(David Graeber) Entrevista do anarquista norte-americano a propósito do seu último livro


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David Graeber “O neoliberalismo fez-nos entrar na era da burocracia total”

Por AGNÈS ROUSSEAUX, RACHEL KNAEBEL(*)

Papelada e formulários invadiram as nossas vidas e cada vez mais pessoas consideram que o seu trabalho é inútil e não traz qualquer contributo ao mundo. Apesar do que martelam os ultraliberais não é por causa do Estado e dos seus funcionários, mas por causa dos mercados e da sua financeirização. “Qualquer reforma para reduzir a ingerência do Estado terá como efeito último fazer crescer o número de regulamentos e o volume da papelada”, explica David Graeber, antropólogo dos Estados Unidos e cabeça de fila do movimento Occupy Wall Street no seu novo livro “Burocracia” (**). Ele apela à esquerda para que renove a critica a esta “burocracia total” com que nos debatemos quotidianamente.

Basta!: Você afirma que estamos imersos numa era de “burocracia total”. Quais são os sinais disso?

DavidGraeberBioDavid Graeber (1): Basta medir o tempo que nós consagramos a preencher formulários. Alguém calculou que os cidadãos dos Estados Unidos passam em média seis anos das suas vidas a esperarem-se que os semáforos passem do vermelho ao verde. Ninguém ainda calculou quanto tempo passamos a preencher formulários! Talvez um ano inteiro… É a primeira vez na história que nós atingimos este nível de burocracia.

O número de ocorrências da palavra “burocracia” aumenta nos livros até 1974, depois diminui. Mas as palavras que se associam em geral aos procedimentos burocráticos, como “papelada”, “documentos a fornecer”, ou “avaliação do rendimento” aumentam de maneira continua e dramática. Nós estamos, por isso, cercados por procedimentos burocráticos, mas não os identificamos enquanto tais. É isso que eu tento analisar no meu livro.

O sociólogo Max Weber afirmava já que o século XIX tinha inaugurado a era burocrática. Em que é que esta situação é nova?

A diferença é que a burocracia é tão total que nós a deixámos de ver. Nos anos de 1940 e 1950, as pessoas queixavam-se do absurdo que era. Hoje, nem sequer imaginamos uma maneira de organizar as nossas vidas que não seja burocrática! O que é igualmente novo é a criação da primeira burocracia planetária. Um sistema de administração que ninguém, no entanto, identifica como uma burocracia, porque se trata essencialmente de uma questão de comércio livre. Mas o que é que isso significa realmente? A criação de tratados internacionais e duma classe inteira de administradores internacionais que regulam as coisas, chamando no entanto a todo este processo de “desregulação”

A burocracia não é somente uma maneira de gerir o capitalismo. Tradicionalmente, o papel do Estado é de garantir as relações de propriedade, de regular para evitar a explosão social. Mas a burocracia tornou-se um meio ao serviço das estruturas de obtenção de lucros: os lucros são extraídos directamente através de meios burocráticos. Hoje a maioria dos lucros não têm nada a ver com a produção, mas com a finança. Mesmo uma companhia como a General Motors tem mais lucro a financiar a compra de viaturas através do crédito, do que pela sua produção. A finança não é um mundo irreal completamente desligado da economia real, onde as pessoas especulam e fazem apostas, ganham dinheiro a partir do nada. A finança é um processo que extrai rendimentos para alguns, alimentando-se da dívida dos outros. Eu tentei calcular a parte dos rendimentos das famílias nos Estados Unidos que é extraída de forma directa para alimentar o sector da finança, dos seguros e do imobiliário. Foi impossível obter dados!

