(Política) Carta de desfiliação de Paulo Borges do PAN


paulo borges

Paulo Borges foi fundador e presidente do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza), cargo do qual se demitiu em Setembro de 2013. Anuncia agora a sua desfiliação do partido que ajudou a fundar e escreve, nesta carta em que revela as razões que o levam a deixar o PAN, que “hoje estou convicto que um partido político, seja ele qual for, e com ele o actual modelo de democracia representativa, só estimulam o pior que há em todos nós: por um lado desejo de poder, prestígio e protagonismo, desejo de tachos parlamentares, desejo de poleiro; por outro, passividade e desresponsabilização, esperando que alguém resolva por nós os nossos problemas e limitando a nossa intervenção cívica a um voto de vez em quando” e acrescenta que “Portugal, a Europa e o mundo, neste momento de mudança civilizacional, necessitam de outra coisa. Os partidos e a política partidária e convencional são já peças de museu da história. Há outros dinamismos culturais, sociais e cívicos emergentes, há um movimento a surgir, em prol de uma mudança que vem do interior para o exterior e que opera uma nova aliança entre os humanos, os animais não-humanos e a Terra. Há um Poder que está nos nossos corações e nada tem a ver com a luta pelo poder. Há uma capacidade de nos organizarmos para uma Vida boa sem ficarmos dependentes do Estado e dos governos. É aí que estou e sempre estarei.”

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Caras Amigas e Amigos

Caros Concidadãos

Venho tornar pública, com um sentimento de grande libertação e alegria, a minha desfiliação do PAN, partido do qual fui cofundador e presidente até me demitir em 13 de Setembro de 2013. Lamento ter assistido tão por dentro aos constantes conflitos e lutas internas por poder e protagonismo que devoraram este promissor projecto sobretudo a partir do momento em que obteve subvenção estatal e ascendeu ao limiar de poder eleger deputados a nível nacional. Sem me excluir, e assumindo as minhas muitas falhas, erros e imperfeições, assisti e continuo a assistir a coisas impensáveis num partido que se reclama dos mais nobres e elevados princípios éticos. Desde as eleições legislativas de Junho de 2011, em que estive à beira de ser eleito por Lisboa, até à minha demissão, a direcção e os recursos do PAN viram-se muitas vezes obrigados a sacrificar o trabalho positivo em prol das causas do partido para gerir conflitos causados por uma minoria de filiados que, por serem contrários às decisões dos Congressos, tudo fizeram para destruir o partido com processos e impugnações no Tribunal Constitucional, que se revelaram todos improcedentes.

Mas a cereja no topo do bolo da iniquidade foi posta por um grupo de carreiristas e ambiciosos que, após haverem apoiado estrategicamente a direcção a que presidi nos conflitos referidos, subitamente se voltou contra ela e passou a denegrir o trabalho até então feito para se apresentarem como salvadores do partido e encetarem uma campanha vergonhosa de calúnias, difamações e ataques pessoais a mim, à direcção e às pessoas da minha confiança. Estou de consciência tranquila, pois o trabalho que denegriram e que a minha equipa deixou no PAN foi de um partido credibilizado perante a população, com um crescimento sustentado e resultados eleitorais que observadores externos reconheceram como posicionando-o para chegar à Assembleia da República nas próximas legislativas. Foi precisamente isso que moveu o grupo que tomou o poder, que não hesitou em quebrar a unidade interna que se estava a conseguir para se unir a alguns da minoria antes referida e colocar-se em posição de serem eles a poder escolher-se para cabeças de lista às próximas legislativas, como agora está a acontecer, sem a mínima transparência para com os filiados. A ambição cega destas pessoas não hesitou em criar uma ruptura que, com a minha demissão e recusa de me recandidatar, pois fiquei farto de tanto lodo, levou ao afastamento e desfiliação de muitas dezenas – talvez cerca de uma centena ou mais – de filiados, entre os quais a espinha dorsal da equipa que levou o PAN a tão bons resultados no passado.

