Mês: Agosto 2015

(refugiados) Mediterrâneo: o mar da morte


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Desde a II Guerra as potências europeias e norte-americanas (Estados Unidos e Canadá) aprenderam a situar os conflitos fora dos seus espaços geográficos e reconduziram-nos para as periferias: África, América Latina, Médio Oriente, Ásia. A venda de armas (os grandes países vendedores naquele que se mantém como um dos maiores comércios mundiais continuam a ser os Estados Unidos e a Rússia), a tentativa de controlo das fontes de matérias primas, a avidez das grandes multinacionais num crescimento permanente dos lucros, o saque feito pelas elites nacionais sobre os recursos locais e os seus povos, os fundamentalismos religiosos e ideológicos levaram à situação actual: o mundo semi-destruído e a Europa e os Estados Unidos/Canadá erguendo-se como fortalezas rodeadas de arame farpado (para milhões de seres humanos em todo o mundo, como uma miragem de bem estar, satisfação das necessidades básicas e uma tolerância a que os regimes totalitários de grande parte do mundo desabituaram os seus cidadãos) com milhões de deserdados tentando franquear as suas fronteiras. É um panorama negro para um mundo que tem estado em guerra constante e que destruiu povos e países e em que cada subsídio dado a um agricultor dos Estados Unidos ou da Europa significa a morte (por incapacidade de concorrerem com as agriculturas subsidiadas) de milhares de pequenos produtores agrícolas seja em África, na Ásia ou na América Latina. Por isso, todos somos responsáveis por estas mortes. Por inacção, conivência ou deixa andar. Com os Estados, as multinacionais e os interesses económicos e geo-estratégicos, neste caso como em tantos outros, com todas as responsabilidades acrescidas.

j.

(trabalho académico) RESISTÊNCIA ANARQUISTA EM NOVÍSSIMOS MOVIMENTOS SOCIAIS


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Acaba de ser apresentada no XXVII Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado em Porto Alegre, a comunicação de três académicos da Universidade Vila Velha intitulada “RESISTÊNCIA ANARQUISTA EM NOVÍSSIMOS MOVIMENTOS SOCIAIS” que aborda a matriz libertária de muitos movimentos sociais da actualidade, em que a luta contra a exploração e a opressão questiona em simultâneo a organização da sociedade e o domínio do Estado. Para ler ou fazer download aqui (PDF).

(Metropolitano) A CGT face à retirada da TMB da gestão do metro do Porto


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O sindicato anarco-sindicalista espanhol CGT é a organização sindical maioritária no Metro de Barcelona, empresa que é propriedade da TMB (Tranportes Metropolitanos de Barcelona) que, por sua vez, integra o consórcio (entre a TMB e a Moventia), que recentemente ganhou a concessão para gerir o Metro do Porto – gestão que lhe foi retirada há dias pelo governo português devido a “incumprimento de contrato”, uma vez que a empresa não terá entregue a caução de 20 milhões de euros constante do contrato de concessão assinado em Abril passado. A CGT pretende agora respostas sobre os custos desta operação e exige que a empresa dê explicações.

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comunicado

Face à decisão do Governo português de cancelar, por incumprimento de contrato, a gestão de toda a rede de transporte público do Porto – metro e autocarros – à sociedade formada pelas empresas Transportes Metropolitanos de Barcelona (TMB) e Moventia, a secção sindical da CGT no Metro de Barcelona vem denunciar o obscurantismo com que a TMB está a levar a cabo operações similares à do metro do Porto noutras cidades como Lisboa, Panamá ou no Cairo, onde desde há vários anos dirigentes e técnicos do Metro de Barcelona estão a actuar numa espécie de “comissão de serviço” com uma total falta de transparência.

CGT – BARCELONA

A CGT, sindicato maioritário no Metro de Barcelona, exige à direcção da TMB que dê explicações sobre o dinheiro público que está a investir nestas aventuras especulativas fora da cidade, através da participação em consórcios e empresas sobre cujas actividades e funcionamento ninguém na TMB dá explicações.

Soube-se esta semana que o Governo português retirou à Transports Ciutat Comtal (TCC) – sociedade constituída em 1991 por TMB e Moventia – a gestão do metro do Porto por falta de pagamento de uma garantia de 20 milhões de euros. TCC tinha ganho em princípios do ano o concurso para gerir essa rede de transportes urbanos, depois de entregar um aval de 17 milhões de euros.

