Sobre o “anarco”-capitalismo que, na verdade, não existe


capitalismo

O anarco-capitalismo não existe. Pelo menos para além do termo, um termo sem definição, um termo sem qualquer significado. Não existe a não ser nessa expressão, na palavra escrita, na palavra lida, na palavra pronunciada, na palavra ouvida. Não existe a não ser no falso, não existe fora do irreal, não existe porque, de facto, não existe.

O anarco-capitalismo não é mais nem menos do que o histórico liberalismo com o nome alterado, uma ideologia que leva ao extremo a teoria e a práxis capitalista. Baseia-se num capitalismo sem Estado. E um ignorante qualquer teve a ideia errada de misturar duas ideias antagónicas. Isto porque não compreenderam e continuam sem compreender que anarquista não é aquele que está apenas contra o Estado, mas sim contra qualquer autoridade, contra a dominação e a exploração do ser humano por outro ser humano.

E se, enquanto anarquistas, estamos contra o Estado é porque simplesmente identificámos nele uma ferramenta de dominação que reproduz a sociedade de classes e que através de múltiplas violências gera a exploração. Mas os capitalistas que estão contra o Estado, os liberais, os mais radicais, não estão contra a dominação e a exploração, estão simplesmente contra o pagamento de impostos, porque a sua filosofia, se for levada ao extremo, está contra a gestão colectiva dos recursos e da sociedade. O que, já por si, é uma contradição, porque inclusivamente no capitalismo a gestão da vida é colectiva, com a diferença de que é individual na partilha dos recursos e nos privilégios. E eis aqui o motivo desta parvoíce burguesa: o egoísmo. O capitalismo é uma forma de vida tão estúpida que ele próprio gera as doenças mentais. Como surgiu o egoísmo? Do medo de perder tudo o que se tem. E como o capitalismo se baseia no latrocínio através da propriedade privada sobre aquilo que é de todos, surgem situações de miséria e desamparo, ante as quais os ricos, que são quem as criam, se protegem radicalizando o seu egoísmo e criando, inconsciente ou conscientemente, mais situações de miséria, das quais tentam fugir ainda com mais egoísmo que, por sua vez, vai gerar mais situações de miséria. E assim sucessivamente.

Neste sentido, o liberal quer ser livre para explorar livremente recursos, animais e pessoas, sem que nada, nem sequer a própria sociedade possam exigir-lhe responsabilidades. E para convencer a maioria social, o liberal precisa de mentir. Os mais interessados nesta doutrina, grandes empresários sem escrúpulos que têm a consciência tranquila através de mil e uma justificações, tentarão convencer as classes médias, os pequenos proprietários, cuja propriedade é do banco, os pequenos burgueses que não têm o dinheiro dos verdadeiros burgueses, os trabalhadores por conta própria que continuam a ter chefes, os pequenos empresários que continuam a ser escravos, os que os governos esmagam com impostos e complicam a vida com a burocracia administrativa, a todos, os liberais tentarão convencer com a maior facilidade, argumentando que sem Estado tudo isso não existiria e seria muito mais simples montar um negócio e torná-lo rentável, até ao ponto de que os serviços públicos não seriam necessários pois que aquilo que cada um pouparia em impostos seria suficiente para pagar a saúde, a educação o transporte ou outros serviços. Mas também estas promessas são demasiado estúpidas para que alguém acredite nelas.

Eu pessoalmente fiz contas. Sim, sou anarquista, situado na classe média, e para provar decidi fazer contas. Concluí que, se não tivesse que pagar impostos, sem dúvida que todos os anos pouparia bastante dinheiro, mas esse dinheiro não seria suficiente para me pagar a saúde privada, a educação privada ou um meio de transporte privado. Assim, quem lucraria com o liberalismo? Exacto, os de sempre. E mesmo que os Estados tivessem desaparecido, alguns continuariam a dominar os outros de forma directa e indirecta, gerando exploração e misérias. Afinal, que tipo de liberdade defendem os liberais? Que tipo de anarquia defendem os capitalistas? É claro que anarquia e capitalismo são dois conceitos antagónicos. Não podem misturar-se. Mais: é uma aberração que alguém pretenda misturar a palavra anarquia com a palavra capitalismo. O capitalismo defende o autoritarismo, a existência de dominadores e de dominados, a competição mortal e a lei selvagem do mais apto. O capitalismo defende a exploração, e, de tal forma, representa tão bem a escravidão que o capitalismo defende a auto-exploração. O anarquismo defende exactamente o contrário disto. E não é que estejamos influenciados pelo comunismo, como dizem os liberais. É que o anarquismo nasceu como uma forma distinta de praticar o comunismo e construir o socialismo.

