As ideias já não são o importante. O mais importante é o valor em euros do teu voto. 2,84 euros por ano. É isso que o teu voto vale.


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A política à portuguesa é uma mina para os políticos, mas paga (e bem) por quem trabalha!

Para além de todas as benesses de que os agentes do sistema político usufruem (altos salários, capacidade de colocar os seus militantes nos mais diferentes cargos, acesso a fundos e a formas de financiamento diversos, corrupção, jogos de interesse, etc., etc.) existe uma lei de financiamento dos partidos políticos que faz com que sejamos todos nós, contribuintes, a financiá-los. Nós e não, como seria natural, os seus militantes. Segundo esta lei, a cada voto obtido pelos partidos nas eleições legislativas corresponde um subsídio anual de 2,84 euros (1). O que significa (se não alterarem a lei para conseguirem mais uns cobres para as máquinas partidárias),  com base nos resultados das eleições deste mês, que a coligação CDS/PSD, que obteve pouco menos de 2 milhões de votos, vai receber, anualmente, só para despesas de funcionamento, 5 milhões e 662 mil euros; o PS com 1.7478.685 votos recebe quase 5 milhões de euros; o BE com  550.892 recebe 1 milhão e 564 mil euros e o PCP/PEV com quase 446 mil votos recebe 1.266.583 euros; o PSD onde concorreu sozinho, com 81 mil votos recebe 210 mil euros; o PAN, com 75 mil votos recebe 213.397 euros; o PDR com 61.632 votos recebe 175.034 euros e o PCTP/MRPP, com perto de 60 mil votos recebe 170 mil euros.

É um fartar vilanagem: se a isto somarmos o pagamento dos gastos das campanhas eleitorais, dos altos salários que todos estes eleitos ganham (para além das despesas de representação, da corrupção instalada em todo o sistema político que faz com que as despesas do Estado derrapem a todo o momento, as golpadas que existem com base e em torno dos fundos comunitários, um sistema de impostos que apenas favorece os grandes negócios e as grandes empresas, nomeadamente as multinacionais e os bancos) é caso para dizer que Portugal – ao contrário do que se pensa –  tem que ser um país muito rico para que quem trabalha consiga aguentar a voragem e o saque a que toda esta gentinha tem levado o país.

Claro que a democracia tem os seus custos. Mas NÃO PODE ter estes custos tão violentos para quem trabalha:  a classe política, em nome de uma falsa representação, constitui hoje uma casta vampiresca que suga o suor de quem trabalha – e para quem estes subsídios e financiamentos representam apenas uma infíma parte do roubo diário exercido sobre a esmagadora maioria da população que, como se sabe, não está empregada nem faz parte da “entourage” no grande negócio da política.

Quem se quer organizar em partidos políticos que o faça – mas sem subsídios de todos nós.

Quem tem uma ideia para partilhar, que o faça – mas não temos que ser nós a pagar tal proselitismo.

Os partidos e a classe política estão a viver cada vez mais acima das nossas possibilidades.

Para nós, que não aceitamos que nos representem, só a autogestão e a gestão directa das nossas vidas, sem subsídios nem castas dirigentes, pode acabar com os intermediários da política a quem  – como a quaisquer intermediários – só interessa o lucro e o que recebem. Construíram este regime opressor, centrado no fisco (embora camuflado na mentira do “estado de bem-estar” ou “estado distributivo” – só se for entre eles -), onde recebem as mais-valias de quem trabalha para as distribuir entre os seus. Cada vez é mais visível este fosso entre os de baixo e os de cima – os de baixo, os que que produzem e financiam todos o sistema; os de cima, a classe rica e exploradora e os seus aliados da classe política, organizada em grupos de interesses e especialista no “agora exploro eu, amanhã mandas tu”, como se não houvesse alternativa.

Mas há. E essa alternativa só depende de cada um de nós recusar que o representem e chamar a si próprio a sua própria representação. A isso chama-se assemblearismo, democracia directa, autogestão. Sem termos intermediários a cobrarem fundos sem fim para nos representarem. Sem a corrupção de uma classe política, de braço dado com os patrões, hábil na compra e na venda de influências.

E pensa nisto: cada vez que votas, está também a financiar a máquina partidária em que votaste. Já não são, para eles, as ideias o importante. O mais importante é o valor em euros do teu voto. 2,84 euros por ano. É isso – apenas isso – que o teu voto vale.

Luís Mendes (por email)

(1) De acordo com a lei do financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais, todos os partidos que obtenham mais de 50 mil votos nas eleições legislativas têm direito a receber uma subvenção que é calculada com base no salário mínimo nacional (SMN) de 2008. Cada voto vale 1/135 do valor do SMN 2008 (426 euros), ou seja, 3,155 euros. Mas, devido às medidas de austeridade do Governo de Pedro Passos Coelho, até Dezembro de 2016, o montante final sofre um corte de 10%. Assim, para efeitos de cálculo, cada voto vale actualmente, em termos líquidos, 2,84 euros.

One comment

  1. Será preferivel deixar os partidos entregues ao capital dos seus militantes e apoiantes que, quando são economicamente poderosos vão apoiar (como já o fazem) o partido em troca de medidas posteriores que lhes deixem a porta aberta para que defendam os seus interesses pessoais?

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