(opinião) Os anarquistas não trocam a transformação social por um “prato de lentilhas” eleitoral


voto

Em dia de eleições presidenciais, aqui em casa uma parte da família votou, outra não. É uma democracia alargada. Cada qual segue aquilo que a sua consciência determina. O voto é um direito, logo pode ser usado da forma como cada qual melhor entende. Eu estou entre os que não fui votar. E explico porquê.

Antes do mais porque não me sinto representado por qualquer dos candidatos. Nenhum fala a minha linguagem, nem coloca as questões que me parecem relevantes: o papel do Estado como garante da sociedade de classes; o trabalho assalariado; a propriedade privada; o porquê da existência de forças armadas, entre muitos outros.

Apesar da diversidade de candidatos (e nestas eleições presidenciais eles são dez) todos se situam do mesmo lado no campo de jogos: todos aceitam a autoridade do Estado, a sociedade assente na representação e na delegação de poderes, o trabalho assalariado e a existência de um exército profissional. Como anarquista, em termos de programa, considero que qualquer um destes candidatos está mais próximo entre si do que dos valores que defendo.

Recusar a armadilha capitalista da participação eleitoral

Podem-me perguntar, como frequentemente me fazem, porque é que os anarquistas, querendo mudar a sociedade, não protagonizam candidaturas aos órgãos de poder e soberania. Tornar-se-ia, então, dizem-me, mais fácil protagonizar as mudanças pretendidas a partir do aparelho de Estado (presidência, Assembleia ou poder local). A resposta é fácil: os anarquistas preconizam e lutam por uma sociedade diferente, baseada na solidariedade e no apoio mútuo, no trabalho livre, cooperativo e desalienado; uma sociedade de base horizontal e federativa, de democracia directa e o mais alargada possível, onde a representação só exista quando não houver outras alternativas, e mesmo assim, seja limitada no tempo e nas suas competências. Uma sociedade construída a partir de baixo, onde a exploração económica e a opressão política não esmaguem o ser humano.

Lutando por uma sociedade radicalmente diferente da que existe, em que os trabalhadores e os explorados de hoje consigam pôr fim às amarras e à exploração de que são vítimas, estando conscientes – até pelos exemplos históricos – que esta transformação não é possível fazer através dos instrumentos de poder actuais, criados exactamente para defender o “status quo” e a perpetuação da sociedades de classes, em que uns detêm a propriedade, o controlo, a planificação e a direcção dos meios de produção e outros são meros executantes (recebendo por isso um salário muito menor), os anarquistas recusam-se a cair na armadilha que tem sido a participação no jogo eleitoral criado pelo capitalismo e pela burguesia para conterem os ímpetos de transformação social.

Ao participarem no jogo eleitoral, os sectores de esquerda mesmo dizendo-se anti-capitalistas, em cada época, nada mais têm feito do que abdicarem da transformação social em nome de um reformismo evolucionista, a partir do próprio sistema, que faz com que, paulatinamente, tenham sido engolidos por completo pelo sistema capitalista. Aconteceu assim com os actuais partidos sociais-democratas, depois com os socialistas (e a origem de ambos inscreve-se na trajectória do marxismo) e está a acontecer agora com os partidos comunistas (muitos deles em fase de desaparecimento acelerado, depois da queda da União Soviética), tal como com os partidos que lhes foram sucedendo, caso do “Bloco de Esquerda”, em Portugal, “Podemos” em Espanha, ou “Syriza” na Grécia.

Gestores do sistema

Paulatinamente, entrando no jogo eleitoral e democrático, como tem sido o caso do PCP em Portugal, sobretudo no campo autárquico, facilmente se tornam em gestores da sociedade existente, procurando colmatar algumas brechas, mas abdicando totalmente do campo da transformação social. A partir dos órgãos de poder, seja a nível nacional ou local, a forma como se olha a sociedade é sempre a do dirigente e a do burocrata, não a do trabalhador e do explorado.

