(Opinião) Não é anti-capitalista quem se diz, mas quem age enquanto tal


capitalismo

A capacidade do capitalismo de se regenerar e reproduzir não deixa de surpreender. De crise em crise, de colapso em colapso, a plasticidade do sistema capitalista – do lucro, da ganância e da acumulação de capitais que lhe é inerente – mantém-se e renova-se duma forma surpreendente.

Já o tinha feito anteriormente quando saiu mais reforçado das crises que ele próprio tinha provocado, como a depressão de 1929, ou quando promoveu a transformação capitalista do regime feudal da Rússia czarista através da versão bolchevique do capitalismo de Estado, nos anos 20 do século passado, arrastando consigo milhões de deserdados que julgavam estar a lutar pelo socialismo e por uma sociedade diferente. Fê-lo também na pós-revolução cultural chinesa, transformando o comunismo chinês e o seu corolário de milhões de mortos, no terreno fértil do capitalismo selvagem, que hoje domina todo o sudeste asiático.

Fá-lo hoje também aqui na Europa, domesticando os partidos que se lhe diziam opor, como se fossem ursos num circo que obedecem à voz do dono.

Fizeram-no na Grécia, com o Syriza, que hoje governa numa sociedade praticamente anestesiada não fosse a forte presença anarquista em todo o tecido social. O Capitalismo, puro e duro, que já não conseguia governar nem com os socialistas, nem com os democratas cristãos devido ao impacto negativo das suas medidas de recomposição do capital, impôs o Syrisa e, logo depois o referendo, amortecendo a oposição e conseguindo hoje medidas mais duras e mais consensuais, entre os diversos parceiros estratégicos, do que há alguns anos atrás.

Em Portugal, as necessidades estratégicas da renovação capitalista conduziram ao actual governo (do ponto de vista do capital muito mais eficaz do que o de Passos Coelho) que tem como base de apoio as centrais sindicais, o PS, o PCP e o BE, todos ditos anti-capitalistas, mas hoje todos unidos na construção e defesa de uma frente que, não pondo em causa o capitalismo, antes o serve e cumpre a agenda que ele determina.

Deste governo – cuja maior ambição é repor a situação existente antes da ida de Passos Coelho para o governo, no tempo do governo de José Sócrates, ironicamente derrubado por uma coligação entre o PSD, CDS e também PCP e BE – o que o Capital espera é que vá cumprindo a sua agenda de manutenção do sistema e que garanta uma maior “paz social” do que durante o governo de Passos Coelho.

E é esta capacidade, sempre actuante, do capitalismo em trazer para o seu campo mesmo as forças que se dizem discordantes, fazendo-as participar nos seus processos e levando-as a defender os seus interesses, que o torna tão versátil e, qual hidra de sete cabeças, tão difícil de combater.

Também aqui o anarquismo tem significado a diferença. Não entrando no jogo eleitoral, nem nos compromissos políticos, sempre fortemente subsidiados, o anarquismo recusa-se a trazer a luta pela transformação social para o campo que interessa ao capitalismo e foge de qualquer possibilidade de por ele ser integrado ou por ele ser nomeado capataz dos seus interesses.

Criticando, na prática e na teoria, o trabalho assalariado e alienado, a separação de poderes, a existência do Estado, a divisão da sociedade entre representantes e representados, a deriva ambiental ou a mentira do “crescimento constante” o anarquismo mantém-se hoje – junto a várias luta indigenistas pelos seus valores ancestrais, por exemplo os Zapatistas, e a algumas lutas autonómicas e independentistas, como é o caso actual dos curdos, – ainda como o grande instrumento válido de luta anti-capitalista e pela transformação social. Todos os outros elementos da esquerda tradicional (como os antigos partidos comunistas) às novas experiência de esquerda renovada (no caso português, o BE, no espanhol, o Podemos) foram já engolidos e deglutidos pelo capitalismo – mesmo que nos seus programas e nos seus discursos afirmem o contrário.

luís marques (recebido por email)

autonomia

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