(Atentados em Paris) Vos guerres nos morts


vos guerres

A Guilhotina analisa o contexto maior dos ataques em ‪#‎Paris‬ . O que pretende o ‪#‎ISIS‬ com estes ataques? O imperialismo e extremismo que dizem ser inimigos não são afinal os melhores dos amigos?

Ontem em Paris uma série de atentados coordenados matou mais de 128 pessoas e feriu mais de 200. Os ataques foram reivindicados pelo ‪#‎EstadoIslâmico‬ (nota: não está comprovado que foram de facto responsáveis, mas vamos assumir que sim para os propósitos do artigo, uma vez que a análise não se alteraria substancialmente por isso). 8 terroristas morreram. http://bit.ly/1N2x2uL |http://bit.ly/1MOnTzv

Como será escusado dizer, as vítimas dos ataques têm toda a nossa solidariedade e apenas podemos desejar que todos os envolvidos neste acto cobarde sofram as devidas consequências.

Cabe-nos agora a tarefa (que os media tradicionais não farão) de fazer uma análise fria e mais completa dos interesses envolvidos, incluíndo do governo francês, na criação e alimentação da serpente chamada ISIS e do porquê o ISIS levar a cabo ataques aparentemente contra os interesses dos muçulmanos num momento em que há grandes esforços para evitar a subida da extrema-direita perante a crise dos refugiados resultantes das guerras no Médio Oriente.

A ESTRATÉGIA DO ISIS
Algumas das tácticas do ISIS parecem ser contra-produtivas. Se se dizem defensores do Islão, porquê um ataque neste momento, quando a extrema-direita de Le Pen está prestes a fazer grandes ganhos e só sairá reforçada da situação (http://bit.ly/1MtKLVI)? Porquê agravar ainda mais o drama dos refugiados muçulmanos que fogem das guerras? Porquê aumentar ainda mais a perseguição aos 4.7 milhões de muçulmanos (http://pewrsr.ch/1IOqEQ1) a viver pacificamente em França?

A verdade é que o ISIS está a seguir os ditames básicos da insurgência violenta. O objectivo é precisamente o extremar das posições. Uma organização como o ISIS alimenta-se da barbárie mais completa, onde os muçulmanos são obrigados a escolher entre a organização violenta ou destinos como a morte, a prisão ou a miséria. Para gerar este ambiente, não pode ser dado espaço a vozes moderadas, apenas à escolha binária “nós ou eles”. São portanto adeptos do “quanto pior, melhor”. Para o ISIS, é bom que os muçulmanos sejam perseguidos e a extrema-direita ganhe poder, porque isso ajuda a vender a narrativa da guerra de civilizações. O regresso da xenofobia e dos campos de concentração à Europa só vai servir para gritarem aos quatro ventos que afinal tinham razão.

É em parte por este motivo que tendem a atacar zonas turísticas e de recreação, tal como aconteceu na Índia (http://bit.ly/1McueHZ) e Tunísia (http://bit.ly/1kwdfHA). Se estão assim tão zangados com as intervenções imperialistas, porque não fazer ataques a responsáveis políticos? A infraestrutura militar? Em vez disso atacam civis e turistas inocentes. Esta estratégia garante:

Um grande número de mortos devido à alta densidade populacional dessas zonas e muita publicidade pela grande visibilidade dos ataques. Sem publicidade acabam-se os novos recrutas.
O extremar das posições políticas e da repressão doméstica devido ao sentimento de insegurança gerado, uma vez que as pessoas deixam de se sentir seguras nos locais onde é suposto estarem mais relaxadas.
O declínio da empregabilidade de muçulmanos, tanto via estigmatização como do declínio do emprego associado ao turismo, o que é mais um garante do extremar de posições.
Internamente, podem vender estes ataques como um combate à “decadência” ocidental (dizem os tipos que implementam a escravatura sexual nas zonas que conquistam).

A EXTREMA-DIREITA AGRADECE
Esta é uma estratégia que também serve como uma luva à extrema-direita europeia, que sem a bengala da xenofobia crescente nunca passaria de um furúnculo no rabo do capitalismo. Provavelmente não há noite em que Marine Le Pen não reze um agradecimento a todos os santinhos por lhe terem enviado os imbecis do ISIS.

ALIMENTAR A SERPENTE
A questão de que ninguém quer falar neste momento: os governos franceses têm culpas no cartório – os Sarkozys e Hollandes deste mundo não são inocentes espectadores.

