(efeméride) Recordar o holocausto para melhor combater a besta totalitária


Mauthasen

Campo de concentração de Mauthausen onde morreram muitos anarquistas espanhóis, fugidos de Espanha depois da vitória do fascismo franquista e que integraram a resistência, sobretudo em França.

auschwitz

Campo de Auschwitz no dia em que as portas foram abertas. O escritor Primo Levi esteve neste campo desde 13 de Dezembro de 1943 até finais de Janeiro de 1945. Os horrores do holocausto estão magistralmente descritos no seu livro “Isto é um homem”

*

Há quem refira que hoje se assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Que o seja. Enquanto anarquistas todos os dias são importantes para alertar para o facto da liberdade não ser um valor seguro e que está constantemente em perigo.

Ao longo dos milénios, a história da humanidade tem sido também a história do horror e da guerra. Embora não se possam esquecer os milhões de mortos e torturados pelos regimes torcionários implantados nos países sob controlo soviético ou chinês, em nome do socialismo (o que os torna ainda mais desprezíveis), este horror ganhou especial amplitude no decorrer do século XX com o holocausto nazi.

O nazismo programou e executou de forma detalhada o genocídio de povos como os judeus ou os ciganos e levou o terror e a morte a mais de 6 milhões de europeus, a esmagadora maioria judeus. Nos campos de concentração, com o gaseamento de milhares de pessoas, velhos e novos, homens e mulheres, de todas as raças e credos, morreram também muitos anarquistas, a maioria espanhóis fugidos do terror de Franco e que incorporaram os movimentos de resistência em vários países europeus, mas também muitos judeus que perfilhavam o ideário anarquista.

Neste “Dia Internacional” a mensagem que podemos deixar é a de que a liberdade tem que ser cultivada e acarinhada em cada hora que passa, impedindo que os dias do terror nazi (seja qual a sua cor) regressem.

Primo Levi viveu a barbárie de Auschwitz. Sobreviveu a ela. E deixou-nos um testemunho em primeirissima mão daquilo que foi o holocausto. Um livro que deveria ser livro de cabeceira de todos os amantes da liberdade.

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Um excerto:

Outubro de 1944

“Lutámos contra todas as nossas forças para que o Inverno não chegasse. Agarrámo-nos a todas as horas tépidas, a cada fim de dia procurámos reter o Sol no céu mais um pouco, mas tudo foi inútil. Ontem à noite, o Sol pôs-se irrevogavelmente num emaranhado de nevoeiro sujo, de chaminés e de fios, e hoje de manhã é Inverno.

Nós sabemos o que isto significa, porque estávamos aqui no Inverno passado, e os outros aprendê-lo-ão cedo. Significa que, ao longo destes meses, entre Outubro e Abril, em cada dez de nós, sete irão morrer. Quem não morrer, irá sofrer minuto após minuto, em cada dia, todos os dias: desde antes do amanhecer até à distribuição da sopa da noite, deverá ter constantemente os músculos tensos, dançar de um pé para o outro, bater os braços debaixo das axilas para resistir ao frio. Terá de gastar pão para arranjar luvas, e perder horas de sono para as remendar quando estiverem descosidas. Já não se podendo comer ao ar livre, teremos de tomar as nossas refeições na barraca, de pé, dispondo cada um de um palmo de chão, pois é proibido apoiarmo-nos aos beliches. Nas mãos de todos abrir-se-ão feridas, e para obter uma ligadura teremos de esperar todas as noites durante horas, de pé, à neve e ao vento.

Como esta nossa fome não é a sensação de quem saltou uma refeição, o nosso modo de ter frio exigiria assim um nome particular. Nós dizemos “fome”, dizemos “cansaço”, “medo” e “dor”, dizemos “Inverno”, mas são coisas diferentes. São palavras livres, criadas e utilizadas por homens livres que viviam, gozando e sofrendo, em suas casas. Se os Lager tivessem durado mais tempo, uma nova, dura, linguagem teria nascido; e é disto que se sente a falta para explicar o que é labutar o dia inteiro ao vento, com uma temperatura abaixo de zero, vestindo apenas camisa, cuecas, casaco e calças de tela, tendo no corpo fraqueza e fome e consciência do fim que se aproxima.”

“Se isto é um homem”, Primo Levi –  Págs, 131/132

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