A CGT desconhece, porque a TMB não o tornou público, se os 17 milhões formalmente entregues faziam parte dos 20 exigidos pelo contrato assinado com o governo luso, mas duvida que esses 3 milhões de euros de diferença seja o motivo real para que uma operação, que ia garantir à TCC receitas de 400 milhões em 10 anos, tenha ido para o lixo

Queremos as contas claras. Nenhum cargo dirigente do Metro nem nenhum político responsável pelo investimento deu explicações, até agora, sobre o dinheiro público que se perdeu no Porto. Os cidadãos têm que saber se se vão recuperar os 17 milhões depositados como aval, quanto dinheiro vai custar a penalização por não cumprir o estipulado no contrato e quantos fins de contrato ou demissões se vão produzir entre os responsáveis deste desaguisado financeiro.

Barcelona, 20 de Agosto de 2015

aqui: http://www.cgt.org.es/noticias-cgt/noticias-cgt/la-cgt-de-metro-ante-la-retirada-de-tmb-de-la-gestion-del-metro-de-oporto

(Rússia) Anarquista A. Koltchenko condenado a 10 anos de prisão num campo de trabalho


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Dez anos de prisão para o nosso camarada Alexandr, vinte anos para o cineasta Oleg Sentsov sob a acusação de “terrorismo”! O seu crime? A recusa de todas as mafias e de todos os imperialismos – incluído o do Estado russo – que destroem a Ucrânia.

O Estado russo acaba de condenar Alexandr Koltchenko a 10 anos de prisão e Oleg Sentsov a 20 anos da mesma pena. A acusação de “terrorismo” que serviu para cobrir esta ignóbil decisão de um tribunal que executa as ordens do poder político russo não tem qualquer fundamento

Desde há vários meses que as nossas organizações lançaram uma campanha para informar da situação vivida por A. Koltchenko, conhecido na Crimeia pelas suas ligações antifascistas, sindicais, anarquistas, ecologistas. Nós apoiamos também, é claro, o cineasta O. Sentsov e todas aquelas e aqueles que são vítimas da repressão do regime de Putine.

Alexandr Koltchenko e Oleg Sentsov foram condenados a anos de campos de trabalho porque eles lutam contra a opressão exercida pelo Estado russo; seja no território russo, seja na Crimeia, isso é inadmissível e nós saudamos todas e todos que resistem.

Koltchenko é estudante e militante sindical; ele trabalha também como carteiro, paralelamente aos estudos. Defende activamente, pela sua prática, o direito de organização livre, o direito de criar e fazer viver associações associativas, sindicais, ecologistas ou políticas.

Ele faz parte dos homens e das mulheres que lutam contra a extrema-direita, seja ela ucraniana, russa ou outra.

Porque luta contra a corrupção e pela igualdade de direitos entre todos e todas, A. Koltchenko é o alvo dos clãs oligárquicos seja na Rússia, seja na Ucrânia.

aqui: http://alternativelibertaire.org/?Scandale-Dix-ans-de-colonie

manifesto de apoio de dezenas de personalidades a A. Koltchenko

feed de noticias (em inglês): https://avtonom.org/en/search/node/alexander%20kolchenko

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(nota de leitura) O Homem Verde


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Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

Manoel de Barros, Beco da Marinha, beira do rio Cuiabá

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Filipe Verde, um antropólogo português, escreveu O Homem Livre (Ed. Angelus Novus, 2008) sobre os Bororo e a sua filosofia de vida. Sobre o que resta da sua cultura, sobre as suas ruínas, porque, em se falando de sociedades ameríndias, é disso que se trata. Mas aprendemos sobretudo neste livro sobre “naturalismo ético”, sobre como se pôde renunciar à violência perscrutando a natureza. Diz Verde: “a compreensão da natureza é aquilo a que nós chamamos “moral”. Uma moral que está presente, e como!, de uma forma que permite conciliar o inconciliável: enorme liberdade individual com uma ordem e paz social que roça a nossa ideia de utopia, mas uma moral que nunca se formula como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado uma coisa prescritiva, e de a moral se ter casado com a religião e com a filosofia, que a ergueram contra a natureza e nos tornaram muito inautênticos, cada vez menos livres. E muito neuróticos.”  (Entrevista ao Jornal Público, 09-09-2009)

A fotografia da capa é de Claude Lévy-Strauss, retirada dos seus famosos Tristes Trópicos (por vezes parece-me um dos livros mais inteligentes e comoventes escritos no século XX), que tem um capítulo dedicado aos Bororo.