O governo francês vendeu em inúmeras ocasiões armas à Arábia Saudita, a mais recente até teve direito à visita do primeiro-ministro Valls ao reino HÁ APENAS UM MÊS ATRÁS. Já repararam que a Arábia Saudita está sempre a comprar imensas armas apesar de estar envolvida em poucos conflitos? Pois, é porque precisa de armar toda a escumalha mercenária salafista que usa como frente nas guerras da Síria, Líbia, Iraque, etc. Todas as potências ocidentais sabem disso mas continuam a vender armas ao reino. Porque será? | http://f24.my/1RE8dU2
Não contente com apenas usar testas-de-ferro, o governo de Hollande também enviou armas directamente para os “rebeldes” sírios. Aqueles elusivos rebeldes moderados pro-democracia que depois acabam sempre por ser grupos salafistas como a Al-Nusra ou outros com ligações próximas ao ISIS | http://bit.ly/1MIAecK
E se armas não bastarem, o governo francês também enviou dinheiro para os “rebeldes” | http://bit.ly/1kw6BRN
O governo francês foi um dos mais aguerridos apoiantes do ataque à Líbia, fragmentando o país e criando o vácuo de poder que permitiu a entrada dos jihadis. A Força Aérea francesa realizou o maior número de ataques aéreos das forças da NATO, quando há apenas alguns meses antes Gaddafi era recebido com honras de Estado em França por Sarkozy. Tudo porque o anão-presidente estava com medo de perder terreno para a extrema-direita de Le Pen e precisou de mostrar que era um durão | http://bit.ly/1MdzFpS | http://bit.ly/1kw6Tbh

Sendo que não é possível acreditar nas gigantescas quantidades de estupidez necessárias por parte dos governos franceses para que tudo isto se trate de um terrível mal-entendido, temos de assumir que estas acções são deliberadas, tais como as acções semelhantes dos EUA e Grã-Bretanha.

A verdade é que os terroristas do ISIS e companhia são como “um sorvete que se lambe a si mesmo”, como dizem os americanos. Ajudam à venda de armas, quer para si mesmos, quer para quem os combate, beneficiando o complexo industrial-militar. Ajudam a fragmentar o Médio Oriente em linhas sectárias, garantindo que nunca haverá uma força unificada capaz de enfrentar o imperialismo e a rapina de recursos naturais. Sempre que fazem um ataque no Ocidente, justificam novas políticas repressivas e carreiras políticas que de outro modo não existiriam. E finalmente, pelos seus abomináveis actos, ajudam a vender ao público a necessidade de novas intervenções armadas. E através da revolta gerada por mais rondas de bombardeamentos, grupos como o ISIS são reforçados com novas enchentes de recrutas e dinheiro, renovando o ciclo.

A CEGUEIRA SELECTIVA DOS MEDIA
Anteontem, 40 pessoas morreram em Beirut num ataque reivindicado pelo Estado Islâmico. Durante as últimas duas semanas, várias cidades curdas estiveram sob ataque do exército turco. No final de Outubro, a Arábia Saudita bombardeou um hospital dos Médicos Sem Fronteiras no Yemen, fazendo vários feridos (http://on.fb.me/1Mt1CYU). Também em Outubro, um hospital em Jerusalem oriental foi várias vezes atacado por forças israelitas que invadiram o complexo e dispararam gás lacrimogéneo, granadas e balas reais contra os médicos e a população (http://on.fb.me/1izqk14). Centenas de ataques contra imigrantes e refugiados aconteceram por toda a Europa desde o início do ano. Milhares e milhares de mortos muçulmanos foram provocados pelo ISIS (muitas vezes mortes nada agradáveis | http://thebea.st/1t1UoGJ | http://bit.ly/1rGSQhK) e este é combatido principalmente por outros muçulmanos.

Sobre nenhum destes assuntos se fala nos mass media. No entanto, quando os ataques acontecem numa importante capital europeia, quando as vítimas são europeias, a indignação e o terror são imediatos. Este tipo de cobertura mediática só ajuda a fazer o trabalho sujo do imperialismo ao menosprezar o sofrimento que este causa mas empolar todos os “danos colaterais” destas políticas. Mas que mais esperar? Jogam todos na mesma equipa.

O FALHANÇO DA ESQUERDA
Não se pode deixar de apontar que a esquerda falhou completamente no seu papel de organizar e dirigir a justa revolta da população muçulmana emigrante e filha de emigrantes, guettizados, contra o seu verdadeiro inimigo: o capitalismo imperialista. Medo de não parecer respeitável perante o voto da classe média? Seja o que for, deixaram esta massa humana nas mãos dos fundamentalistas islâmicos e, por extensão, da extrema-direita, o que há muito se revelou um erro terrível.

aqui: https://www.facebook.com/guilhotina.info/photos/a.440006416115840.1073741829.434894793293669/842177515898726

relacionado: http://blogs.mediapart.fr/blog/enavant/141115/vos-guerres-nos-morts-julien-salingue

http://www.alasbarricadas.org/noticias/node/35227

stal2

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