Tudo isso é permitido pela fusão progressiva da burocracia pública e privada, desde os anos de 1970 e 1980. Isso opera-se através de um conluio burocrático entre o governo e a finança privada. O 1% (os mais ricos) de que fala o movimento Occupy Wall Street são pessoas que monopolizam os seus lucros aos mesmo tempo que financiam as campanhas eleitorais, influenciando assim os responsáveis políticos. O controlo do político é hoje essencial nesta dinâmica de monopolização dos lucros. E a burocracia transformou-se num meio ao serviço deste processo, coma fusão da burocracia pública e privada, saturada de regras e regulamentos, e cujo objectivo último é extrair lucro. É aquilo a que chamo a era da “burocracia total”.

As pessoas opõem muitas vezes a burocracia estatista ao liberalismo económico. Mas “é preciso mil vezes mais papelada para manter uma economia de mercado livre do que a monarquia absoluta de Luís XIV”, escreveu. O liberalismo aumenta a burocracia?

É objectivamente verdade. Olhe o que se passa! A estatística mais impressionante diz respeito à Rússia depois da queda da União Soviética. Segundo o Banco Mundial, entre 1992 e 2002, o número de funcionários aumentou 25% na Rússia (2). Ainda que a dimensão da economia tenha diminuído substancialmente e que por isso existisse menos a gerir. Os mercados não se auto-regulam: para os manter em funcionamento é preciso um exército de administradores. Não apenas no governo, mas também nas companhias privadas.

O que se entende muitas vezes como burocracia, são também estruturas sociais fiáveis e perenes, que fazem com que a sociedade funcione, como seja a Segurança Social…

Muitas instituições sociais que hoje se associam ao Estado providência foram criadas “pela base”. Eu descobri-o aos discutir com suecos: nenhum dos serviços sociais da Suécia foram criados pelo governo. Todas as clinicas, bibliotecas públicas, seguros sociais, foram criados por sindicatos, por comunidades de trabalhadores. O governo quis depois geri-las a um nível centralizado, burocrático, explicando que isso seria mais eficaz. Evidentemente, logo que o Estado toma o seu controlo, pode privatizar os serviços. É o que acontece.

Você sublinha também os laços entre o desenvolvimento da burocracia e o dos “empregos de merda” (3) que analisou num trabalho anterior. Todos os burocratas têm “empregos de merda”?

Nem todos! A minha ideia sobre os “empregos de merda” é perguntar às pessoas acerca do valor do seu trabalho. Eu não quero absolutamente nada dizer a alguém: “O que você faz não é útil”. Mas se uma pessoa me diz que o seu trabalho não traz nada de útil, eu acredito. Quem é que pode saber melhor do que ela própria? Depois do meu trabalho sobre os “empregos de merda”, a agência inglesa de estatística YouGo fez uma sondagem. Resultado: 37% das pessoas interrogadas pensam que o seu trabalho é inútil e que não traz qualquer contributo para o mundo (4)

Eu fiquei espantado com um resultado destes! O maior número de pessoas que pensa que o seu trabalho é inútil está no sector administrativo. Poucos condutores de autocarros, canalizadores ou enfermeiros pensam que o seu trabalho é inútil. Muitosd os “empregos de merda” são “burocráticos”, seja no sector privado ou no público. Um exemplo? Estas pessoas que vão a reuniões e escrevem relatórios para outras pessoas que vão a reuniões e que escrevem relatórios. Quando o meu artigo foi publicado na web eu não imaginava que houvesse pessoas a fazerem confissões, como estas, sobre o seu trabalho: “ Eu dou ordens para deslocar fotocopiadoras dum lado para o outro”, ou “O meu trabalho é o de adaptar formulários alemães para formulários ingleses e todo o edifício faz isso”… É incrível. Quase todos estes empregos eram no sector privado.

Como é que explica então que nós estejamos tão ligados à burocracia que nem cheguemos a pôr em questão este processo e que continuemos a alimentar o seu desenvolvimento?

