Kropotkin: “a ajuda mútua representa na evolução um importante elemento de progresso”


kropotkim

Piotr Kropotkin nasceu a 9 de Dezembro de 1842, faz hoje 173 anos. Cientista, investigador, geógrafo, militante e teórico anarquista, Kropotkin desenvolveu a teoria do apoio mútuo, ou seja, num mundo em que o pensamento darwinista da “luta pela vida” se tinha imposto, o anarquista russo defendeu a existência, em paralelo, de um sentido de cooperação e de ajuda mútua que tornavam a existência possível dentro de cada espécie. Hoje isso é cada vez mais claro. Ainda há dias, António Damásio, um dos maiores cientistas mundiais no estudo do cérebro, defendeu na televisão portuguesa que essa cooperação era a base da vida, desde os organismos mais pequenos, unicelulares ou bacterianos, até aos organismos mais complexos. Também, em Maio passado, quando esteve aqui em Évora, o professor universitário espanhol, anarquista, Carlos Taibo revelou que o “Apoio Mútuo” de Kropotkin era um dos principais livros da sua vida. As novas descobertas científicas e o desenvolvimento das ciências sociais cada vez apontam mais para a relevância da cooperação em termos de desenvolvimento humano e social, daí que a actualidade do livro de Kropotkin se esteja a revelar cada vez mais actual, seja nos meios académicos como nos meios militantes (onde o nome “Apoio Mútuo” acaba de ser dado a um novo movimento libertário, abrangente e transversal, criado recentemente em Espanha).

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edição brasileira do livro “Ajuda Mútua” para download

Prefácio à edição de 1914 do livro “Apoio Mútuo” (*) 

PIOTR KROPOTKIN

Quando a guerra atual começou, envolvendo praticamente toda a Europa numa terrível batalha e quando – naquelas partes da Bélgica e da França que foram invadidas pelos alemães – essa batalha assumiu uma escala nunca vista de destruição em massa da vida de civis e de pilhagem dos meios de subsistência da população em geral, “a luta pela vida” tornou-se a explicação favorita daqueles que tentaram achar uma desculpa para esses horrores.

Um protesto contra tal abuso da terminologia de Darwin apareceu então numa carta publicada pelo Times. Essa carta dizia que tal explicação era “pouco mais que uma aplicação à filosofia e à política de ideias inspiradas em grosseiros mal-entendidos da teoria darwinista (de “luta pela vida” e “vontade de poder”, “sobrevivência dos mais aptos” e “super-homem”, etc.)”; mas que havia uma obra em inglês “que interpreta o progresso biológico e social em termos não do exercício da força bruta e da astúcia, mas de cooperação”.

Doze anos se passaram desde que a primeira edição desta obra foi publicada e pode-se dizer que sua ideia fundamental – a ideia de que a ajuda mútua representa na evolução um importante elemento progressista – começa a ser reconhecida pelos biólogos. A maioria das obras publicadas na Europa nos últimos tempos que tratam da evolução já dizem que é preciso fazer uma distinção entre dois aspectos diferentes da luta pela vida: a guerra exterior das espécies contra condições naturais adversas e as espécies rivais, e a guerra interna pelos meios de subsistência dentro das espécies. Também se reconhece que tanto a extensão desse segundo aspecto quanto sua importância para a evolução têm sido exageradas – para grande consternação do próprio Darwin –, enquanto a importância da sociabilidade e do instinto social nos animais, tendo em vista o bem-estar da espécie, foi subestimada, ao contrário dos ensinamentos deste grande naturalista.

Mas, se a importância da ajuda e do apoio mútuo entre os animais começa a ser reconhecida entre os pensadores modernos, ainda não se pode dizer que isso está acontecendo em relação à segunda parte de minha tese: a importância desses dois fatores na história do Homem, tendo em vista o crescimento de suas instituições sociais progressistas.

Os líderes do pensamento contemporâneo ainda tendem a afirmar que as massas têm pouco interesse pela evolução das instituições sociais do homem e que todo progresso feito nessa direção se deveu a líderes intelectuais, políticos e militares das massas inertes.

A guerra atual, tendo levado a maioria das nações civilizadas da Europa a um contato íntimo não apenas com as realidades da guerra, mas também com milhares de seus efeitos colaterais sobre a vida cotidiana, certamente vai contribuir para modificar os ensinamentos atuais. Vai mostrar o quanto o espírito criativo e construtivo da massa do povo é necessário sempre que uma nação tem de passar por um momento difícil de sua história.

Não foram as massas das nações europeias que prepararam a presente guerra-calamidade, nem foram elas que forjaram seus métodos bárbaros: foram seus líderes, seus líderes intelectuais. Em parte alguma as massas do povo tiveram voz no preparo da carnificina atual, e menos ainda na criação dos métodos atuais da guerra, que representam uma desconsideração total pelo que julgávamos ser a melhor herança da civilização.

E, se não quisermos que o naufrágio dessa herança seja completo; se, apesar dos crimes cometidos durante esta guerra “civilizada”, ainda pudermos ter certeza de que os ensinamentos e tradições da solidariedade humana vão, afinal de contas, emergir intactos da provação pela qual estamos passando agora, é porque, ao lado do extermínio organizado a partir de cima, vemos milhares daquelas manifestações de ajuda mútua espontânea, da qual trato neste livro nos capítulos dedicados ao ser humano.

As camponesas que, ao ver prisioneiros de guerra alemães e austríacos arrastando-se exaustos pelas ruas de Kiev, colocam em suas mãos pão, maçãs e às vezes uma moeda de cobre; os milhares de homens e mulheres que cuidam dos feridos, sem fazer qualquer distinção entre amigo e inimigo, oficial ou soldado; as mulheres e os velhos camponeses franceses e russos deixados para trás em suas aldeias, que decidem nas assembleias do povo de sua aldeia arar e semear os campos dos que estão “lá”, sob o fogo inimigo; as cozinhas cooperativas e popottes communistes que surgiram em toda a França; a ajuda espontânea da Inglaterra e dos Estados Unidos à nação belga e à Polônia devastada pelo povo russo, ambos esses empreendimentos implicando uma quantidade tão imensa de energia e trabalho voluntário, organizado com tanta liberdade que desaparece todo caráter de “caridade”, tornando-o mera ajuda de vizinhos, todos esses fatos e muitos outros parecidos são as sementes de novas formas de vida. Hão de levar a novas instituições, assim como a ajuda mútua dos primeiros tempos da humanidade deu origem, mais tarde, às melhores instituições progressistas da sociedade civilizada.

Gostaria de chamar a atenção do leitor principalmente para os capítulos deste livro que tratam das formas primitivas e medievais de ajuda mútua. Faço isso com a profunda esperança de que, em meio à miséria e agonia em que essa guerra lançou o mundo, ainda haja espaço para a crença de que, apesar disso, as forças construtivas dos seres humanos estão em atividade, que sua ação tende a promover um entendimento melhor entre as pessoas e, por fim, entre as nações.

Brighton, 24 de novembro de 1914.

(*) nalgumas traduções para português o título aparece como “Ajuda Mútua)

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