(no facebook) Debate em torno de um post


anarquismo_860

Há três dias, a propósito do nascimento de Agostinho da Silva, publicámos aqui no Portal Anarquista um texto sobre a faceta libertária na obra deste pensador, que foi objecto recentemente de uma exaustiva biografia da responsabilidade de António Cândido Franco. O texto deste post foi partilhado no facebook onde motivou um vivo debate, que começou por um companheiro recusar a Agostinho da Silva o título de “libertário”, mas que em breve passou para outros temas, como seja a organização anarquista, o que é ou não é ser anarquista, o sectarismo ou o retorno aos clássicos. O debate (interessante) começou por um primeiro comentário de J.F.:

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J.F.:  Nada contra o Agostinho, pelo contrário, mas que tem ele a ver com o anarquismo? Inclui-lo na tradição libertária é um absurdo histórico e lógico. Não admira que o movimento anarquista esteja na bandalheira e esterilidade em que está.

Portal Anarquista: Absurdo histórico e lógico? A isso pode responder o antónio cândido franco. Ainda há algumas semanas na BOESG ele defendeu que essa era a maior faceta de Agostinho. Não, claro, em termos organizativos, mas de estrutura intelectual. Mas não só dele. Ele faz parte de uma geração em que as ideias libertárias eram o terreno fértil de todos os pensadores: Ferreira de Castro; Jaime Brasil, Abel Salazar, Aurélio Quintanilha, Aquilino Ribeiro… Não quer dizer que fossem anarco-sindicalistas, ou politicamente activos, mas esse era o seu fermento e a visão que tinham do mundo era uma visão libertária. O fascismo e a propaganda do PC durante vários decénios tentaram esconder esta realidade. Uma realidade que só tem valor se for reposta e se estes pensadores forem valorizados enquanto tal e não for esquecida a sua cultura e estrutura de pensamento libertário. Qualquer um dos nomes que acima cito conheciam o pensamento libertário, dele se reivindicavam – por oposição ao fascismo ou ao totalitarismo marxista – e a sua obra é disso reflexo.

Portal Anarquista: Sobre a “bandalheira” e “esterilidade” isso também merecia um comentário mais aprofundado… “Bandalheira”? “Esterilidade”? Vejo mais diversidade e procura de novos caminhos. Numa altura em que os tempos são de clara mudança e os vários protagonismos políticos estão nitidamente esgotados, o anarquismo e as ideias libertárias – ditas e reditas como mortas – são hoje uma das poucas esperanças face ao colapso civilizacional e ecológico que está à nossa frente. A questão é: será que ainda vamos a tempo? E o que é que cada um de nós tem feito para isso, no seu campo de actuação, por mais diverso que seja?

J.F.: Talvez precisemos de distinguir as categorias “anarquista” e “libertário”. Seja como for, ser influenciado por ideias de uma tradição não faz de ninguém parte dessa tradição. O Bakunin foi claramente influenciado por Marx, em particular o materialismo histórico e O Capital (que ele traduziu), e isso não faz do Bakunin parte do marxismo. Desses que citaste apenas sei que o Aquilino Ribeiro teve alguma relação com o movimento anarquista, como teve com republicanos e socialistas. Quanto ao Agostinho acho que não existem quaisquer provas e que é pura especulação.

Mas há ainda outro problema: se formos a classificar ideias como libertárias sem um critério histórico, o que não falta na obra de Marx são ideias libertárias (Manuscritos Económico-Filosóficos 1844, A Guerra Civil em França, etc.), e ele até defendia exactamente os mesmos fins que os anarquistas (inclusive a abolição do estado), mas estratégias diferentes. Da mesma forma, também o Proudhon por exemplo tem fases diferentes e contradições, existindo na sua obre posições autoritárias e elitistas, além de nacionalistas, sexistas, racistas e anti-semitas, e não é por isso que ele entra no canon da extrema-direita. É necessário portanto critérios consistentes e historicamente fundamentados para distinguir “anarquista” de “libertário” e que permitam distinguir o anarquismo de outras tradições como o marxismo.