Luís Serra, Évora

(Sacco e Vanzetti) Carta de Nicolás Sacco ao seu filho Dante antes de ser executado


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No dia 23 de Agosto de 2015 passaram 88 anos desde que, no mesmo dia de 1927, foram executados nos Estados Unidos os anarquistas Sacco e Vanzetti. Esta carta foi escrita por Nicolás Sacco ao seu filho Dante cinco dias antes de ser executado por um “crime” de que estava inocente. O seu único crime – e o de Bartolomeo Vanzetti – era o de serem operários anarquistas e lutarem pelo fim da exploração e da opressão.

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Prisão estatal de Charlestown, Estados Unidos, 18 de Agosto de 1927

Meu querido filho e companheiro:

Desde que te vi pela última vez pensei em escrever-te esta carta, mas o meu prolongado jejum e o pensamento de que não me pudesse expressar como era o meu desejo fizeram-me esperar até agora.

No outro dia, logo que deixei a greve de fome, o meu pensamento voou para ti e quis-te escrever de seguida, mas vi que as minhas forças físicas não eram suficientes e que não estava em condições de as readquirir de imediato, pelo que achei, portanto, que devia adiar. Mas é necessário que o faça antes que nos conduzam de novo para a cela da morte. A minha opinião é que mal o Supremo Tribunal recuse a revisão do processo, vão-nos levar para esse triste lugar e, na segunda-feira, se nada acontecer, matam-nos logo que tenha soado a meia-noite.

(mais…)

(Brasil) Chamada para envio de Cartazes para VI edição da Feira Anarquista de São Paulo


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Cartaz a promover o evento

A Biblioteca Terra Livre está iniciando os trabalhos para a realização da VI Feira Anarquista de São Paulo. A data já está escolhida, dia 15 de Novembro no espaço cultural do Tendal da Lapa.

Como forma de ampliar a divulgação e a participação das pessoas na construção da feira, estamos convidando artistas (amadores ou profissionais) para criar um cartaz para a divulgação da VI Feira Anarquista de São Paulo.

Assim como ocorreu nos últimos anos, a ideia é trazer no cartaz algum elemento que remeta ao anarquismo no Brasil, seja por sua história, luta ou personagens. Mas isso é apenas uma sugestão! Não existem restrições a criação artística.

Pretendemos até o dia 2 de outubro receber e divulgar o(s) cartaz(es), seja por forma impressa ou virtual!

Caso queira ter sua arte estampando o cartaz da VI Feira Anarquista de São Paulo, envie seu trabalho para: feiraanarquista@gmail.com

Todos os trabalhos realizados e enviados para o email serão exibidos em uma exposição realizada durante a Feira.

Informações necessárias no Cartaz:

– Título: VI Feira Anarquista de São Paulo
– Data: 15 de Novembro de 2015
– Horário: 10h – 20h
– Local: Tendal da Lapa – Rua Constança, 72 – Lapa, São Paulo/SP
– Organização: Biblioteca Terra Livre

(AIT/SP) Ao Instituto Português de Pedagogia Infantil e à Câmara Municipal de Odivelas


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O Instituto Português de Pedagogia Infantil (IPPI), uma Instituição Particular de Solidariedade Social na Póvoa de Santo Adrião, contratou a recibos verdes cerca de 40 professores para as Actividades Extra-curriculares de escolas de 1º Ciclo e jardins de infância de Odivelas para o passado ano lectivo, num acordo com a Câmara Municipal.

Apesar de termos consciência de que trabalhar por um salário é uma forma de exploração, havendo sempre quem enriqueça com o fruto do nosso trabalho, a verdade é que é melhor ter um mísero contrato do que estar numa situação de recibos verdes em que a qualquer momento se pode ser despedido e ainda é o trabalhador a ter de fazer por si os descontos para a segurança social.

Não nos surpreende que uma instituição de “solidariedade social” explore os seus funcionários e se vingue de quem luta por melhores condições. Muito menos nos admira a atitude da Câmara de Odivelas que ainda teve a lata de na sua resposta afirmar que tudo estava a ser cumprido dentro da legalidade e se vangloriar por pagar antecipadamente ao IPPI para que não houvesse atrasos no pagamento dos salários dos professores, como se não fosse uma obrigação pagar os ordenados a horas!

Após a denúncia da situação, a Autoridade para as Condições do Trabalho fez uma inspecção à instituição e obrigou a mesma a contactar todos os professores para lhes oferecer um contrato de trabalho caso assim o desejassem.

Legalidades à parte, pois neste sistema as leis protegem sempre os mais poderosos, o que interessou neste processo é que havia professores a exigir algo tão simples como um contrato de trabalho e isso simplesmente tinha de ser conseguido.

