(evocação) Estrela vermelha em fundo amarelo circular


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In Memoriam de José Luís Félix

1.
Em Fevereiro tínhamos feito a greve. De um dia para o outro as escolas secundárias foram paralisando de norte a sul de Portugal, num movimento inusitado, não se sabe bem nascido de onde. Um pouco como os cogumelos, o movimento alastrou. No meu liceu também. Durante dias foram os alunos que mantiveram a escola ocupada, que fizeram piquetes, que organizaram cursos livres. Era uma greve contra os exames. A palavra de ordem era «Contra o Ensino Selectivo e Burguês». Isto claro deixou marcas. Criaram-se afinidades, os grupos cresceram.
Novos estudantes aderiram nesta fase aos muitos grupos activos, quase todos, na dependência directa de organizações de extrema-esquerda que eram muitas. Havia para todos os gostos. Guevaristas, trotskistas, maoistas de diversos matizes, comunistas clássicos e heterodoxos cujas palavras de ordem não variavam muito e que iam desde a Unidade Estudantil com o Povo Trabalhador até ao Serviço do Povo Venceremos, apelando à Revolução Socialista ou à Revolução Popular e pedindo quase sempre o Regresso dos Soldados das Colónias e a Morte ao Fascismo.
Isto não era muito diferente do que se passava pelo país. Os comícios, as bandeiras, os encontros mais ou menos organizados surgiam ao virar de cada esquina promovidos por uma miríade de organizações de activistas. Havia fábricas ocupadas, herdades e terras em autogestão no sul do país e os militares falavam na televisão ou surgiam nas ruas quase todos os dias. A Revolução estava em marcha e quase todos concordavam que o rumo era o Socialismo.

2.
Foi mais por sedução do que por ideologia que fiz a minha escolha. E a sedução, confesso-te, nem foi ideológica. Foi a minha secreta admiração pela Cila. Entrámos na mesma reunião de turma. Ela tinha chegado de Luanda no tempo da greve. A África portuguesa naquela altura esvaziava-se na eminência da independência das colónias. Matriculara-se sem documentos. Julgo que aproveitou a confusão para subir o nível da escolaridade e entrar mais acima. Era o que se dizia, mas isso, eu não sei. Era linda aos meus olhos adolescentes. Um cabelo longo que lhe descia pelos ombros, uns olhos muito escuros quase negros. Parecia já uma mulher. Eu achei depois que ela só se juntou ao grupo por necessidade de pertencer a alguma coisa. Não percebia nada de política. Estava só e perdida.
Talvez tenha simpatizado com o emblema como aconteceu comigo. Circular, sem foices nem martelos, nem as caras dos ideólogos. Tão só uma estrela vermelha num fundo amarelo circular. Ou com aquela gente simpática que reunia sem grandes obrigações ou exclusões. Era um grupo pequeno aconchegante distante da ortodoxia da maioria dos outros. Não vale a pena falar em siglas nem explicar linhas politicas que, ninguém hoje entenderia, mas posso dizer-te que tínhamos um emblema bonito.

3.
A vida de militante estudantil era intensa. Reuníamos muito, angariávamos novos membros, distribuíamos panfletos, montávamos bancas onde invariavelmente me oferecia para estar com a Cila, preparávamos as intervenções nas assembleias que eram muitas, dinamizávamos a intervenção politica na turma e claro estudávamos pouco. As aulas também tinham deixado de cumprir os programas e eram agora dadas ao improviso ou com temas decididos e votados depois de debate na turma. A criatividade tinha mesmo chegado ao poder.
Frequentávamos cursos livres, que versavam coisas como o «materialismo dialéctico» ou «a justa resolução das contradições no seio do povo». Havia para todos os gostos. Queríamos saltar os muros da escola e conhecer as fábricas dos trabalhos forçados, perceber a génese das desigualdades para melhor lutar contra o capitalismo. Ligar a teoria à prática. Naquele ano do Verão quente, na verdade ninguém estudou muito. O PREC (Processo Revolucionário Em Curso) tinha chegado a todo o lado. Às escolas também. Os processos revolucionários são a loucura da História alguém disse. E naquele tempo todos acreditávamos que o imperialismo era um «tigre de papel» e a revolução estava mesmo ao virar da esquina. Tinha quinze anos e estava perdidamente apaixonado pela vida.