Além disto tudo, gostava de dizer que, não havendo provas de que certo pensador foi influenciado pelo movimento anarquista ou libertário, acho totalmente sem interesse disputar figuras históricas com base em especulação. Mais importante do que procurar protagonismo para o anarquismo ou convencer as pessoas de que somos melhores que os marxistas, é promover a luta e a transformação social preconizada pelo anarquismo independentemente de etiquetas, e é uma pena que se tenha perdido esse foco. O identidarismo e o sectarismo têm sido péssimos para o movimento! O anarquismo historicamente surgiu para ser uma ferramenta para a transformação social e não uma igreja identitária. Grande parte das fragilidades do movimento se deve a isso, e o foco deixou de ser a luta social (salvo honrosas excepções), não há vontade de autocrítica e só se vê seitas competir sobre que é mais verdadeiramente anarquista (matéria subjectiva que interessa muito à emancipação dos oprimidos, sem dúvida!). Desculpa o desabafo.

Luis Bernardes: “Tudo virá, porém, gradualmente, já que toda a revolução não é mais do que um precipitar de fases que não tiveram tempo de ser. Por agora, para o geral, democracia directa, economia comunitarista, educação pela experiência da liberdade criativa, sociedade de cooperação e respeito pelo diferente, metafísica que não discrimine quaisquer outras, mesmo as que pareçam antimetafísicas. Mas, fora do geral, para qualquer indivíduo, o viver, posto que no presente, já quanto possível no futuro; eliminando o supérfluo, cooperando, aceitando o que lhe não é idêntico – e muito crítico quanto a este -, não querendo educar, mas apenas proporcionando ambiente e estímulo, e procurando tão largo pensamento que todos os outros nele caibam. Se o futuro é a vida, vivamo-la já, que o tempo é pouco; que a Morte nos colha e não, como é hábito, já meio mortos, aliás, suicidados.” (Agostinho da Silva) – anarquismo na melhor definição.

Luis Bernardes: “No político, distingo dois momentos, o do presente e o do futuro. Principiando pelo segundo desejo o desaparecimento do Estado, da Economia, da Educação, da Sociedade e da Metafisica; quero que cada indivíduo se governe por si próprio, sendo sempre o melhor que é, que tudo seja de todos, repousando toda a produção por um lado no amador, por outro lado na fabrica automática; que a criança cresça naturalmente segundo suas apetências.” – há melhor declaração de princípios anarquista?

J.F.: Isso exprime de facto ideias anarquistas, e é muito interessante. Mas vejamos também coisas escritas pelo Marx:

“Only when the real, individual man re-absorbs in himself the abstract citizen, and as an individual human being has become a species-being in his everyday life, in his particular work, and in his particular situation, only when man has recognized and organized his “own powers” as social powers, and, consequently, no longer separates social power from himself in the shape of political power, only then will human emancipation have been accomplished.” (On the Jewish Question)

“Thus they [the proletarians] find themselves directly opposed to the form in which, hitherto, the individuals, of which society consists, have given themselves collective expression, that is, the State. In order, therefore, to assert themselves as individuals, they must overthrow the State.” (The German Ideology)

“This was, therefore, a revolution not against this or that, legitimate, constitutional, republican or imperialist form of State power. It was a revolution against the State itself, of this supernaturalist abortion of society, a resumption by the people for the people of its own social life.” (The Civil War in France)

“Does this mean that after the fall of the old society there will be a new class domination culminating in a new political power? No … The working class, in the course of its development, will substitute for the old civil society an association which will exclude classes and their antagonism, and there will be no more political power properly so-called, since political power is precisely the official expression of antagonism in civil society.” (The Poverty of Philosophy )

A questão mantém-se: escrever determinadas coisas é suficiente para fazer parte da tradição anarquista ou libertária?

Daniel Martins: J.F. Por um lado tenho de concordar que se faz pouco hoje em dia em matéria de transformação social, ainda que se faça mais que outros movimentos sociais.

Mas temos que notar que há uma tentativa perfeitamente lógica de recuperar a identidade anarquista e libertária, que é constantemente atacada, e foi contrariada no passado, e acredito ser algo nobre.

No entanto, sim, decerto que mostrar essa identidade pelas nossas acções é bastante melhor do que a cultura de alguns grupos (que não costumo assistir tanto cá em Portugal, mas sim no exterior) que é a de “o meu anarquismo é melhor que o teu” e de ideias fixas/dogmáticas

J.F.: Sem dúvida que isso é louvável, até porque o nome anarquismo tem sido apropriado por movimentos que não têm nada que ver com a tradição e isso desvirtua. O problema são os sectarismos.

Também devo dizer que apesar de tudo há anarquistas que têm feito um bom trabalho social e organizativo no sentido de voltar a inserir o anarquismo nas lutas. Pena serem poucos, mas já não é mau.