Não bastando isto, e como era de esperar, a actual comissão política permanente do PAN – com a cumplicidade da comissão política nacional – tem conduzido o partido num rumo desastroso, desde logo ao entrar com outros partidos numa coligação liderada pelo PS nas eleições para a Assembleia Regional da Madeira, onde sempre tinha tido os melhores resultados e conseguido eleger um deputado em listas próprias, do que resultou a perda desse deputado. Quando antes tinham atacado como lobos a mim e à direcção anterior por resultados supostamente menos positivos do que desejavam, agora não houve a mínima autocrítica e assunção pública de responsabilidades (estrategicamente acabaram com a figura do presidente, diluindo a responsabilidade num colectivo sem rosto). Quanto à orientação política do PAN actual, é óbvio que, apesar do nome Pessoas-Animais-Natureza, se optou por uma colagem quase exclusiva à causa animal e em especial à defesa dos animais de companhia, pois é o que mais fala às emoções imediatas das pessoas e dá mais votos. Salvaguardada a nobreza da defesa dos animais, de companhia e outros (dos quais o PAN menos se ocupa, como os que mais sofrem nas unidades de pecuária intensiva), isto é tanto mais hipócrita e oportunista quando a maioria dos animalistas de raiz abandonaram também o partido e quem lá está nos lugares dirigentes, salvo algumas excepções, não ser propriamente animalista. Com isto, todavia, o PAN está a abdicar de uma proposta global para o país, tendo-se tornado um partido que defende pequenas reformas sectoriais e não um partido, como sempre defendi quando lá estive, que ponha em causa as raízes e a estrutura do sistema. Isto é a meu ver um suicídio político e, independentemente dos próximos resultados eleitorais, o PAN já cortou todas as pernas para andar, reduzindo-se a um pequeno nicho eleitoral do qual jamais passará. Muitas outras coisas poderia referir, como a hipocrisia do actual porta-voz do partido, que no passado me atacou por defender que a promoção da meditação devia fazer parte das bandeiras políticas do PAN, no âmbito do que chamo a política da consciência e com imensos benefícios no plano da mudança mental, da educação e da saúde, e agora vem defendê-la numa entrevista.

Dito isto, e silenciado muito mais, quero dizer que, ao contrário do que possa parecer, não estou minimamente ressentido com o que aconteceu. Digo o que digo apenas por uma salutar indignação e pelo mesmo amor da justiça e da verdade que me levou a ser um dos fundadores do PAN, pois já abraçava as suas causas muito antes do PAN existir. Estou antes infinitamente grato por tudo isto me haver confirmado as razões da  reserva e do incómodo que desde o início senti ao estar num partido. Hoje estou convicto que um partido político, seja ele qual for, e com ele o actual modelo de democracia representativa, só estimulam o pior que há em todos nós: por um lado desejo de poder, prestígio e protagonismo, desejo de tachos parlamentares, desejo de poleiro; por outro, passividade e desresponsabilização, esperando que alguém resolva por nós os nossos problemas e limitando a nossa intervenção cívica a um voto de vez em quando.

Portugal, a Europa e o mundo, neste momento de mudança civilizacional, necessitam de outra coisa. Os partidos e a política partidária e convencional são já peças de museu da história. Há outros dinamismos culturais, sociais e cívicos emergentes, há um movimento a surgir, em prol de uma mudança que vem do interior para o exterior e que opera uma nova aliança entre os humanos, os animais não-humanos e a Terra. Há um Poder que está nos nossos corações e nada tem a ver com a luta pelo poder. Há uma capacidade de nos organizarmos para uma Vida boa sem ficarmos dependentes do Estado e dos governos. É aí que estou e sempre estarei. Disto vos darei novidades em breve.

Saudações e abraços fraternos a tod@s!

Paulo Borges

8 de Julho de 2015

(recebido por email)

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3 comments

  1. kafka, bakunine,kropotkine, grouxo marx e muitos outros deixaram notas escritas sobre a “coisa” (partidos)….
    paulo borges incapaz de organizar a matilha (DOS ANIMAIS), abandonou-a. mas promete novidades….
    pois.
    diz ele depois de um rosário de auto-elogios à frente do coiso PAN: “Há um Poder que está nos nossos corações e nada tem a ver com a luta pelo poder. Há uma capacidade de nos organizarmos para uma Vida boa sem ficarmos dependentes do Estado e dos governos. É aí que estou e sempre estarei”.
    adivinham-se as novidades
    mas descanse o paulo borges: NÃO VOTO!

  2. Não sabia que citavam cartas de ideológicos de extrema-direita, mesmo que agora sejam contra os partidos (já antes o Paulo Borges gostava de movimentos, como aqueles em que ele andava com o Ayres Magalhães nos anos 80, ou como movimentos «lusófonos» e o recuperar de publicações da extrema-direita para darem vivas ao Marcello Caetano e ao «V Império) e pela natureza (com relação ao «espírito», desta personagem sinistra que também é o presidente da União Budista).
    Deplorável é o não questionar só porque se dizem umas banalidades.

  3. Independentemente das proveniências, dos sítios por onde andamos, das influências e ideias que defendemos ou simulamos defender, .. .. eu tenho para mim que os partidos, associações, ajuntamentos ou o que quer que seja que nos apeteça chamar-lhes, são amontoados de estúpidos acéfalos com ganância e sonho qb, manipulados, reprimidos e usados como escravos de ilusões de que os tiranos se servem para atingirem os topes do engodo e vaidades, e isso tudo em nome da ideia mais fraudulenta, torpe e desonesta, que os humanoides poderiam ter inventado, apelidada de democracia.. .. .. luis alberto

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