Um colóquio cada vez menos libertário e mais “libertariano”


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Foi hoje divulgado no site do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa o programa do COLÓQUIO “PENSAMENTO LIBERTÁRIO III: PASSADO, PRESENTE E FUTURO”, marcado para o dia 17 de Março, para o qual, oportunamente, o Portal Anarquista tinha sido convidado por uma simpática mensagem dos seus organizadores. O convite era para intervirmos no último painel, lado a lado com um anunciado Partido Libertário Português, e dizia textualmente: “Deste modo, vimos por este meio convidar o Portal Anarquista de Évora a participar no mesmo. Caso aceitem participar, deverão integrar o III Painel, juntamente com o Partido Libertário Português, a ter início por volta das 16h:15m. A participação tem a exposição de uma comunicação durante 30 minutos, havendo um período de debate após as devidas comunicações”. Recusámos o convite, como é claro. Foi esta a resposta que enviámos há já alguns dias aos organizadores do Colóquio:

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Dois mundos nos separam: os libertários ou anarquistas são pela igualdade e solidariedade económica e política. Os libertarianos ou “anarco-capitalistas” são pelo mercado, pela propriedade privada e pela lei do “salve-se quem puder”.

*

O seu a seu dono: o “partido libertário português” é uma espécie de gato escondido com rabo de fora

O Portal Anarquista recebeu do Grupo de Estudos Políticos o convite para estar presente na 3ª edição do colóquio “Pensamento Libertário: passado, presente e futuro”, que terá lugar na FCSH-UNL, no dia 17 de Março de 2016 e que é organizado conjuntamente com o Instituto de História Contemporânea (FCSH-UNL).

Há dois anos atrás participámos no Encontro realizado na Covilhã e no ano passado estivemos presentes no Encontro de Lisboa. O convite era para, este ano, participarmos no último Painel do dia em conjunto com um auto-denominado “Partido Libertário Português”, de que nunca tínhamos ouvido falar e que nos parece que não existe, a não ser no espaço virtual.

Mas não foi esse facto – o da sua existência ou não – que nos faz recusarmos o convite para estarmos presentes. A verdade é que, fazendo uma busca na internet, encontrámos um site e uma página no facebook de um chamado “Partido Libertário Português” cujo Programa (“Quem somos”) revela claramente a tentativa de vender gato por lebre. O dito “Partido Libertário Português” é aquilo que na tradição norte-americana são os libertarianos, geralmente associados à direita mais conservadora e ultra-liberal (Tee Party), o oposto da tradição europeia para quem “libertário” é sinónimo de anarquista. (*)

Os libertarianos – aliás, como está consubstanciado nas ideias fortes deste “Partido Libertário Português” – defendem o primado do indivíduo sobre o colectivo e recusam a autoridade do Estado, tal como muitos anarquistas. Mas, ao contrário do pensamento libertário – e isso faz toda a diferença – , não advogam o fim da propriedade privada dos grandes meios de produção, nem o fim do trabalho assalariado, defendendo antes o liberalismo económico selvagem do “salve-se quem puder”.

O anarquismo e os libertários, na velha tradição europeia, defendem o fim da exploração económica e da opressão política e a igualdade de direitos e de deveres, baseada na solidariedade e no apoio mútuo, e não na lei da selva em que o mais forte reina sobre os mais fracos. O dito “Partido Libertário” defende a “propriedade individual”, “o regular funcionamento dos mercados”, é contra “ a “redistribuição de riqueza através da tributação dos rendimentos ou da propriedade individual, ou de outro tipo de mecanismos de putativa solidariedade social”, ou seja, escora-se no mais puro neo-liberalismo económico em que nenhum anarquista (nem os mais individualistas) se poderá rever.

Pela sua própria natureza, este “Partido Libertário Português” (e o uso deste nome deve provir de um profundo desconhecimento da história do pensamento e das ideias) está completamente fora daquilo que é historicamente o pensamento libertário. Trazê-lo para um colóquio em que se pretende debater o “Pensamento Libertário” parece-nos completamente desajustado. Não teríamos qualquer pejo em fazê-lo, debatendo as ideias que nos diferenciam, noutro contexto. Não num encontro que pretende debater o “pensamento libertário” e onde este partido (aliás, disposto a participar no jogo político e eleitoral) claramente não se enquadra. Pensamos, além do mais, que a sua participação num encontro sobre a evolução do “Pensamento Libertário” é uma profunda mistificação, do tipo daquela que os promotores do “anarco-capitalismo”, e outros sucedâneos da ideologia neo-liberal, há anos pretendem vender no “mercado das ideias” sem qualquer sucesso.

No fundo, tenham o prefixo de anarquistas ou não, ou se auto-classifiquem ou não de libertários, a verdade é que as ideias que veiculam nunca põem em causa a propriedade dos meios de produção, nem o trabalho assalariado, nem a sociedade dividida em classes, nem sequer valorizam as ideias substantivas do movimento libertário: o apoio mútuo e a solidariedade. São meros “refrescamentos” do pensamento neo-liberal capitalista que em décadas recentes “inspirou” parte do mundo, nomeadamente a América Latina, com os resultados desastrosos que se conhecem e para cujo “peditório” os anarquistas e os libertários em geral nunca se dispuseram a colaborar.

Por isso, não estamos disponíveis para participar em mistificações deste género: o campo libertário não se confunde com “partidos” que usam o denominativo de “libertários”, mas cujo programa, na área económica, é do mais puro e abjecto capitalismo selvagem.

Agradecendo o convite, reservamo-nos também o direito de tornarmos pública esta posição, caso assim o entendamos fazer. Os melhores cumprimentos.

Colectivo Libertário de Évora, 20.01.2016

(*) O neologismo “libertário “foi criado pelo anarquista francês Joseph Déjaque por oposição a “liberal” . Usou-o a partir de 1858 como título para um jornal em língua francesa – “Le Libertaire” – que fundou em Nova Iorque.

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/03/26/lisboa-coloquio-sobre-pensamento-libertario-passado-presente-e-futuro-hoje-na-fcsh-unl/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/03/23/os-bloquistas-deram-agora-em-estudiosos-do-pensamento-libertario/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/03/28/fotos-da-conferencia-sobre-pensamento-libertario-na-covilha/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/03/12/covilha-conferencia-sobre-pensamento-libertario-no-proximo-dia-27-de-marco/

5 comments

  1. Entendo e concordo com a vossa posição quanto aos libertarianos. Não entendo porque não aproveitaram esta oportunidade para exporem essa opinião. Acho que todos beneficiariam com a discussão que podia surgir. Acho que o anarquismo tem mesmo como base a abnertura para o debate e discussao, e mesmo que as duas posições sejam incompativeis, a mera exposição de ideias diferentes tem valor por si só.

    Parece-me mais útil ser um contrapeso no colóquio e oferecer argumentos diferentes a um público que talvez esteja menos exposto a eles, do que boicotá-lo e públicar um artigo que só vai chegar a pessoas cuja ideologia já é muito mais próxima da vossa.

  2. A questão não é a discussão, mas o espaço. Num encontro libertário podias ter na mesma mesa e discutir olhos nos olhos com o PSD? Acho que não. Se fosse num outro debate, num outro colóquio, sim. Nada temos contra o debate e a discussão. Mas num colóquio sobre o movimento libertário que faz ali um partido politico anarco-capitalista? Mas podemos convidá-los para um debate ou conversa noutro sítio. Será que estariam disponíveis para ir à BOESG ou ao CCL para um debate sobre movimentos que contestam a autoridade do estado, sejam eles anarquistas ou, no lado oposto, anarco-capitalistas? Fica o convite.

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