(Yannis Youlountas) “A democracia é a pré-história da anarquia”


yannis

A democracia é a pré-história da anarquia

Entrevista com Yannis Youlountas (*)

Depois de “ Ne vivons plus comme des esclaves” en 2013, Yannis Youlountas acaba de lançar um novo filme : “Je lutte donc je suis”. Uma ode à resistência e à insubmissão que decorre de novo na Grécia, mas também, desta vez, em Espanha. Uma viagem musical através das alternativas concretas, autogestionária e libertária que lembra que a utopia já aí está, ao alcance da mão. Um convite a romper com a rotina e a obediência, as ideias recebidas e a existência despossuída de si própria: como diz um dos personagens do seu novo filme “eu luto porque penso que a humanidade é capaz de outra coisa”.

Le Monde Libertaire: Começaste a rodar o teu filme antes da eleição de Tsipras, depois durante o seu regresso. Na tua opinião, o que revelou a traição de Tsipras?

Yannis Youlountas: Infelizmente não é novo. A maldição do poder atinge a esquerda desde há 150 anos. Os militantes e simpatizantes destes partidos sentem-se traídos de cada vez que acontecem situações destas. Mal chegam ao cimo, à semelhança de Sísifo com o seu rochedo, o poder escapa-se-lhes rapidamente. Pior ainda: este facto atinge-os sem que a maior parte tente verdadeiramente compreendê-lo. Julgando, sempre que acontece, que se trata de um problema de casting. Durante o século XX, este confisco do poder manifestou-se sob duas formas principais: a deriva totalitária e a traição burguesa. Tsipras acaba de juntar mais um exemplo à segunda categoria, 24 anos depois do programa comum da esquerda em França. O dia 13 de Julho de 2015 ficará para sempre como uma das traições mais espectaculares da história da esquerda na Europa, uma das piores experiências desta repetição, desta armadilha, desta impotência.

ML: Tu és muitas vezes convidado por associações ou organizações de esquerda com o teu filme. Como é que elas respondem à tua crítica?

YY: A minha metáfora de Sísifo acerca deles é irrefutável. Os exemplos são flagrantes, numerosos e o último deles ainda lhes faz dor de barriga. Está no momento de se colocarem as perguntas certas, dentro do respeito e da franqueza. Neste caso, a prioridade não é somente estabelecer um “plano B”, muito em moda nesta altura, mas muito mais de repensar a organização, o dispositivo, os meios reais de mudar de política. Sem colocar em questão o próprio poder, a maldição continuará. Por vezes, alguns dos meus amigos da esquerda dita “radical” tentam contradizer-me invocando as férias pagas e a segurança social. Grande erro: as férias pagas não foram dadas por Blum, mas arrancadas pela forte greve geral de Junho de 1936. Do mesmo modo, se o programa social do Conselho Nacional de Resistência pôde ser posto em prática no fim da guerra, foi principalmente porque os operários ainda tinham as armas da resistência nas mãos, enquanto uma grande parte do patronato tinha sido colaboracionista. O problema não é apenas de conceber alternativas, sejam elas quais forem, mas também, e sobretudo, o de encontrar os meios de as pôr em prática.

ML: Num tal contexto porque é que os anarquistas também não conseguem fazerem-se ouvir?