No próximo ano lectivo estaremos novamente atentos ao que se passa por essas bandas! Claro que sabemos que o Estado e as grandes empresas são a minoria que manda, que explora, vigia, persegue, aprisiona…

Mas também sabemos que às vezes têm medo e fazem bem. Afinal, somos muitos mais. E temos muito pouco a perder…

Unidos e auto-organizados, nós damos-lhes a crise!

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Associação Internacional dos Trabalhadores

Secção Portuguesa – Núcleo de Lisboa                          

20/08/2015

aqui: http://www.ait-sp.blogspot.pt/2015/08/panfleto-de-resposta-ao-ippi-e-camara.html

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(texto) Bakunin e a Génese Histórica de Divindade na Consciência dos Homens


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Trabalho apresentado no Colóquio Internacional Mikhail Bakunin e AIT, organizado pela Biblioteca Terra Livre de 10 a 13 de Novembro de 2014 em São Paulo (Brasil) e agora (re)publicado e formatado de novo para o Portal Anarquista. Obrigado, Jonathan.

para ler e/ou fazer download: Jonathan-Bakunin e a gênese histórica da ideia de divindade

(Do Brasil) Para aqueles que cultivam revoluções em estufa


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O papel central do anarquismo é a luta e a transformação da sociedade, objetivos a serem perseguidos pelos que se intitulam libertários. A ideologia não serve para salvar os indivíduos da monotonia de suas existências, ou mesmo dar sentido às mesmas, ela é antes uma orientação geral para a superação de um estado de coisas em favor de algo substancialmente melhor para todos e todas.

Desde 2013 para cá, com as jornadas de manifestações que se sucederam em todo o país, a militância anarquista foi alcançada por seus efeitos e desdobramentos. Alvo de criminalizações de todas as ordens, também obteve maior visibilidade, dada a força da proposta e da crítica que essa tradição ainda oferece aos problemas dos tempos que correm. Um outro resultado entretanto que merece especial atenção de todas as anarquistas preocupadas com a implementação e desenvolvimento da ideologia, é o surgimento de um protagonismo de sujeitos, acompanhado de um (nem sempre) sutil apartamento de organizações anarquistas do bojo das lutas sociais. Atentas e preocupadas em reafirmar a importância da crítica ao vanguardismo,  compartilhamos aqui algumas breves reflexões, como contribuição para o debate e sobretudo para a prática anarquista.

O anarquismo surge no século XIX como ideologia do campo socialista e resultado, em um primeiro momento, das experiências operárias mutualistas e coletivistas. Portanto, o anarquismo nasce como parte integrante de um todo no qual a substância social permanece difusa sem seu correspondente teórico e este menos pertinente sem as suas realizações concretas. Assim a ideologia passa a servir ao conjunto de uma determinada classe, sendo por ela simultaneamente enriquecida e, inclusive, reavaliada em parte de seus pressupostos.

Com efeito, o papel central do anarquismo é a luta e a transformação da sociedade, objetivos a serem perseguidos pelos que se intitulam libertários. A ideologia não serve para salvar os indivíduos da monotonia de suas existências, ou mesmo dar sentido às mesmas, ela é antes uma orientação geral para a superação de um estado de coisas em favor de algo substancialmente melhor para todos e todas.

No atual contexto algumas correntes estão trocando a disposição para a luta, pela luta para a disposição. Uma disposição que visa menos ao foco no projeto classista e mais à projeção de certas personalidades. De eminências que contribuem cada vez menos para o classismo anarquista e cada vez mais para as suas reputações. Encontra-se em marcha um projeto de anarquismo a se esgotar nas biografias privadas, no voluntarismo interpessoal, nas sagas midiáticas. Um que nada tem de emancipador e que por isso não precisa pactuar com os produtores das riquezas qualquer tática ou estratégia. Um que se esgote no espaço de uma geração, para homenagear seus “próceres”, ainda que a custa da tradição anarquista que impede a existência da ideologia sem a sua inserção em bases sociais sólidas.

O risco de uma ideologia sem ossatura ou de um movimento social descarnado é imenso nos dias que correm. Não menos perigosa é a ideia, subsidiária à perspectiva anterior, segundo a qual a forma mais adequada de se deflagrar a revolução passa antes pela vontade particular de um grupo ou indivíduo. Nada mais desmobilizador que esperar de apenas uma parte a mudança do todo, nada mais paralisante e cristalizador que inferir de um episódio apenas o princípio de uma cadeia irreversível de eventos revolucionários. Nada mais anti-libertário que anunciar a revolução por profecias.

GAMA – Grupo de Afinidades de Movimentação Anarquista

https://daslutas.wordpress.com/2015/07/17/para-aqueles-que-cultivam-revolucoes-em-estufa/