(José Oiticica) Anarquista e filólogo brasileiro sobre as relações entre o português do Brasil e o português de Portugal


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Tem estado acesa a discussão sobre o Acordo Ortográfico. As opiniões dividem-se. Sem queremos tomar qualquer posição neste debate trazemos à colação uma entrevista publicada a 11 de Fevereiro de 1942, no “Diário de Notícias” do Rio de Janeiro, com o filólogo anarquista brasileiro José Oiticica, quando se debatia o Formulário Ortográfico de 1943. Alguns temas deste debate (como o desaparecimento das consoantes surdas) ainda hoje estão bem actuais.

José Oiticica foi um anarquista, professor e escritor brasileiro muito conceituado na sua época, tendo deixado uma grande obra, seja em termos de ficção, seja no campo da militância libertária. Esteve também profundamente ligado à insurreição operária de 1918 no Rio de Janeiro. Detido nessa altura, esteve preso durante 11 anos, até 1929.

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Fala-nos sobre a questão ortográfica o prof. José Oiticica

O conhecido filólogo é favorável à adoção integral do Vocabulário português

Responde hoje ao nosso inquérito sobre a questão da reforma ortográfica, o Prof. José Oiticica, catedrático do Colégio Pedro II, e um dos mais conhecidos e acatados cultores da filologia, autor de numerosos livros sobre a matéria, além de escritor de renome nacional.

UM ASSUNTO ENJOADO

Assim começou sua exposição sobre a questão ortográfica o prof. José Oiticica:

“ – Meu caro senhor, se há na terra assunto enjoado, para mim, é esse da ortografia. Enjoado, sim, porque pisam e repisam argumentos, sempre os mesmos, sempre sem nenhum valor. Toda discussão, conselho, apaziguamento têm sido inúteis porque temos procedido como criancinhas de colégio. Com efeito. Que tínhamos nós? O caus, simplesmente o caus (caus, no original). Houve, ao fazer em Portugal a reforma de 1911, verdadeiro levante de malocas. Toda a indiada nacionalista avermelhou as caras, turgesceu as jugulares, esbravejou contra o desrespeito à sagrada etimologia. Lembra-me bem que um dos mais acesos adversários foi o prof. Julio Nogueira, o mesmo que opôs agora, em sua entrevista recente, embargos à adoção do Vocabulário da Academia de Ciências Portuguesas. O prof. Nogueira, meu muito querido amigo, em tempo converteu-se e acabou adotando a escrita simplificada. Aquilo que parecia impossível aos tradicionalistas fez-se. Um decreto do governo aceitando a reforma venceu as oposições e o Brasil inteiro aceitou com prazer a medida benéfica; e aceitou a tal ponto que se revoltará se lhe quiserem impor um dia os ll, os ph, os th, etc.

INTEGRALMENTE FAVORÁVEL AO VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO PORTUGUÊS

– Agora – prossegue o prof. Oiticica, o próprio ministro pede à Academia que tome por base o Vocabulário Ortográfico português. Pois já se manifestam contrários alguns, só porque, em pontos mínimos, em coisas secundárias, como as distinções de timbres, há dificuldadezinhas. Mas, essas discordanciazinhas deixam-se de lado, que não valem a tinta gasta com elas. Sou dos que pensam que nada se pode fazer melhor. Deve-se aceitar, quanto antes, o sistema gráfico português. Só a prática e o tempo dirão se há o que melhorar e onde. O indispensável, o urgente é que haja unidade. Eu também discordo em certos pontos do sistema português, mas acho que não se lhe deve tocar, senão recairemos nas mesmas infantilidades e, peor ainda, em desvios horrendos. Quer um exemplo? O sistema português escreve o c de objectivo, objectivar, etc., embora impronunciado, como o p de adoptar, adoptivo, etc., para assinalar a abertura do c e do o. No Brasil era inútil isso, porque não temos essas diferenças sensíveis de timbre. E, assim, a Academia Brasileira, no acordo, mandou suprimir indistintamente todas as consoantes impronunciadas. Que sucedeu? Por este Brasil sem fim, foram suprimindo as consoantes em grupo, quer pronunciadas quer não. E apareceram em romances, cartazes, anúncios, por toda a parte, coisas destas: espetadores (por espectadores), pato (por pacto), adatar (por adaptar), eu oto (por eu opto), oção (por opção), adeto (por adepto), e assim por diante. Nós, professores, ficámos na impossibilidade de ensinar, porque tudo dependia da pronuncia de cada qual. Como as autoridades se esqueceram de fixar a pronuncia erro em  elisóide, elítico, defetivo, ato, atínia, etc., etc. (por elipsóide, elíptico, defectivo, apto, actínia)  visto que se generalizou a regra para quaisquer grupos e os alunos entenderam rapidamente, sem ninguém lhes ensinar e por mais que lhes ensinássemos o contrário, que deixariam de ser pronunciadas e que portanto não se escreveriam as consoantes dos grupos cc, ct, pc, pt, gd, gn, indistintamente. Saímos de um caus para cair noutro.

