“O Intervalo”, de Ferreira de Castro, relata insurreição anarquista de 1933 em Espanha  e o massacre de Casas Viejas


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A Humanidade está vivendo um intervalo entre o velho mundo que apodreceu e o novo mundo que nós desejamos e há-de vir. É um intervalo terrível, com grandes sofrimentos para muitos. (Os Fragmentos, p. 194)

O livro “Os Fragmentos” de Ferreira de Castro foi publicado já depois do 25 de Abril de 1974, algum tempo depois da morte do autor, reunindo alguns textos escritos muitos anos antes e que foram censurados (um texto baseado nos apontamentos de reportagem para o Século sobre a Mina de São Domingos, nos finais dos anos 20 e uma crónica de Natal para o mesmo jornal que não chegaram a ser publicados) e uma novela, “O Intervalo”, escrita em 1936, ano do início da guerra civil em Espanha e que, devido à censura, também nunca fora publicada.

Passado nos anos 30, “O Intervalo” aborda a vida de um secretário-geral da CGT anarco-sindicalista que tem que fugir para Espanha devido à repressão em Portugal. Alexandre Novais vai para Sevilha, onde começa a trabalhar numa oficina e a frequentar os meios anarquistas da capital andaluza. Integra a CNT e participa na insurreição operária de 1933. O livro situa a acção de Alexandre Novais e dos seus companheiros em Casas Viejas (Cadiz) – onde se verificou o massacre de camponeses às mãos das forças repressivas do Estado Espanhol – e onde chegam no dia em que a repressão se abate sobre esta localidade paupérrima cujo crime era ter sonhado que a terra podia pertencer a quem a trabalhava.

Incorporando este massacre verídico e que contribuiu para a queda da 2ª República Espanhola, o livro ganha grande intensidade dramática e é um dos grandes romances neo-realistas, de fundo operário e revolucionário, da literatura portuguesa.

O massacre de Casas Viejas, cujo aniversário agora se assinala, foi de uma violência brutal: na pequena povoação amdaluza, com escassas centenas de habitantes, foram mortos 19 homens, 2 mulheres e 1 criança.

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O massacre de Casas Viejas

“Tudo começou a 8 de Janeiro em Barcelona. Estava prevista uma insurreição anarquista em toda a Espanha que devia começar pelos ferroviários e a seguir pelo campo. Em Casas Viejas, os anarquistas estavam decididos e os acontecimentos acontecem três dias depois. No município, 42 dos 612 habitantes (ou seja, 6,83%) possuíam 66,12% da riqueza total. O povo passava fome. Metade deles vivia em cabanas, de uma só dependência, em que a família dormia toda junta, em colchões de palha. Só na época das colheitas havia salário para a maioria, no resto do ano a sobrevivência era difícil.

Os anarquistas decidiram que havia chegado o momento da “sua” revolução e na noite de 10 de Janeiro passaram à acção. O caciquismo devia chegar ao fim. O povo sonhava com implantar os seus direitos, proclamaram o comunismo libertário e passaram à acção:. “Havia em Casa Viejas um anarquista de prestígio” – explicou o lendário anarquista Joan Ferrer a Baltasar Porcel, no seu livro “A Revolta Permanente” – a quem chamavam o “SeisDedos”, e que se põe à frente da situação. Diz: “chegou a hora” e, rodeado da família, sai à rua. Seguem-no todos os camponeses influenciados pela CNT e pelo anarquismo. Vão com as suas espingardas de caçar coelhos, as balas de papel… A Guarda Civil é pouca e entricheiram-se na casa-quartel. Mas a partir de Madrid, Cádiz e outros sítios reúnem-se companhias de forças de assalto, que se dirigem para Casas Viejas”.

Mas.. quem disparou primeiro? Ninguém sabe dizê-lo. A verdade é que no primeiro tiroteio caem feridos dois agentes da “ordem”. Ambos faleceriam posteriormente

As autoridades alarmam-se. Sufocada a sublevação no resto da Espanha, os insurrectos de Casas Viejas podem converter-se num foco a partir do qual a revolta de estenda de novo. Manuel Azaña, presidente do Governo, “vê-se obrigado” a restabelecer a ordem e envia o exército.

Assim a 13 de Janeiro, a Guarda Civil e a Guarda de Assalto sob o comando do Capitão Rochas, atacam com espingardas e granadas, ingloriamente, uma cabana onde se tinham refugiado 3 homens, 2 mulheres e uma criança, acusados de assaltarem, com outros, o quartel da Guarda Civil. A ordem era categórica e o capitão não tem dúvidas em acatá-la: nem prisioneiros, nem feridos. Finalmente, um algodão impregnado em álcool ateia o fogo: só uma mulher e uma criança conseguem sair por uma pequena abertura, o resto são mortos a tiro ou carbonizados. Era a cabana de “Seisdedos”, o anarquista admirado, um ancião de 94 anos, curvado pela artrose, quase cego, mas com grandes qualidade de liderança. Uma das mulheres é uma sua neta, uma jovem de apenas 16 anos, analfabeta. Ambos passaram à história convertidos em lenda. María Silva, “A Libertária”, seria fuzilada três anos depois, à margem dos factos que a condenavam.

Todos os cidadãos acusados de supostamente terem participado na rebelião são fuzilados indiscriminadamente.” (aqui, com alterações).

É neste ambiente verídico e brutal, de repressão e luta pela vida que se desenrolam as últimas páginas da excelente novela de Ferreira de Castro, um grande escritor, que para além de colaborar assiduamente em “A Batalha”, sempre se declarou até ao fim da vida como libertário.

Um livro a ler. Ou a reler, agora que se assinala mais um aniversário do massacre de “Casas Viejas”.

sobre o massacre de Casas Viejas:

http://www.cnt.es/noticias/los-sucesos-de-casas-viejas

http://malaga.cnt.es/spip.php?article625

https://www.diagonalperiodico.net/saberes/28980-crimen-fue-casas-viejas.html

http://www.buscameenelciclodelavida.com/2015/01/casas-viejas-1933-el-hambre-se-puso-en.html

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