Para os anarquistas, o manterem-se à margem do jogo eleitoral, que consideram uma armadilha criada pelo próprio capitalismo para os incluir dentro do sistema por si gerido, é uma condição básica para poderem manter vivos todos os sonhos e toda a energia transformadora da sociedade – projecto de que não abdicam e que, quotidianamente tentam pôr em prática, não a partir dos órgãos de poder, mas dos locais de trabalho e de habitação, dos espaços de lazer e de cultura.

Dito isto, convém ainda dizer que eu – e a generalidade dos anarquistas que conheço – defendo e sempre defendi, sobretudo quando o voto era proibido, a liberdade de voto e a liberdade dos cidadãos se associarem da forma como entendessem. A liberdade de voto e a democracia representativa – embora não sejam o nosso objectivo, nem nelas participemos – é um avanço em relação às ditaduras – de esquerda e direita – que proíbem a livre associação dos cidadãos e o voto em liberdade. Para nós, a liberdade em todos os campos, é um dos factores indiscutíveis do nosso posicionamento político e, por isso, tornam-se-nos risíveis os apelos ao voto vindos de quem sempre defendeu posições que entroncam na tradição fascista ou comunista autoritária, onde o voto e a livre associação em partidos políticos eram pura e simplesmente interditos.

Sempre pela liberdade. Até de voto.

Por vezes há quem refira que, ao não votarmos, estamos a delapidar o património e a memória de muitos antifascistas que lutaram anos a fio pela liberdade. É verdade que lutaram e muitos desses combatentes eram anarquistas. Lutaram pela liberdade, pela liberdade de escolha, pelo fim da exploração, por uma outra sociedade. Para eles o direito e a liberdade de voto eram um instrumento e uma reivindicação constantes. O voto foi conquistado e transformou-se num direito que cada qual usa como muito bem entender. Quer se vote, quer não, está-se a exercer esse direito, o que não aconteceria se o voto fosse obrigatório. Se fosse obrigatório – e, se fosse, combatê-lo-íamos – tornar-se-ia uma obrigação e não um direito. E aqueles que antes de nós estiveram nas trincheiras da luta e do combate pela transformação da sociedade fizeram-no para que o voto fosse um direito e não uma obrigação.

Outros apresentam também o argumento de que quem não vota está a abdicar de decidir. É verdade. Aos anarquistas não interessa muito se o presidente é o A ou o B, se a Assembleia tem mais deputados azuis ou verdes, se na Câmara pontifica o partido A ou B. Sabemos, por experiência acumulada, em mais de um século de democracia eleitoral nas sociedades ocidentais, que tirando algumas particularidades específicas deste ou daquele protagonista político, o papel que representam é sensivelmente o mesmo: cumprem o programa que o capital lhes reservou e, a partir dos órgãos de poder, o máximo que podem fazer é dar protagonismo ao seu grupo político, dando-lhe espaço e lugares na administração da coisa pública – algo muito diferente da transformação social que nos anima e nos move e de que não abdicaremos a troco de um lugar no aparelho de Estado ou autárquico, o tal “prato de lentilhas” de que os marxistas falavam e de que hoje não abdicam de forma alguma.

M.B. (recebido por email)

24.01.2016

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3 comments

  1. Talvez o conceito de anarquismo não seja estático!!! Não me revejo nas palavras deste texto, mas não me parece que sejam de um verdadeiro anarquista. Enquanto o sistema for este, votar tem sentido. Talvez num futuro anarquista, nem seja necessário votar, porque os melhores na área da gestão dos dinheiros públicos já lá estarão a fazer um bom trabalho para todos, e todos, nas suas respetivas áreas, trabalham para todos sem necessidade de supervisões. Com a consciência de que uma sociedade saudável onde todos contribuem cada um à sua maneira, é a melhor forma de nos relacionarmos e evoluirmos.

    1. Diz-me lá, então, por favor: se votas, em quem votas? quem é o teu candidato? qual é aquele que tem um programa parecido com o teu, anarquista, que defende o fim do Estado, o fim do trabalho assalariado, a organização horizontal da sociedade? Olha que é dificil. Se és anarquista e defendes um programa libertário para construção de uma sociedade sem opressão nem exploração acho que é impossível encontrares um candidato neste sistema de representação política, que te possa representar. O Tino de Rans? É difícil. Mas tens outro?

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