(nota de leitura) O Homem Verde


homemlivre

Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

Manoel de Barros, Beco da Marinha, beira do rio Cuiabá

*

Filipe Verde, um antropólogo português, escreveu O Homem Livre (Ed. Angelus Novus, 2008) sobre os Bororo e a sua filosofia de vida. Sobre o que resta da sua cultura, sobre as suas ruínas, porque, em se falando de sociedades ameríndias, é disso que se trata. Mas aprendemos sobretudo neste livro sobre “naturalismo ético”, sobre como se pôde renunciar à violência perscrutando a natureza. Diz Verde: “a compreensão da natureza é aquilo a que nós chamamos “moral”. Uma moral que está presente, e como!, de uma forma que permite conciliar o inconciliável: enorme liberdade individual com uma ordem e paz social que roça a nossa ideia de utopia, mas uma moral que nunca se formula como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado uma coisa prescritiva, e de a moral se ter casado com a religião e com a filosofia, que a ergueram contra a natureza e nos tornaram muito inautênticos, cada vez menos livres. E muito neuróticos.”  (Entrevista ao Jornal Público, 09-09-2009)

A fotografia da capa é de Claude Lévy-Strauss, retirada dos seus famosos Tristes Trópicos (por vezes parece-me um dos livros mais inteligentes e comoventes escritos no século XX), que tem um capítulo dedicado aos Bororo.

Luís Serra, Évora

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