YY: Os processo utilizados nos nossos meios não são provavelmente sempre os melhores. Também não é porque se tem a solução para um problema e que se tem experiência neste assunto, que se consegue fazer-se ouvir. Tomemos o exemplo da escola: o professor mais sábio e inteligente muitas vezes não é o melhor transmissor do saber, o melhor pedagogo, que sabe escutar e é paciente. Não há nada pior do que humilhar os que fracassam.  É uma pena, porque na minha opinião, não há melhores especialistas deste assunto que os meus companheiros anarquistas. Mas eles são, também eles, atingidos por uma outra forma de maldição: a de Cassandra que não consegue fazer-se ouvir. O poder deleita-se quando vê que nos marginalizamos em vez de difundirmos as nossas ideias duma forma mais abrangente e eficaz. Ele ri-se das nossas velhas querelas, dos nossos clãs, dos nossos maus hábitos. Diverte-se quando vê os Sísifos impotentes, as Cassandras inaudíveis e os jardineiros isolados. Os jardineiros são a terceira componente do movimento social e revolucionário. Eles tentam aplicar a divisa de Gandhi: “sê a mudança que desejas para o mundo”, mas esquecem-se que não basta transformarem-se a si próprios para transformarem global e radicalmente o mundo. Certamente que os jardineiros cultivam de forma aplicada o seu espaço experimental, mas descuram as outras formas de resistência sem as quais qualquer criação é condenada, mais cedo ou mais tarde, a ser destruída. Quer queiramos ou não, as nossa lutas estão ligadas, não há nenhum espaço de fuga possível, nem outro mundo que esteja totalmente separado deste. Nós estamos todos no mesmo barco face à burguesia mundial e aos seus servidores dedicados, face ao capitalismo e à sua multidão de servos, face ao poder e à sua polícia. Como resposta, nós não temos outra escolha senão multiplicarmos as assembleias e ocupar as ruas, a vida, o mundo. Não há outro caminho para a utopia que não seja a resistência, a ágora, a educação popular e a criação artística sob todas as formas, ou seja, a acção radical sobre o imaginário social que devemos descolonizar na totalidade. Esta é a primeira condição da nossa emancipação, da nossa resposta, da nossa reinvenção do mundo: retomar o controlo sobre os nossos saberes, sobre os nossos pensamentos, para retomarmos a ter o controlo sobre as nossas vidas. A dimensão simbólica da luta é tão importante como o seu impacto imediato, mesmo o mais vital. Porque é ela que, desde logo, traz inquietação a quem nos está próximo e os leva a juntarem-se-nos, nomeadamente através das canções, dos filmes, dos livros, dos encontros, dos debates que suscitam, acompanham ou interpretam os acontecimentos. Nós não somos apenas o produto da necessidade, cabeça curvada no sulco de um destino traçado. Nós somos também capazes de repensar e de reinventar este mundo injusto e ilusório, construído sobre o vento. O tempo crítico é também o tempo da crítica. O tempo de se pôr em questão. O tempo de se pôr em movimento. Mós não estamos condenados em permanecer na pré-história política da humanidade.

ML : É assim que qualificas o sistema político actual?

YY: Sim, a democracia é a pré-história da anarquia. A democracia sob todas as suas formas, variante e declinações. É um balbuciamento, um germe, um mito. Mas estamos ainda longe do fim. A democracia anuncia um objectivo de igualdade que é incapaz de alcançar. Desde há 2500 anos que ela não consegue soltar a amarra que a separa da planície em que o ser humano se erguerá politicamente para viver e pensar a sociedade, em igualdade com todos os outros. A democracia continua à beira do bosque, do raio de luz, no centro do décor pouco modificado do Antigo Regime. Ainda se está longe da liberdade verdadeira, da igualdade real e da fraternidade universal. E isto porque ainda resta uma cadeia a destruir, um cordão umbilical a cortar, um ramo a soltar para marcharmos juntos de pé. É o poder. Enquanto o sistema politico não se desembaraçar deste flagelo, continuará a reproduzir as mesmas macaquices por cima das multidões infantilizadas e instrumentalizadas. Nós ainda estamos na idade da pedra da política, mas nada está já acabado.

ML: E a democracia sob outras formas, em particular a democracia directa? Pensas que é preciso abandonar definitivamente a palavra democracia?

