. Fazia-se ali uma espécie de sala de conversa, ao jeito das livrarias de antigamente, com a Luísa, a alma da livraria nessa altura. Estávamos na Assirío e Alvim, talvez no início da década de 80, quando chegou a edição do “Poesia Toda”. Com ar desalentado, lembro-me de ter ouvido dizer ao Herberto, olhando para as pilhas e pilhas de livros: “Para isto estar aqui deve ter sido necessário derrubar uma floresta!” Outras vezes – menos – encontrei-o na pequena leitaria ao cimo das Escadinhas do Duque, no Largo da Misericórdia, onde um grupo de jornalistas, poetas, escritores e outros boémios se costumava juntar ao fim da tarde. Às vezes falávamos do anarquismo e de Espanha, onde eu ia com frequência. E, quando a conversa ia para aí, chamava-me “guerrilheiro anarquista” – eu que de guerrilha, antes como hoje, apenas sei, e pouco, a das palavras.

Guerrilheiro, como usava as palavras e transformava a realidade, era, no entanto, o Herberto. Falava-me do que tinha sido o sem sentido da sua vida de jornalista no internacional da Rádio Comercial (“fazia a caixa alta dos faxes e já estava”) e eu, jovem jornalista, pensava que exagerava. Mas não exagerava nada. Grande parte do jornalismo hoje é o vazio de que ele me falava na altura. Desde que me conheço que leio a sua poesia. Uma poesia inclassificável, bela e capaz de atiçar todas as fagulhas mesmo de fogueiras quase extintas. Há algo de tribal e primordial na sua poesia. De iniciático, também, que apetece sempre partilhar!

c.

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