4.
Reuníamos fora da escola no «Café Central». Não tínhamos sede na vila. A ligação com a cúpula do partido era feita aí. Gente mais velha que chegava, transportando livros, materiais impressos, jornais, brochuras, tintas, cola e cartazes que depois havia que guardar em casa de quem calhava, distribuir, divulgar, afixar colar. Organizavam-se as coisas, distribuíam-se tarefas, discutia-se muito.
Um dia precisaram de nós. Corriam rumores que estava iminente a chegada da Esquadra da NATO. Tinham entrado em manobras ao largo de Portugal. Era preciso vigiar a costa. Os camaradas mais novos também podem ajudar, disse o dirigente chegado de Lisboa. Quem se voluntaria para o fim-de-semana? A Cila colocou logo o braço no ar. Levantei também o meu cheio de dúvidas se teria autorização lá em casa. Não foi fácil. Mas consegui. Fomos. Partimos de comboio no sábado de manhã. Eu, a Cila, o Saigão e a Mila. O contacto era o camarada Luís em Cascais. Lá se receberiam as instruções.

5.
Calcorreamos a vila de Cascais sobre um sol intenso duma tarde de Maio, subimos à Cidadela e lá demos a custo com a morada. O camarada Luís recebeu-nos com um sorriso. Era já um homem mas ainda muito novo, jovial e afável. Sabia ao que vínhamos e mandou-nos sentar na sala, no pouco espaço que sobejavam, entre pilhas de livros, caixas e caixotes atafulhados de material de propaganda. As paredes mal se viam forradas de livros, gravuras e cartazes. Um chamou-me particularmente a atenção. Uma rapariga carregada em ombros agitava uma bandeira negra entre a multidão. Em baixo a letras vermelhas estava escrito «Vetato, vetare». Em italiano: proibido, proibir. Almoçamos e recebemos as instruções. Acampamento no Guincho, na Duna da Cresmina. As tendas, os mantimentos e o transporte chegariam ao fim da tarde. O material de comunicação e os binóculos também. Ele estaria encarregue de coordenar uma série de acampamentos que se estenderiam até à Ericeira. Nós eramos os mais ao sul acima de Lisboa. Mas que não nos preocupássemos que ficaria connosco. Toda a costa ia estar em vigilância naqueles dias. Lembro-me que o telefone tocou na casa do camarada Luís a tarde inteira. E que por ali passou muita gente. Militares também.

6.
No cimo da Duna da Cresmina montámos as tendas escondidas entre os arbustos e a areia. A vastidão do oceano e a entrada do Tejo abriam-se na nossa frente. Acendemos o fogo e fomos preparando o jantar. Luís esteve sempre ali, ajudando, conversando, dando uma mão amiga. O acampamento era nosso, a missão era nossa, disse. Confiava em nós e falava-nos como a iguais coisa a que estávamos pouco habituados até porque eramos uns miúdos de quinze anos. Falava muito da auto-organização mas, mais do que isso, achei que acreditava em nós. Era diferente dos outros. Isso tocou-nos a todos muito percebes? Estávamos mais habituados a receber ordens.
Jantámos ao cair do sol à volta do fogo. Luís era um sonhador e sentia-se nele uma crença inabalável no triunfo duma sociedade de iguais, de liberdade sem exploradores nem explorados erguida de maneira autogestionária e federada. Uma utopia a construir. Pela primeira vez ouvimos falar em anarco-sindicalismo. Sei que mais tarde se assumiu como anarquista, que já era. Entregou-nos o «walkie-talkie» e despediu-se de nós: «Até amanhã companheiros». Ele era diferente como comentámos depois entre nós. Sabiamos que era estudante de economia, que fazia teatro e que trabalhava em bairros pobres.
Não tirámos os olhos do horizonte revezando-nos dia e noite. Eu fiz os quartos de vigilância sempre com a Cila. A Esquadra da NATO não entrou naquele fim-de-semana e eu beijei pela primeira vez uma mulher.

antoniopereira@gmx.com

também aqui: http://canais.sol.pt/blogs/contramestre/archive/2015/06/07/estrela-vermelha-em-fundo-amarelo-circular-_2D00_-um-conto-do-PREC.aspx

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