aqui: http://www.portaloaca.com/opinion/9345-el-anarcocapitalismo-no-existe.html

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/01/26/um-coloquio-cada-vez-menos-libertario-e-mais-libertariano/

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4 comments

  1. Acho que há um pouco de exagero na crítica que se faz ao dito anarco-capitalismo. Este não é necessariamente autoritário. Vem na linha de Max Stirner e dos anarquistas individualistas. também já lhe têm chamado anarquismo de direita. Mais não fazem que tornar tudo privado. Exacerbam a propriedade privado e glorificam o eu. Neste sentido não são solidários.

    1. Na verdade não tem nada a ver com Stirner. O tal “anarco”-capitalismo nos remete à Escola Austríaca de Economia e a teóricos como Hayek, Mises e Milton Friedman. O termo “anarco”-capitalismo é apenas um capricho para o que não passa de darwinismo social. É uma distopia plutocrática.

  2. O problema do “anarco-capitalismo” é uma questão de etimologia. Aquele que pode ser considerado o fundador do “anarco-capitalismo” como uma ideologia com ideais reconhecíveis foi Murray Rothbard (apesar de haver pensadores anteriores a este que detinham posições semelhantes que podiam ser semelhantes aos “ancaps”, como Gustave de Molinari, Herbert Spencer e Auberon Herbert). Segundo as influências deste, vê-se que o “anarco-capitalismo” é uma fusão da crítica ao Estado originária dos anarco-individualistas norte-americanos (a tradição dos “anarquistas de Boston”, como Lysander Spooner e Benjamin Tucker) com posições da Escola Austríaca da Economia – aliás, muitos escritos de Rothbard demonstram que ele detinha posições que podem ser consideradas “anti-capitalistas”, i.e., a sua oposição à propriedade intelectual (posição partilhada pela maioria dos “ancaps”), aos latifúndios/títulos de terras, além da sua parcial defesa de apropriação sindicalista de propriedade estatal para evitar privatizações do estilo “neo-liberal”. É preciso ter muito cuidado em pôr alguém como Rothbard na mesma “sala” que Hayek e Friedman. Para Rothbard e os “ancaps” o termo “capitalismo” significa uma economia de mercado livre de qualquer tipo de privilégios, de regulações e de monopólios: visto o Estado ser um monopólio, o “capitalismo puro e verdadeiro” implicaria a abolição do Estado – daí, “anarco-capitalismo”. O problema do “ancaps” é, como já mencionei, etimologia – o capitalismo, na realidade, não é sinónimo de mercado livre, porque o capitalismo é um sistema económico que surgiu da Época Moderna e que consistiu na supressão de um sistema económico livre por parte da coerção estatal, para servir interesses de classes privilegiadas, e que permanece até aos dias de hoje – recordam-se Proudhon ter proclamado que “abolir a livre-competição seria abolir a própria liberdade”? Faz disto dele um “ancap”? Não me parece… (isto entende-se melhor com os escritos de Kevin Carson e com os membros da chamada da Libertarian Left – na grande maioria, mutualistas). Os principais problemas dos “ancaps” são 2: primeiro, a idolatria da divisão do trabalho, muito devido à influência da economia política vulgar; e segundo, o facto de acreditarem no mito ricardiano da “acumulação privada”, o que os leva a tomarem posições contraditórias, como oporem-se ao Estado, ao mesmo tempo que defendem um sistema económico cujas origens são estatais. A “esquerda vulgar” também têm a sua culpa nisto, mas isso é outra problemática. (O artigo que um comentar postou em cima também é bom a explicar isto)

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