(Grécia) Declaração do Movimento Antiautoritário de Tessalónica sobre o referendo deste domingo


libertad_1

O referendo de hoje na Grécia tem motivado posições diversas dentro do movimento libertário grego. Embora todas criticando o referendo, que o Syriza pretende utilizar politicamente, há organizações que têm apelado à abstenção porque consideram que o seu valor é absolutamente nulo, enquanto outras consideram que a polarização verificada em torno do referendo pode ser útil para os movimentos sociais, anticapitalistas e que visam transformar a sociedade, sem o peso da versão financeira e monetarista. Esta é a leitura que, entre outras, faz o Movimento Antiautoritário de Tessalónica do referendo de hoje, que o Portal Anarquista traduziu a partir da versão em castelhano (aqui)

Referendo sobre uma questão obsoleta, mas frente a uma responsabilidade clara

A nossa sociedade está a ser chamada hoje a gerir uma situação excepcionalmente crítica. As instituições do governo já não podem apresentar soluções para uma crise que, como um cancro, está a destruir o tecido social, enquanto que ao mesmo tempo é cada vez mais claro que a sobrevivência do sistema só pode ser alcançada sacrificando a própria sociedade. A situação criada pelo capital financeiro internacional e pelas instituições do Estado que o reforçam estão a levar a um ritmo acelerado á imposição de um capitalismo de continuidade enquanto que o estado de excepção se converteu no estado normal do novo governo.

A Grécia está, naturalmente, incluída nesta experiência. Obedecendo às desdenhosas ofertas das instituições (internacionais), o Governo do Syriza decidiu levar a cabo um referendo “como uma forma de continuar a negociação através de meios diferentes”. Isto prova sem dúvida a falência em alcançar “um compromisso de honra” que foi publicitado ruidosamente, até há pouco, como a melhor solução. Seguindo os passos do dogma tatcheriano do “não há alternativa”, esta imposição dos limites do “realismo” conduz à passividade social e a uma tentativa de escravizar a própria vida. Este “realismo” de contínuo empobrecimento, de desemprego, de desesperança, de abandono definitivo de qualquer possibilidade de conseguir a felicidade, de guerra e de repressão, afasta-se muito do nosso sentido de lógica. A sociedade não só necessita saber o que há por detrás das portas fechadas dos lugares onde se tomam decisões, mas também necessita mover-se para as quebrar.

A dissolução das promessas do capitalismo, a incapacidade para criar uma narrativa que dê algumas perspectivas para o sistema, as guerras civis que começam com uma facilidade incrível e redesenham fronteiras e os acordos construídos em convenções internacionais depois da guerra, levam a uma mesma conclusão: o estado não pode determinar durante mais tempo as regras que governam as nossas vidas. Este é o estado que o Syriza quere gerir hoje em dia. No entanto, o Syriza quer fazê-lo utilizando todas as ideias de dominação que até há pouco levaram ao colapso o sistema que delas se alimentou. O Syriza não tentou destruir a ideologia do progresso, conservou totalmente a ideia de crescimento, continua a falar da reconstrução produtiva do país, levando-o a uma situação de resultados duvidosos.

O referendo proposto pelo Syriza não tem relação com os princípios da democracia directa, já que tentam usá-lo como um instrumento para fazer pressão junto do directório europeu. O referendo proposto não contempla a troca de opiniões, a discussão e o debate através da participação da sociedade; pelo contrário, ao ser promulgado pelo poder governante coloca a questão de acordo com as suas próprias ideais, procurando um novo acordo com um conteúdo no qual a sociedade não tem qualquer intervenção.

Hoje necessitamos de uma renovação nos valores de uma política distinta para a construção social utilizando instrumentos como a democracia directa, a autoorganização e a contínua criação de instituições próprias que destruam o conceito de “não há alternativa” e acabem com a obediência cega a uma ideia sem fim e sem sentido da economia. A nova reconstrução produtiva não pode estar baseada na ideia de crescimento, mas sim na negação total e absoluta do modelo de reconstrução capitalista, na autogestão de estruturas cooperativas e na possibilidade das pessoas decidirem a sua própria vida. Não nos importa uma moeda que faça parte de um renascimento nacional e, por isso,  não podemos apoiar uma moeda que faz parte da intrusão financeira em todos os aspectos das nossas vidas. Preferimos pensar a moeda na sua dimensão normal, como um instrumento para o intercâmbio e com a função principal de servir as necessidades e os serviços sociais. Na medida em que somos parte do movimento para uma ruptura social real com a ditadura financeira internacional (movimento que nega qualquer valor na ideia de uma política que tenha como objectivo pôr no seu lugar a gestão de enormes quantidades de moeda como a principal relação social), devemos nós próprios participar na procura de formas que conduzam à dita ruptura.

Por isso, hoje, nas condições actuais e em tempo real, não podemos permanecer indiferentes ante a polarização que se está a produzir tendo em vista o referendo.

Por um lado, o voto no SIM é cair definitivamente na trampa das normas e regulamentos do directório, que conduzem à escravidão a longo prazo para uma sociedade assustada e derrotada, que será necessária para carregar o peso da sua própria humilhação e estabelecê-la como a nova normalidade. Por outro lado, o voto NÃO está limitado de todas as maneiras possíveis pelo governo e pelos limites e pelas condições de um novo acordo, e exemplos disso estão incluídos no documento de 47 páginas, em que se se fazem alusões ao mesmo tempo ao sentido de dever patriótico, facilmente digerível e utilizado em todas as ocasiões.

No entanto, esta polarização ultrapassou os cálculos e intenções do governo e, por conseguinte, as próprias perguntas do referendo. Este ataque total vindo do directório estrangeiro e do sistema, dispostos a usarem os meiso de comunicação social como ariete, radicalizou os termos da pergunta a SIM ou NÃO à União Europeia e ao euro. Todas as acções que conduziram à asfixia económica fizeram-se com ameaças e ultimatos de ajuste económico público.

O esforço do governo do Syriza de combinar as necessidades sociais coms a frotes forças do dinheiro alcançou os seus limites, mostrando claramente que “duas melancias não cabem debaixo da mesma axila”, como se diz em grego. Não se pode estar em dois barcos diferentes, como fez o Syriza durante os seus anos na oposição.

No domingo, sem que importe o resultado e assumindo que a pergunta é a mesma, o voto no NÃO não é facilmente manipulável por quem  se comprometeu a apoiá-lo e pode facilmente superar os cálculos e as intenções do governo. O facto de querer usar o voto do NÃO e inclui-los nos termos da sua negociação com o directório mostra a grande dificuldade de gerir os resultados deste voto.

A polarização resultante abre caminhos de libertação e a criação duma dinâmica social que não estavam previstos, mas que podem antecipar em múltiplas formas as possibilidades oferecidas pelos movimentos sociais nos últimos anos. Estes movimentos estavam asfixiados até agora, ou tinham dado um passo atrás na dinâmica da representação, do dever e da esperança. Esta é a oportunidade que se apresenta aos movimentos para tomarem parte na batalha, não só simbolicamente, substancialmente, levando de maneira autónoma e sem chefes o peso da responsabilidade da guerra contra o totalitarismo do dinheiro, que para esses chefes não representa apenas valor comercial: é considerado como equivalente às relações humanas e à própria vida.

Não podemos permanecer à margem ou ser neutrais frente a esta possibilidade oferecida aos movimentos e saída da polarização, já que temos estado, estamos e estaremos onde está o que é livre, publico e social e que vá contra o mercado e o Estado.

Movimento Antiautoritario de Tessalónica

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s