(1961) O maior massacre em solo francês desde a segunda guerra mundial


aqui afogaram os argelinos

Inscrição junto ao Sena: aqui afogaram os argelinos

Os atentados de Paris do passado dia 13 têm sido referidos como “os maiores” desde a II Guerra Mundial. No entanto, em 1961 houve um massacre também de grandes dimensões na capital francesa. As vítimas foram manifestantes solidários com a independência da Argélia. O papel de “terroristas” foi então desempenhado pelas forças policiais francesas. Os massacres partiram agora, em 2015, de um grupo dito “terrorista”. Mas muitos massacres, a maioria, têm sido cometidos pelos Estados, pelas suas polícias e exércitos, por todo o mundo e em todas as épocas. Seja em democracia (como em Paris) ou em ditadura fascista (como no Chile). Só para nos situarmos no pós II Guerra Mundial. Também aqui, inocentes, são sempre – e apenas – as vítimas. Todas as vítimas.

A 17 de Outubro de 1961 as ruas de Paris tingiram-se de vermelho e o Sena encheu-se de cadáveres

Gontzal Martinez de la Hidalga (*)  

Paris sofreu a maior matança desde a segunda guerra mundial. Na sua capital uma multidão de gente inocente morreu às mãos de uma violência cruel e implacável. Numa acção vil destruiu-se a esperança de vitimas inocentes e das suas famílias. O mundo devia estar consternado e expressar a sua repulsa perante actos como este. Não é legítimo matar inocentes de maneira indiscriminada sob nenhum pretexto ideológico. O respeito pela vida de pessoas inocentes deveria ser a base de qualquer comportamento. Acções tão bárbaras como esta fazem que nos envergonhemos de pertencer ao género humano. Esta acção torna-nos a todos, os que acreditamos na liberdade e na democracia, em alvos.

Estas palavras poderiam ser de 17 de Outubro de 1961, o dia em que Paris viveu a maior matança desde o final da segunda guerra mundial. Mais de 20.000 milheres, homens e crianças desfilaram pelas ruas de Paris para protestar contra o recolher obrigatório imposto à população “francesa muçulmana da Argélia” pelas autoridades. Milhares de pessoas foram agredidas, detidas e assassinadas às mãos da polícia. As pessoas de origem argelina não foram as únicas vítimas, pois a polícia detinha os transeuntes baseando-se unicamente nos seus traços físicos. Qualquer pessoa de aspecto mediterrânico podia ser detida, agredida e assassinada. Algumas das vítimas acabaram no Sena, mas outras foram “dissimuladas” de maneira mais discreta. Muitas pessoas foram detidas no Palácio dos Desportos e no estádio Pierre de Coubertin onde sofreram um tratamento brutal. (Relacionado [Hemeroteca] El octubre negro de París.)

Santiago do Chile, Setembro de 1973

Anos depois algo parecido viveu-se no estádio de Santiago do Chile depois do golpe de estado de Pinochet. A junta golpista chilena e o “democrático” governo francês utilizaram a mesma táctica. As autoridades francesas ocultaram os factos e negaram qualquer implicação durante décadas. Charles de Gaulle considerou que era “um assunto secundário”, segundo as suas próprias palavras, e durante esse outono alguns historiadores elevam as vítimas mortais da repressão até cerca de 400. O governo francês não reconheceu a matança e não admitiu a sua responsabilidade até 17 de Outubro de 2012.

Paris, Maio de 1945

De igual modo, anos antes, no dia 8 de Maio de 1945, quando a Europa celebrava o triunfo sobre os nazis, fora do hexágono, mas em “território francês da Argélia”, a população manifestava-se reclamando a independência. As forças coloniais lançaram uma campanha repressiva em várias cidades e os dias seguintes deixaram um saldo de 45.000 mortos, segundo o Estado argelino e de 15.000 a 20.000 segundo historiadores europeus. Trata-se de um dos capítulos mais obscuros na história da Argélia e da França, que governou este país norte-africano com mão de ferro desde 1830 a 1962. Durante a guerra pela independência (1954-1962) calcula-se que a França assassinou mais de um milhão de argelinos em nome da bandeira tricolor e da Marselhesa.

 “O maior massacre em solo francês desde a segunda guerra mundial”. Assim começavam por estes dias as crónicas e os artigos de numerosos jornalistas que informavam ou opinavam sobre os terríveis assassinatos de Paris de Novembro de 2015. Estes actos, tão cruéis, injustos e desprezíveis como os de 1945 ou 1961, só podem despertar a nossa mais firme repulsa e a maior solidariedade com as vítimas e as suas famílias. No entanto, porque todas as vítimas merecem o mesmo respeito, não podemos faltar à verdade e devemos recordá-las todas. Não criemos vítimas de primeira e de segunda.

21/11/15

(*) membro do Komite Internazionalistak, organização internacionalista do País Vasco

aqui: https://www.diagonalperiodico.net/saberes/28449-la-mayor-masacre-suelo-frances-desde-la-segunda-guerra-mundial.html

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s