Eu analisei isso utilizando a analogia do “medo do jogo”. Há alguma coisa de muito atractivo no jogo, que é uam expressão da liberdade de cada um, mas também alguma coisa de assustador. Se as pessoas gostam tanto de jogos é porque é a única situação em que se sabem exactamente quais são as regras. Na vida somos constantemente envolvidos em jogos, em intrigas, no trabalho ou entre amigos. É como um jogo, mas nunca se está completamente seguro de saber quem são os jogadores, quando começa ou acaba, quais são as regras, quem ganha. Numa conversa com a vossa madrasta, sabe-se bem que existem regras, mas não se sabe exactamente quais, o que é que poderá ser dito ou não. Isso torna a vida difícil. Nós ficamos assustados com o arbitrário.

Não se quer um poder que seja arbitrário. Uma escola de pensamento nos Estados Unidos, o republicanismo cívico, diz que a liberdade significa saber quais são as regras: quando o Estado vos pode forçar e quando não o pode fazer. Partindo daqui, é preciso criar cada vez mais regulações para se ser livre. Paradoxalmente, nas sociedades que se consideram como livres, muitos aspectos são regulados pela coerção, pela violência.

A burocracia é o sintoma duma sociedade violenta?

A burocracia não é estúpida em si mesma. Ela é o sintoma da violência social, que é estúpida. A violência estrutural – que inclui todas as formaa de desigualdades estruturais: patriarcado, relações de género, relações de classes… – é estúpida. Onde existe uma desigualdade de poder existe uma forma de ignorância e de cegueira. A burocracia parece estúpida em si mesma, mas ela não causa estupidez, ela gera-a! Mesmo quando a burocracia é benevolente, sob a forma de Estado social, ela continua assente numa forma de cegueira estrutural, em categorias que não têm grande coisa a ver com aquilo que é a experiência das pessoas. Quando os burocratas tentam ajudar-vos, eles não vos compreendem, não vos querem compreender, e não estão sequer autorizados a compreender-vos.

Você escreve que a crítica da burocracia vem hoje da direita e não da esquerda. E que os populistas compreenderam bem que a critica da burocracia era rentável do ponto de vista eleitoral…

É um dos problemas que inspirou o meu livro. Porque é que é a direita a tirar todas as vantagens da indignação popular contra a burocracia, quando é a direita que está na origem duma grande parte desta burocracia? É ridículo. Nos Estados Unidos, a direita descobriu que se aumentassem os impostos duma maneira injusta, e se depois viessem dizer que vinham baixar os impostos, as pessoas votavam neles. Há qualquer coisa de similar com a burocracia em geral. A esquerda caiu nesta armadilha pela maneira como defende a ideia de um Estado social fazendo compromissos com o neoliberalismo. Ela acaba por abraçar esta combinação de forças entre o mercado e a burocracia. E a direita tira disto todas os benefícios, pelos dois lados – dum lado, os libertarianos que gostam do mercado, mas criticam a burocracia; do outro, a ala fascista, que é crítica do mercado. A direita concentra toda a raiva populista neste assunto. E a esquerda acaba por defender os dois, o mercado e a burocracia. É um desastre político.

Como é que o movimento altermundialista renovou esta crítica de esquerda à burocracia?

O movimento altermundialista procura identificar estruturas burocráticas que não é provável estarem visíveis. Mas não apenas para as tornar visíveis, mas também para mostrar a que ponto estas estruturas não são necessárias, e que é possível fazer as coisas de outro modo, duma maneira não burocrática. Porque é que os procedimentos democráticos são também importantes no movimento altermundialista? Porque tenta criar formas de decisão não burocráticas. Neste movimento, não há regra, há princípios. É uma negação pura da burocracia. Certamente que estes processos têm tendência a burocratizar-se se não se lhes dá atenção, mas tudo é feito para o evitar. O meu trabalho sobre a burocracia vem da minha experiência de activista no movimento altermundialista.

Mas o movimento altermundialista bate-se também por mais regulação, por exemplo no sector financeiro…

O movimento altermundialista bate-se por regulações diferentes! E não devemos cair na armadilha de que os nossos adversários são favoráveis às desregulações. Não pode haver um banco não regulado, é absurdo: os bancos estão totalmente baseados em regulações. Mas regulações a favor dos bancos! Quando de fala de re-regulação isso significa pôr os consumidores no centro, mais do que os bancos. Nós devemos abandonar esta linguagem de “mais ou menos regulação”. O neoliberalismo criou mais regulações do que os sistemas económicos precedentes.

