(Rojava) De Tuzluçayır a Kobane: Entrevista com um combatente anarquista


combatente

Esta é uma entrevista com um anarquista ambientalista e vegetariano turco, membro do Sosyal isyan (Insurreição Social), que combate integrado nas Birleşik Özgürlük Güçleri (Forças Unidas da Liberdade), ao lado do YPG/YPJ, em Kobane, Rojava. A entrevista foi conduzida por H. Burak Öz e apareceu originalmente no site jiyan.org. Gostávamos de agradecer ao camarada Ece ter traduzido esta entrevista para o inglês. (Desta versão se fez a tradução para português do Portal Anarquista)

Os combatentes anarquistas, ambientalistas e vegetarianos que lutam em Kobane

Estamos na sede das ‘Forças Unidas da Liberdade’ (Birleşik Özgürlük Güçleri) em Kobane. Peço um cigarro a um combatente, de maneira a conhecê-lo melhor e meter conversa com ele. Enquanto ele me oferece um, pergunto quantos grupos fazem parte das Forças Unidas da Liberdade. Ele diz que esta força integra salvacionistas (Kurtuluşçular), MLSPB, TDP  e anarquistas e refere que ele também é anarquista.

Qual é o objetivo  para que os anarquistas estejam aqui a lutar?

Sou um dos fundadores da organização ‘Insurreição Social’ e também o seu porta-voz. Quando os ataques do ISIS começaram em Kobane, em nome da solidariedade internacional, sem pensar duas vezes, idealizámos construir uma organização de defesa do tipo das Brigadas Internacionais, algo muito parecido com o que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola.

As Forças Unidas da Liberdade foram formadas por diferentes grupos socialistas da Turquia. Sendo anarquista, como é que se envolveu nesta estrutura?

As ‘Forças Unidas da Liberdade’ foram fundadas quando nós chegámos. Fizemos um apelo aos anarquistas e ecologistas.

Existem outros combatentes anarquistas vindos de outros países para além da Turquia?

Há camaradas que vieram da Itália e da Espanha. Também há um anarquista argentino que luta não connosco, mas no YPG.

Quando foi fundada a ‘Insurreição Social’?

A ‘Insurreição Social’ foi fundada em 2013 nos acampamentos da resistência em Tuzluçayır (Distrito de Istambul, Turquia).

Porque é que escolheram uma bandeira verde e negra?

Tanto pela memória dos camponeses makhnovistas, como pelo facto de sermos também ecologistas.

Que tipo de estrutura tem a ‘Insurreição Social’?

Nós defendemos a guerra de classes e rejeitamos o anarquismo neoliberal. Temos o anarquismo clássico como a grande referência e há camaradas que se reivindicam de Makhno e Proudhon. No geral, temos uma concepção plataformista. Podemos descrever a ‘Insurreição Social’ da seguinte forma: não levamos a leitura de Bakunin, Proudhon, Luigi, Galleani, Malatesta etc.. ao pé da letra. Examinamos cada (pensador) anarquista e adicionamos-lhe as nossas próprias reflexões, e a soma de tudo isso é aquilo que construímos enquanto Insurrectos Sociais.

Quando é que aderiram à luta armada?

Nós defendemos a luta armada desde a fundação da nossa organização. Fomos influenciados duma forma mais específica pela perspectiva do anarquista insurreccional Alfredo M. Bonanno. Criámos a nossa própria teoria insurreccional. Acreditamos que a revolução iniciar-se-á com a luta armada. Primeiro, realizámos entre 3 a 5 acções armadas nos bairros pobres turcos, como Okmeydanı, e, depois, tudo isso nos conduziu a Kobane. Mas antes do mais, nós sonhámos com ela. Se não tivéssemos sonhado e tentado pô-la em prática, estaríamos ainda a beber cerveja num bar de Kadıköy ou Beyoğlu. Alguns dos nossos camaradas continuaram por lá.

Qual é a vossa abordagem ao Movimento Curdo aqui em Kobane?

De algum modo, a nossa presença em Kobane mostra que a luta armada anarquista não terminou na Guerra Civil Espanhola. No início, houve camaradas socialistas e apoístas (defensores de Abdullah Öcalan) que ficaram surpreendidos ao ver aqui anarquistas a usarem armas. Isso é o resultado de uma certa ideia de anarquismo que se criou na mente das pessoas. Na verdade, as pessoas aqui não sabem o que realmente significa o anarquismo. Conhecem o anarquismo como algo que é simplesmente contra tudo e todos os tipos de organização. Há uma óptima frase do Kropotkin: “Anarquia é ordem”. Estamos a explicá-la e a responsabilizarmo-nos nesse sentido. Ainda que esta responsabilidade seja muito díficil de assumir, estamos a tentar lidar com ela.

