Marionetistas detidos em Madrid: “Pretendíamos reflectir sobre algumas situações, na nossa opinião injustas e imorais, que estão a acontecer na nossa sociedade”


Este domingo realizou-se uma concentração solidária na Praça Santa Ana de Madrid, convocada pela União de Actores e Actrizes a favor da liberdade de expressão e dos marionetistas detidos – agora libertados com acusações – no bairro de Tetuán. Manifestaram-se grandes personalidades da arte e da cultura. Javier Bardem leu o comunicado que Alfonso e Raúl (os dois marionetistas detidos) redigiram na sexta-feira à noite, e que publicamos já a seguir.

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Alfonso e Raúl à saida da prisão, onde estiveram detidos

“Em primeiro lugar queremos agradecer imensamente todo o apoio que recebemos, tanto das nossas famílias e amigos, como de toda a gente que se organizou para nos ajudarmos de uma ou de outra maneira, tanto na rua, como nos meios de comunicação. De maneira individual e de maneira colectiva. Enche-nos de emoção e é isso que nos faz que nos mantenhamos fortes. De verdade, obrigado.

Queremos dizer-vos que estes dias representaram uma experiência difícil; fomos detidos e posteriormente encarcerados por estarmos a fazer o nosso ofício, por representar a obra que, com tanta esperança e trabalho, tínhamos criado. Fomos difamados por alguns meios de comunicação enquanto estávamos na prisão e agora estamos a sentir as feridas que foram abertas nos nossos seres queridos.

Com a nossa obra não pretendíamos dar aulas a ninguém e muito menos às crianças, mas apenas contar uma história de ficção que, infelizmente, tem muitas semelhanças com a realidade que nos coube viver neste tempo. Nós não somos o que cada marioneta possa dizer ou que possa acontecer em cada cena. É importante sublinhar que a peça de marionetas que representámos no sábado passado (5 de fevereiro) era uma sátira. Com ela pretendíamos reflectir sobre algumas situações, na nossa opinião injustas e imorais, que estão a acontecer hoje em dia na nossa sociedade. E queríamos fazê-lo, para mais, recuperando a Don Cristóbal, esse obscuro personagem tradicional que rondou os teatrinhos populares deste país até que chegou a guerra civil, essa que acabou com muitas coisas, como com o próprio Don Cristóbal, ou com a liberdade de expressão.

Essa liberdade de expressão que acreditávamos ser um direito fundamental, aquela que permite dizer coisas que não agradam à pessoa do lado, ou que não lhe apetece ouvir, ou inclusive lhe horroriza escutar. Porque a liberdade de expressão não é o direito de dizer apenas o que o outro quer escutar. Quem a entenda assim, na realidade não acredita nela.

Não pretendíamos ofender ninguém com o nosso espectáculo e por isso advertimos o público, antes de começar, que os personagens realizavam actos atrozes e violentos. Às pessoas que decidiram ficar e se sentiram ofendidas pedimos-lhes desculpa, pois essa nunca foi a nossa intenção, como tampouco foi a de enaltecer o terrorismo, nem incitar à violência ou ao ódio.

Apenas nos resta destacar a preocupação que sentimos agora. Que sentimos nós, Alfonso e Raúl, mas também todos e todas que inventamos histórias, os que lhes damos forma e os que as interpretamos. A preocupação de que um dia chegue Don Cristóbal com a sua cachaporra e nos agrida, como aconteceu no outro dia, porque não lhe agradou o espectáculo.

Alfonso e Raúl”

aqui: http://kaosenlared.net/titiriteros-pretendiamos-reflexionar-sobre-situaciones-a-nuestro-juicio-injustas-e-inmorales-que-se-dan-en-nuestra-sociedad/

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