Carlos Taibo: para entender o TTIP


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Carlos Taibo acaba de editar o seu último livro “Para entender el TTIP. Una visión crítica del acuerdo transatlántico de comercio e inversiones” (Los Libros de la Catarata), sobre o Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos, que está a ser negociado, secretamente, entre os Estados Unidos e a União Europeia.

Carlos Taibo, é professor universitário na área da ciência política, define-se como libertário, na velha tradição anarquista, e considera que o TTIP “é a maior ousadia do grande capital para que o seu poder seja irreversível”. Uma afirmação que serve de título a uma entrevista que concedeu recentemente a Gorka Castillo da revista CTXT, que traduzimos.

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“O TTIP é a maior ousadia do capital”

Como é que o TTIP vai afectar os cidadãos europeus?

Pese o secretismo das negociações, conhecemos alguma coisa do seu conteúdo. E é essa opacidade que nos faz compreender que o acordo produzirá uma deterioração visível da nossa situação no terreno social, laboral e do meio ambiente.

Ainda pior do que já está?

É difícil perceber que depois do enorme ajustamento que o grande capital fez na Europa ainda possa aumentar [a deterioração das condições de vida, ndt.]. De facto é assim, porque a sua ousadia não tem limites. Agora pretende fazer com que o seu poder seja irreversível. Por exemplo, algo tão simples como uma simples câmara municipal não poder remunicipalizar o serviço de água. Vivemos uma fase de capitalismo enlouquecido que creio ter já perdido os freios que no passado lhe permitiram salvar a face.

A escritora indiana Arundhati Roy vaticinou que “o capitalismo fracassará como o comunismo”. Que acha?

É um debate complexo. Há argumentos que assinalam duas opções diferentes. Uma é a de Roy. A outra é a que descreve um capitalismo extremamente duro, com aspirações a levar para a frente um projecto de “darwinismo social” militarizado ou de “ecofascismo” que implica a marginalização visível (de muitas pessoas), que já começamos a sofrer ou, se for o caso, o extermínio de boa parte da população do planeta.

Mas esse segundo projecto é outra forma de colapso.

Sem dúvida. Dizer que devem sobreviver 800 milhões de seres humanos num total de 7.000 milhões indica as proporções de loucura e leva-nos a um cenário similar ao diagnóstico realizado por Arundhati Roy.

Estamos a viver uma guerra silenciosa pelo comércio mundial?

É alguma coisa desse tipo, embora ainda não tenha estalado em toda a sua magnitude. Mas não nos enganemos: a China ou a Índia não oferecem um modelo alternativo ao capitalismo. Há quem considere que ambos os países incorporaram muitos dos elementos mais negativos do capitalismo colonial como seja a extracção da mais valia absoluta do século XLX na Europa. Os que preconizam que as economias emergentes representam um modelo alternativo está a equivocar-se. São apenas um obstáculo que o capitalismo tradicional quer eliminar.

O TTIP representa a criação de uma NATO económica?

Parece-me uma comparação adequada. O TTIP não é um acordo neutro que aspira, simplesmente, a suprimir duplicações ou a cancelar taxas alfandegárias. É um projecto muito elaborado, que reflecte a eterna luta do capitalismo internacional entre vários tipos de modelos diferentes.

E que papel reserva o TTIP aos Estados?

Sem dúvida que perdem soberania, mas com uma “nuance” muito importante: não convém idealizar os Estados como agentes de oposição à rapina dos grandes capitais transnacionais. Na minha opinião, a imensa maioria dos Estados forma parte dessa rede desde que decidiram, há já algum tempo, deixar de dar protecção aos cidadãos.

Considera ser impossível mudar o sistema a partir de dentro?

Não vejo nem um indicador sólido disso. Pensar que as instituições são neutras é a ingenuidade do pensamento da esquerda actual. Acreditam que se hoje for aprovado o TTIP, poderá ser cancelado amanhã em virtude de uma nova maioria. Não é assim. No caso desse tratado, não tenho dúvida de que conseguiram levar para a frente esse texto com uma ou outra formulação. Temo que a esquerda se deixe apanhar na ratoeira se não decidir romper drasticamente com a dinâmica actual e apelar à desobediência.

Para se construir uma nova sociedade desde baixo, à margem das instituições, são também necessários modelos consistentes para onde se olhar.

Sim, assumo-o. No entanto, julgo que não é o momento ideal para repetir o jogo de bater com a cabeça nas mesmas instituições.

Grécia podia ser o exemplo do fracasso da esquerda transformadora?

Sim. Há um ano todos eramos gregos em solidariedade com um povo que estava a fazer frente à ignominia da Troika. Inclusive foi ganho um referendo que o próprio governo não teve em conta pouco depois. Hoje já não há nada disso. Aí está o Syriza a pactuar com Netanyahu. Grécia é o exemplo de até onde se pode chegar a partir das instituições.

Que significa que um partido político como o PP, atolado até às sobrancelhas na corrupção, tenha voltado a ganhar as eleições e tenha possibilidade de governar?

É um indicador de que a corrupção é funcional ao sistema e que boa parte da cidadania entende que a corrupção é um pecado desculpável. A tudo isto há que acrescentar que as forças alternativas, especialmente o PSOE, não pode mostrar um curriculum muito melhor.

Você não acredita nada na democracia liberal.

Não. As formas estão tão marcadas e os interesses ocultos são tão evidentes que acreditar nisso, neste momento, é absurdo.

Que opinião tem dos partidos emergentes?

Qualquer plano que aspire apenas a modificar o regime é um projecto sem visão. Estes partidos colocam uma discussão interessante sobre a corrupção, o bipartidismo e incluso a república, mas não falam do sistema, ou seja, do trabalho assalariado, da crise ecológica, da sociedade patriarcal. O seu silêncio sobre estes temas é ilustrativo.

Mas “Podemos”, por exemplo, defende que é preciso encarar primeiro os problemas urgentes para depois, a partir do poder, iniciar mudanças mais profundas.

Pessoalmente parece-me um discurso falsificador porque não é possível. Por isso, julgo que as forças emergentes são uma engrenagem que o próprio sistema decidiu promover porque necessitava de um pouco de oxigénio.

Considera que a irrupção de “Podemos” desmobilizou o protesto da cidadania?

Não é a causa, mas foi uma resposta muito útil. Os porta-vozes inteligentes do sistema agradecem a “Podemos” que tenha amortecido um gravíssimo risco de que uma parte da população assumisse uma estratégia de contestação frontal, quase revolucionároia.

É anarquista?

Uma vez escutei um amigo dizer que devem ser os outros a dizerem se alguém é ou não anarquista, para não cair na petulância. Defino-me como libertário. Creio na autogestão, na auto-organização, na acção directa e no apoio mútuo, mas não me sinto identificado com o anarquismo doutrinário enquanto tal.

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