Vê a critica da burocracia na experiência de democracia directa em Rojava, no Curdistão sírio?

O exemplo sírio é verdadeiramente interessante. Eu fiz parte duma delegação de universitários em Dezembro passado que observou no local o processo democrático. Eles estão verdadeiramente a tentar criar uma sociedade não burocrática. É o único local que eu conheço onde existe uma situação de poder “dual” onde os dois lados foram criados pelas mesmas pessoas. Dum lado, assembleias populares de base, e do outro estruturas que se assemelham a um governo e a um Parlamento. Estruturas necessárias, porque para cooperar com as instituições internacionais é preciso uma espécie de governo burocrático institucional efectivo, senão eles não vos levam a sério. Mas em Rojava, quem quer que leve uma arma deve responder primeiro às bases antes de responder às estruturas do “alto”. É por isso que dizem que não se trata dum Estado, porque não reclama o monopólio da violência coerciva.

Pode-se inaginar um Estado sem burocracia?

O Estado é a combinação de três princípios de origem histórica completamente diferentes; primeiro, a soberania, o monopólio da força num dado território. Segundo, a administração, a burocracia, a gestão racional dos recursos. E em terceiro, a organização do espaço político, com personagens em competição, de entre os quais a população escolhe os seus dirigentes. Na Mesopotâmia, havia muita burocracia, mas nenhum princípio de soberania. A ideia de responsáveis políticos em competição vem de sociedades aristocráticas. E o princípio da soberania vem dos Impérios. Estes três princípios fundiram-se em conjunto no Estado moderno. Nós hoje temos uma administração planetária, mas ela não tem o princípio da soberania nem o campo político. Estes princípios a priori não têm que estar juntos, mas estamos habituados a que estejam.

Como é que explica que, no imaginário social, os mercados, o liberalismo, apareçam como os únicos antídotos à burocracia?

È a grande armadilha do século XX: esta ideia de que não há senão uma alternativa – os mercados ou o Estado – e que é preciso opô-los. No entanto, historicamente, os mercados  e os Estados cresceram em conjunto. Eles são mais parecidos do que são diferentes; os dois têm a ambição de tratar das coisas da maneira mais racional e mais eficaz possível.

Recordo uma entrevista do general sul-africano no momento em que Nelson Mandela chegou à presidência do país. Perguntavam-lhe: “Não acha um pouco estranho receber ordens de alguém que combateu durante 20 anos?” Ele respondeu: “Enquanto militar é uma honra receber ordens, qualquer que seja a pessoa que as dá”. De facto, este não é um comportamento especialmente militar, mas burocrático. Porque isto não se passaria assim num exército medieval. Ser um burocrata significa fazer o que se vos pede e separar os meios e os fins. Esta separação tornou-se uma base da consciência moderna. Só duas instituições – mercado e Estado – operam desta maneira.

Notas

(1) (Anarquista), antropólogo, economista e antigo professor na Universidade de Yale, David Graeber é actualmente professor na London School of Economics. Segundo o New York Times é um dos intelectuais mais influentes actualmente. E é um dos iniciadores do movimento Occupy Wall Street

(2) De 1 a 1,25 milhões

(3) Ler o artigo aqui.

(4)Ver os resultados dessa sondagem aqui.

(*) Entrevista originalmente publicada aqui: http://www.bastamag.net/Le-neoliberalisme-nous-a-fait-entrer-dans-l-ere-de-la-bureaucratie-totale

(**) David Graeber, – The Utopia of Rules: On Technology, Stupidity, and the Secret Joys of Bureaucracy – February 24, 2015

Relacionado:  https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/01/17/david-graeber-a-maneira-mais-simples-de-desobedecer-ao-meio-financeiro-e-recusar-pagar-as-dividas/

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