Em que momento a teoria do anarquismo ecológico e a sua prática se podem encontrar em Kobane?

Nós vivemos determinadas coisas aqui que não conseguiríamos entender senão através da prática, ou seja, são respostas que não conseguimos encontrar nos livros.

Como o quê?

Estamos no meio de uma Guerra. Por exemplo, rejeitamos todo o tipo de hierarquia, mas aqui é necessário um comandante. Tu não podes entregar um walkie-talkie para toda a gente ou cada um não pode agir apenas como muito bem entende. Talvez, a realidade crie suas próprias necessidades. Nós percebemos hoje que a direcção de Malatesta e a liderança natural de Bakunin estão aqui presentes, o que não compreendíamos quando apenas os líamos. Obtivemos informação teórica; levámo-la à prática e obtivemos mais informação.

O que é que pensavas antes de vires para Kobane e o que é que encontraste aqui?

Eu pensei que teria problemas relacionados com a cadeia de comando, mas não tive. Não me confrontei com nenhum tipo de pressão ou dificuldade com o YPG e as ‘Forças Unidas da Liberdade’. Alguns dos nossos camaradas talvez tenham gritado quando uma bala passou próximo das nossas cabeças em momentos de maior stress durante os combates, mas é normal.

Do ponto de vista ecológico houve algum problema?

Havia uma perspectiva orientalizante, como seja o facto de pessoas virem para cá para preencherem um vazio existencial. Por exemplo, alguns camaradas de Itália queriam trazer a agricultura biológica, mas existem pessoas por aqui que já conhecem a agricultura biológica e a aplicam na prática. Isso é ecologia. Um camarada espanhol insistia em “não usar diesel para fazer lume”. Tu estás num lugar onde o gasóleo custa 7 cêntimos. A madeira é mais cara e não se pode encontrar madeira facilmente porque este lugar é basicamente um deserto. Existem oliveiras mas estão situadas em campos de cultivo. Não podem ser cortadas. Portanto, é absurdo dizer a estas pessoas “não use gasóleo”, “porque é que usa gasóleo para se aquecer?”.

Antes, disse-me, que alguns camaradas das ‘Forças Unidas da Liberdade’ pediram a amigos socialistas para não comerem carne e que deviam pedir desculpa pelos animais que mataram, mas quando se esgotaram as vossas reservas alimentares comeram sobretudo carne. Podes-nos falar um pouco sobre isto?

Aconteceram muitas coisas nas montanhas. Os fornecimentos de alimentos não chegavam a tempo. Nós estávamos com fome e não havia nada mais para além de patos deixados para trás pelos habitantes das aldeias. Quando os camaradas começaram a despedaçar os patos, eu perguntei: “o que é que vocês estão a fazer? É um assassinato!”, mas disse-o fora da realidade, como uma reflexão.  Aquilo que queríamos fazer apenas de acordo com a teoria colapsou.

Tu estás a lutar com socialistas no mesmo grupo. Já aconteceu algum tipo de discussão teórica entre vocês?

Mesmo que ocorram essas discussões, são mais como um jogo. Nunca tivemos problemas com isso. Nós, e eles, estamos conscientes de que viemos aqui pela solidariedade internacionalista. Estamos a agir de acordo com a ética revolucionária. Dormimos lado a lado e comemos juntos/as. Estamos a tentar compreendermo-nos uns com os outros. Talvez seja necessária uma nova teoria revolucionária para o século XXI, e que esta realidade possa ajudar no sentido duma compreensão mútua.

Deves ter passado por momentos em que estiveste próximo da morte. O que se pensa nesses momentos?

Eu, de facto, tive esses momentos, mas, na frente de guerra, no que pensas é nos teus camaradas. Talvez existam alguns momentos de medo e pânico, mas, quando ouves o som de uma arma a disparar, esses sentimentos vão-se embora. Na verdade, desenvolves um reflexo para te protegeres e proteger os/as teus/uas camaradas.

Que garrafa de Coca-Cola é esta?

Não lhe toques! É uma bomba artesanal.

Fonte( turco) http://jiyan.org/2015/06/28/tuzlucayirdan-kobaneye-uzanan-bir-anarsist-savasci/

(versão inglesa): http://insurrectionnewsworldwide.blogspot.pt/2015/07/from-tuzlucayr-to-kobane-interview-with.html

Português do Brasil http://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/07/13/curdistao-de-tuzlucayir-para-kobane-entrevista-com-um-combatente-anarquista/

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