(Estado Espanhol) Morreu o poeta anarquista Jesús Lizano


jesus

Morreu hoje o poeta anarquista espanhol Jesús Lizano. Natural de Barcelona, tinha 84 anos e uma vasta obra traduzida em várias línguas. Colaborador da revista anarquista Polémica, foi nesta página web que surgiu há pouco a notícia da sua morte.

Grande parte dos seus poemas podem ser descarregados directamente da internet. Existe também uma página com parte da sua obra em português.

Que a tua poesia viva no mundo de luz que sempre procuraste criar com as palavras!

*

O único

Meus pais foram Groucho, Chico e Harpo,
minhas mães as muralhas
da cidade invisível de Ávila,
porque eu tive, como toda a gente,
muitos pais e muitas mães,
o mundo está cheio de pais e de mães,
saem-nos pais pelas orelhas e pelos olhos,
trazemos os bolsos cheios de mães,
a mãe pátria e o pai eterno,
saímos à rua e encontramos um novo pai,
recolhemo-nos em silêncio
e somos invadidos por uma legião de mães,
não bastando o pai e a mãe
porem-nos cá neste mundo.
E os primeiros pais,
pais que nos comandam, que nos anulam,
mães que se deitam connosco,
pais assim como ursos,
mães assim como catedrais.
E não falemos dos pais desconhecidos,
das mães ausentes,
dos reverendos pais,
os pais
da pátria, das ideias,
os santos pais…
Mas meus pais foram Groucho, Chico e Harpo,
com eles aprendi a liberdade, a ser eu mesmo,
e minhas mães
foram as muralhas dessa cidade invisível.
Ávila, minha cidade, com quem aprendi o mistério
da contemplação do mundo, no meio
de todos os que enlouquecem por sua conquista.
Pena que os irmãos Marx nunca foram a Ávila
e não filmaram, livres e desinibidos,
«Um dia nas procissões»,
«Os Irmãos Marx na meseta»,
«Sopa de santo»,
«Uma noite no convento…»
Mas sem dúvida foram eles
os pais dos pica-pedreiros,
meus filhos,
que demoliram as visíveis muralhas
e deixaram a mensagem da liberdade do mundo,
o construir uma cidade na terra
não sobre os cimentos enlouquecidos das mentes,
nos versos moles dos falsos poetas.
Lê-de o meu poema ‘Los picapedreros’,
de mil novecentos cinquenta e cinco!
Era eu órfão.
Era órfão como quase toda a gente.
Encontrava-me só no mundo.
Eu nasci na solidão e o vento, o livre vento,
embalava-a e defendia-a dos inumeráveis pais,
das fanáticas mães.
Ia sozinho por esse mundo,
quando me encontrei com meus pais,
a meu pai Groucho,
a meu pai Harpo,
a meu pai Chico
e as muralhas da cidade invisível foram minhas mães,
porque eu vi a cidade aberta,
para além da cidade visível,
nas mãos dos poderosos, dos obesos.
Os pica-pedreiros, os quatrocentos pica-pedreiros
iam demolir a cidade visível,
para salvar a cidade poética,
o mundo real poético.
Ávila foi, para mim,
«a parte contratante da primeira parte…».
Graças a Groucho pude abraçar-me à inocência
e graças às muralhas invisíveis,
salvas dos barbeiros e dos padres,
dos duques e dos licenciados,
pude sentir-me como filho
e pude amar pai e mãe,
mamíferos e naturais.
Que magnifica procissão pelas ruas
da liberdade do mundo:
Groucho, Chico, os pica-pedreiros,
Harpo, as muralhas, meus versos…
que uma e outra vez eram capturados
por pais terríveis
e uma e outra vez fugiam da cadeia,
voltavam para o meu lado e salvavam-me.
Que procissão de cânticos!
Que anúncio de anarquia!
Que voo majestoso dos sinos!
Ao ar! Ao ar!
E deixei construindo os pica-pedreiros,
os irmãos Marx
habitando livremente meus versos.
Um dia acabarão os pais e as mães doentes,
os maus e os bons doentes,
os dominantes e os dominados doentes
e brilharão a par a luz e a rebeldia.
Claro que eu não fui Alonso Lizano, o bom.
Nem o mau,
nem o bom.
Eu fui Lizano, o único,
porque um dia todos seremos únicos e companheiros.

aqui: https://lizaniaemlusitania.wordpress.com/o-unico-pt/

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