Conservando-se a grafia portuguesa põe-se cobro a tais disparates, embora paguemos um impostozinho de escrever muitas consoantes para nós inúteis. Inúteis na pronuncia, aqui, mas agora utilissimas, visto nos haver mostrado a experiência que o brasileiro é azougado e, sem cabresto, quer ir logo às do cabo.

O VOCABULÁRIO É BASTANTE ELÁSTICO

“ – Demais disso – esclarece ainda o nosso entrevistado – o Vocabulário é bastante elástico, pois permite formas duplas onde o brasileiro não puder seguir o português. Assim, admite quer, dando-nos a faculdade de refugar o para nós impossível quere, coisa que nunca houve em português e adotada não sei porque cargas dagua (sic). O quere-o, que nós também usaremos, não é razão para o quere, inventado agora. Adote-se, pois, quanto antes o Vocabulário, embora muito incompleto, mesmo na parte exclusivamente portuguesa, segundo deduzo de perfunctório exame.

E o prof. Oiticica, apanhando um livro, faz a prova de suas observações:

“ – É um livro português, do sr. Sousa Costa, Heróis, Santos e pecadores. Ainda não o li todo. Estou na página 106. Já assinalei sete (?) palavras que não figuram no Vocabulário: geresiano (pg. 21), anti-hitleriano (pg. 45) embora consigne anti-fascista, veranego (pg. 51), razia (pg.53), (?) (pg. 67), huguesco (pg.88), reptilinio (pg. 90), coprovinciano e comprovinciano (p. 104 e 106), etc., etc. Não há, no Vocabulário, nem huguesco, nem tão pouco hugeno (?) ou hugeanismo. Ora, como se vê, noto as falhas, tomando, ao acaso, um livro português, de autor incorreto e limitado léxico. Calcule o que seria se comparássemos o vocabulário de um Aquilino Ribeiro!

A ACENTUAÇÃO

Aludimos à versão segundo a qual uma das modificações sugeridas é o corte impiedoso nos acentos. O sr. José Oiticica opina:

“ – Seria grave erro. A falta de acentuação rigorosa é terrível óbice ao aprendizado das línguas. Veja o italiano. Que atrapalhação até para nós, da língua irmã. Veja, ao contrário, que facilidade nos depara o espanhol! Nossa língua é muito pouco sabida lá fora. Deveremos facilitar, o mais possível, sua aquisição. Um sistema diacrítico rigoroso é uma das chaves para isso. Para os próprios indivíduos de fala portuguesa é remédio às numerosas dúvidas e contínuos erros. Espero que a comissão revisora, se houver, não ampare tão nefasta medida e aceite a acentuação portuguesa tal qual se acha. O que houver de excessivo, para nós, alijaremos na prática, desde que o Vocabulário atende a formas concomitantes se assim o exigirem as circunstâncias.”.

relacionado: http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5(15)58-67.html

ler notícia aqui: dn rio de janeiro

2 comments

  1. «E, assim, a Academia Brasileira, no acordo, mandou suprimir indistintamente todas as consoantes impronunciadas. Que sucedeu? Por este Brasil sem fim, foram suprimindo as consoantes em grupo, quer pronunciadas quer não. E apareceram em romances, cartazes, anúncios, por toda a parte, coisas destas: espetadores (por espectadores), pato (por pacto), adatar (por adaptar), eu oto (por eu opto), oção (por opção), adeto (por adepto), e assim por diante. Nós, professores, ficámos na impossibilidade de ensinar, porque tudo dependia da pronuncia de cada qual.»

    Completamente actual, é precisamente o que está a acontecer à ortografia pós-Acordo Ortográfico em Portugal. Os fautores do AO não vislumbraram isto? Um verdadeiro crime contra a língua!

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