YY: É delicado. Primeiro, é preciso distinguir a questão semântica da questão estratégica. O problema da palavra democracia reside na oposição entre as noções que a compõem. Juntar demos e kratos, povo e poder, é pressupor a possibilidade duma igualdade absoluta de todos face ao poder, sem levar em linha de conta a complexidade do dito poder na sociedade, na sua omnipresença em todos os momentos de domínio que atravessam as nossas relações e de que nós não temos sempre consciência. É igualmente ocultar o fascínio humano pelo poder e a sua capacidade de corromper, desviar, mudar qualquer um. Um problema que conhece o seu ponto máximo ao nível das híper-estruturas, nomeadamente com todo o poder do Estado. Em resumo, desde a antiguidade, a democracia é uma bela ideia, mas ela esconde a realidade humana, os seus horrores, o seu passivo e a necessidade de levar isso em linha de conta. Certamente que a democracia é uma ideia simples, pelo menos na aparência, mas igualmente simplista à semelhança do processo de Rousseau que, no “Contrato Social”, julga conseguir articular a vontade geral e a liberdade de cada um, ainda que a relação entre a maioria e a minoria permaneça uma relação de poder como tantas outras, quaisquer que sejam os elementos moderadores incluídos neste sistema. O coração do problema reside no poder e em mais nenhuma parte. O poder tem dois sentidos bem distintos que se opõem precisamente aqui: o poder enquanto capacidade e o poder enquanto relação de domínio. Dos atenienses a Rousseau, todos os ideólogos da democracia, mesmo os que nos são mais simpáticos, acreditaram na possibilidade dessa articulação. Pela minha parte parece-me que é um erro: o poder não deve ser reorganizado de outra maneira. Ele deve ser destruído. Disso depende a nossa capacidade de pensar e de escolher a vida. Porque o poder enquanto capacidade opõe-se fundamentalmente ao poder enquanto relação de domínio. A liberdade não se dá, conquista-se, e não se troca por nenhuma vontade geral. Dito isto, quanto ao aspecto estratégico, reconheço que a democracia directa propõe já um grande passo fora da selva de relações de domínio, uma etapa essencial no caminho para a utopia. É por isso que eu defendo esta via. Possui também a vantagem de manter esta expressão o tempo necessário para a sua dessacralização. Mas quando a democracia deixar de ser confundida com a liberdade, será então o tempo de ousar a Anarquia, como já o estamos a fazer em numerosas experiências que funcionam perfeitamente e que provam a nossa capacidade de vivermos em conjunto de uma outra forma.

ML: No teu novo filme “Je lutte donc je suis” podem-se ver pessoas que lutam, que experimentam outras formas de organização. Pode-se falar de experiências democráticas ou mesmo anarquistas?

YY: As duas. Eu não quero impor um caminho que os meus espectadores devem seguir, por isso respeito a diversidade. Eu apenas sugiro uma direcção e menciono todas as formas de avançar nesse sentido, cada um ao seu ritmo, para além das nossas diferenças. Estou convencido que esta diversidade é uma oportunidade. Pouco importa se a democracia participativa de Marinaleda não vai tão longe como a experiência de democracia directa das ocupações de Sanlucar, ou melhor ainda, da assembleia libertária de Exarcheia. Tudo o que vai no bom sentido é bem vindo e serve de ponto de referência para procurar, comparar, corrigir e continuar a avançar para a utopia. É indispensável partir do que sabem, pensam e desejam as pessoas que estão à nossa volta. Para além disso, desconfio dos juízos de valor sobre a radicalidade das opiniões de uns e de outros, porque os actos por vezes contradizem as etiquetas colocadas de forma apressada. Eu conheço um homem de esquerda, na aparência moderado, que deixou penhorar a sua casa lutando contra os OGM e um outro que se reivindica libertário, que nunca fez outra coisa do que ler Bakunin, em pantufas, ao pé do lume, sem nunca pôr à prova a radicalidade das suas leituras para além de algumas conversas interessantes, mas sem futuro. Não julguemos apressadamente aqueles que integram connosco o movimento social e revolucionário e desconfiemos das etiquetas. Deixemos essa fábrica de preconceitos aos fascistas.