Portal Anarquista: J.F. Este debate tem sido interessante… Quanto a Marx muitos anarquistas consideram-no um pensador importante (foi o caso de Bakunin e de muitos outros) para o pensamento e para a prática revolucionária, mas nunca se lembrariam de, por isso, se considerarem marxistas – no sentido de fazer da teoria política de Marx, no seu conjunto, a linha directriz da sua acção. E há livros e passagens de Marx com uma tonalidade claramente libertária (os manuscritos económico-filosóficos ou o livro sobre a Comuna de Paris). Outros não, claro. O mesmo se passa com Agostinho da Silva. A sua obra tem vários olhares. Tão forte é este de índole libertária sobre a educação e sobre a economia, como outros de diversa índole. Mas por isso, nunca advogaríamos a existência de um pensamento agostiniano, global, que procurássemos seguir. De Agostinho, como de Marx, ou de outros pensadores retiramos o conjunto de reflexões, ensinamentos e ideias que nos podem ser úteis, enquanto anarquistas e libertários, mas nunca nos incluiríamos na lógica dos totalitarismos que se formam desta ou daquela linha – seja marxista, seja leninista, seja guevarista, seja maoista – a partir da obra e do pensamento de um único homem. O pensamento libertário é mais complexo – como a vida – e recebe todas as contribuições que nos sejam úteis para alcançarmos o nosso objectivo – uma sociedade sem Estado, sem exploração económica e sem submissão política.

J.F.: Boa parte do meu comentário em baixo da tua outra resposta responde a algumas das tuas questões.

Sem dúvida que no papel é tudo muito bonito e a tradição anarquista/libertária teoricamente tem tudo para ser uma maravilhosa alternativa política nestes tempos terríveis e com falta de referências ideológicas devido à queda da URSS, etc.

Só que quando se trata de passar do papel à prática as coisas não dão o resultado que deveriam dar, o anarquismo não consegue afirmar-se como uma força relevante e uma alternativa séria, e poucos estão dispostos à reflexão autocrítica para determinar onde está a nossa falha e o que precisamos de mudar, mesmo que à custa de certos dogmas. Aliás, vejo muito a arrogância que tanto se critica nos outros: quando as coisas não funcionam, a falha nunca é nossa, é o pessoal que ainda está muito alienado e sem consciência de classe para verem como a nossa ideologia funciona e representa bem os seus verdadeiros interesses e aspirações. Isto é de um elitismo atroz! Se calhar os parvos somos nós e estamos mais alienados da realidade presente dos oprimidos do que gostaríamos de admitir.

Se o anarquismo não se organiza e não se envolve nas lutas sociais junto com outros activistas, esquece. Nunca na história o anarquismo (ou qualquer outro movimento) ganhou relevância social fechado em seitas identitárias para preservar a pureza ideológica subjectiva, à espera que as pessoas se tornem todas anarquistas. Aliás, o objectivo nem é suposto ser que as pessoas se tornem anarquistas mas sim uma sociedade livre de pessoas livres e iguais.

 

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3 comments

  1. Ferreira de Castro, o maior romancista português anarquista (ou libertário) do século XX. Está tudo mais do que documentado. Colaborador assíduo de A Batalha, fazia quase sozinho a revista Renovação (da CGT). Toda a sua obra, «Emigrantes», «A Selva», «Eternidade», «A Lã e a Neve», etc., etc, está impregnada da mundividência anarquista, lida nos pensadores clássicos, muito em especial Kropótkin, sobre quem pretendeu escrever uma biografia.

    Jaime Brasil — nome incontornável da acção e escrita do anarquismo em Portugal (basta lê-lo, e ler que sobre ele escreveu: João Freire, Luís Garcia e Silva, António Ventura, eu próprio).

    O cientista Aurélio Quintanilha está ligado ao anarquismo por todos os testemunhos coevos. Desconheço escrita do próprio que não seja sobre temas científicos.

    Já quanto a Aquilino e a Abel Salazar, tenho muitas dúvidas, mais por ignorância própria. é verdade. Mas, embora independentes de espírito, não me parece tão evidente, essa ligação ao anarquismo. Talvez sim, ou não.

    No caso do Aquilino, é fácil de verificar: é ler-lhe a obra, porque, no final, só essa é que conta.

    Saudações.

    Ricardo António Alves

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