ML: Fascistas que neste momento se aproveitam da democracia. Marine Le Pen pretende “voltar a dar o poder ao povo” e Étienne Chouard, admirador de Soral, evoca “a verdadeira democracia” pela escolha à sorte (dos representantes políticos) afirmando que “desde há 200 anos os ricos governam e [que] durante 200 anos, na Atenas clássica, os pobres governaram”. A Grécia antiga é sobretudo uma referência maior em toda a extrema-direita.

YY: Sim, do Instituto Ilíada ao Circulo Aristóteles e do G.R.E.C.E à nova Acrópole, os círculos de reflexão da extrema-direita serviram-se sempre do pretenso “milagre grego” para ocultar a origem africana da humanidade. O seu mito do génio grego antigo é um contra-senso completo relativamente às causas reais desta época inventiva. Os Gregos eram viajantes, comerciantes que negociavam com numerosas cidades da orla mediterrânica e os seus investigadores partiram até à Babilónia ou ao Egipto para trazerem os saberes do seu tempo. Este desenvolvimento não teve nada de milagroso: produziu-se através da mestiçagem, do encontro, o oposto do voltado sobre si próprio professado pela extrema-direita. Quanto às mentiras de Étienne Chouard, tenta branquear o passado ao evocar precisamente 200 anos de governança dos ricos, como se tivesse sido melhor durante o Antigo Regime elogiado pelo seu amigo monárquico Marion Sigaut. Ele tenta outra vez branquear quando cita quase exclusivamente a Grécia antiga, escondendo bizarramente a Comuna de Paris, a Espanha de 1936 ou ainda Exarcheia, nos dias de hoje. Na verdade, durante 200 anos, na Atenas clássica, os pobres nunca governaram. Mesmo nunca. Os numerosos escravos, metecos, mulheres e jovens nunca deixaram de ser maltratados enquanto proletários, como sempre. Mesmo um aluno dos cursos elementares, fazendo uma simples conta, pode contradizer este género de mentiras e desmascarar que as faz.

ML: E que pensas da tiragem à sorte?

YY: É um instrumento como outro qualquer, um recurso possível em certas circunstâncias, mas em nenhum caso uma solução mágica. Toda a marcha da humanidade é uma marcha contra o destino. Torna-se humano, é desobedecer. Desobedecer a tudo e também ao acaso. Desobedecer às evidências, do espanto socrático à dúvida cartesiana. Desobedecer ao acaso e à necessidade modificando a equação da ciência ao ponto de lhe acrescentar uma nova variável: a razão universal. Desobedecer ao instinto, para além do determinismo da natureza, e desobedecer à crença e à opinião, para além do determinismo da cultura de origem. Ousar escolher e assumir a sua liberdade e responsabilidade, em vez de deixar que a sorte decida. Fazer uma sociedade, no sentido mais elevado, é conjugar as nossas capacidades de desobedecer, pensar, escolher e construir em conjunto. E não obedecer e remeter-nos para uma entidade superior qualquer que ela seja: nem deus, nem César, nem acaso. É precisamente contra a sorte que se tem levantado desde sempre a humanidade. Para além da pré-história política, das quimeras e das sombras, há um horizonte, a liberdade, a igualdade. Há a utopia. Há a Anarquia.

Declarações recolhidas por Dominique Lestrat, do Groupe Kropotkine/ Fédération Anarchiste. Artigo publicado no le Monde Libertaire hors-série n°63

aqui: https://blogs.mediapart.fr/le-monde-libertaire/blog/030216/la-democratie-est-la-prehistoire-de-lanarchie-entretien-avec-yannis-youlountas

(*)Yannis Youlountas (1970) é um realizador, filósofo, poeta e escritor francês de origem grega. Anarquista, nos últimos anos realizou dois filmes/documentários sobre as lutas no sul da Europa (Grécia e Espanha). Publica crónicas regulares no Siné Mensual, Le Monde libertaire et Les Zindigné(e)s.

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