Dia Internacional da Mulher Trabalhadora: “Não há nada para festejar!”


fabrica

Em Portugal e no Alentejo, salvo raras excepções, o Dia Internacional da Mulher está praticamente anestesiado e sem significado. As mulheres recebem – as que recebem – flores, os poderes públicos e partidários fazem festas e festarolas, jantares e exposições de lavores e, nalguns sítios, termina tudo numa ida à discoteca – mas só mulheres! Porém, a história deste dia destinado a homenagear a mulher trabalhadora e a reivindicar mais direitos e igualdade de género, combatendo o patriarcado e o poder do Estado, foi sempre feita de sangue, suor e lágrimas de milhares de mulheres. Que hoje homenageamos, com especial relevo para as que estão presas por lutarem contra a sociedade actual, a exploração e a opressão, mas também para todas as mulheres que são vítimas de violência doméstica, nomeadamente as 29 mulheres que em 2015 morreram em Portugal por maltratos no âmbito familiar. Em 2015, as mulheres em Portugal ganhavam menos 31% do que os homens. Estudam durante mais tempo, mas 6% são analfabetas, já nos homens apenas 4% são analfabetos. As mulheres trabalham a meio tempo 14,3% dos casos, os homens 9,2% dos casos. As mulheres trabalham 328 minutos por dia (em média) sem receber, enquanto os homens trabalham 96 minutos por dia (em média) sem receber. O nível de desigualdade tem piorado com o passar do tempo, em 2006 o índice tinha um valor de 0,692 (sendo 0,0 a indicação de inexistência de desigualdade), valor que cresceu para 0,731 em 2015. (aqui)

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proletário

Na actualidade, o 8 de Março é reconhecido a nível internacional como a comemoração do dia internacional da mulher e, ao ocultarem-se certos aspectos, institucionalizou-se o paternalismo. Neste dia felicitam-nos, oferecem-nos coisas e tratam-nos bem e com amor. Mas o 8 de Março é um dia no âmbito da luta de décadas das mulheres de várias partes do mundo que, chegando a consenso, conseguiram escolher uma data para falar da sua luta pela emancipação.

Temos que entender o contexto que vigorava na época, uma vez que é no início do século XX que se começa a consolidar o modelo económico capitalista mundial e este precisa de se validar de uma forma rápida para poder começar a produzir. Por esse motivo o capitalismo não discrimina, e rapazes e raparigas, mulheres e homens caem nas suas redes, com condições de vida e de trabalho paupérrimas, jornadas de 12 horas, sem protecção na maternidade, sem segurança nos locais de trabalho, com salários miseráveis e um tratamento depreciativo, entre muitos outros aspectos. Tudo somado ao patriarcado reinante, com trabalhos nas empresas têxteis só para mulheres, porque não podiam empregar-se noutras áreas e eram ameaçadas para que não se mobilizassem.

Ainda assim, apesar de tudo o que tinham contra si, as mulheres decidiram organizar-se de maneira reiterada, faziam reuniões e tentavam quebrar essas más condições exigindo dignidade.

Como data mais relevante considera-se em 1909 o dia 28 de Fevereiro, quando se celebrou em Nova Iorque o “Dia da Mulher”, uma data que se comemorou até ao ano de 1913. Essa é a data da primeira celebração dirigida às mulheres com carácter nacional, a pretexto da greve das trabalhadoras têxteis de 1908, quando umas 15 mil mulheres saíram às ruas.

Em Novembro desse mesmo ano também se mobilizaram as mulheres, no chamado “levantamento ou revolta das 20.000” trabalhadoras de uma empresa têxtil de fabrico de camisas, reconhecendo-se entre as lutadoras Clara Lemlich e Rose Schneiderman.

Em 1910, em Copenhaga, celebrou-se a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em que se aprovou o estabelecimento do “Dia Internacional da Mulher Trabalhadora”, proposto pela alemã Clara Zetkin, que era socialista.

Já como data de carácter internacional, pode-se reconhecer no ano de 1911, o 19 de Março, motivado por um encontro na Europa de mulheres que começaram a pensar e a gerar ideias para se apropriarem das suas vidas e reivindicar alguns direitos que naquela altura lhe eram proibidos pelo facto de serem mulheres. Entre as suas exigências figura: “Os direitos das mulheres, pelo bem-estar da infância e pela paz europeia e mundial”, “A paz das nações, contra o militarismo e pela abolição dos exércitos existentes”. A comunista alemã Clara Zetkin fez a proposta, apoiada por Rosa Luxemburgo, ambas fundadoras da Liga Spartakista alemã. Tudo isto não é muito conhecido, já que se tem tentado desvincular o carácter político da comemoração deste dia para que fique pouco mais do que uma reivindicação de direitos civis.

Paralelamente a isto, no dia 25 de Março de 1911 houve um terrível incêndio provocado pela desumanidade do dono da fábrica têxtil “Triangle Shirtwaist Company”, em Nova Iorque, onde as portas eram fechadas à chave para que as operárias não pudessem sair e assim trabalhassem as horas correspondentes. No incêndio morreram 146 grevistas entre os 14 e os 31 anos, umas queimadas, outras estateladas contra o chão quando tentavam fugir ao fogo e se lançavam dos pisos superiores. Este é o acontecimento que se comemora na actualidade, esquecendo a organização e as lutas anteriores, pois a história oficial vê este atentado contra as 146 operárias como um acto de violência contra a mulher, mas sem enfatizar o carácter patriarcal e capitalista.

Também na região espanhola existem evidências deste dia, pois Teresa Claramunt, operária têxtil e jornalista anarco-sindicalista, em 1889, juntamente com Ángeles López de Ayala e Amalia Domingo formaram a Sociedade Autónoma das Mulheres, o primeiro grupo de autoemancipação das mulheres trabalhadoras. Elas e outras lutadoras apoiaram a celebração do 8 de Março como um dia reivindicativo.

E, finalmente, chega o consenso, pois foi a 8 de Março de 1917, no extenso território da Rússia dominada pelo Czar que, em consequência da falta de alimentos, elas se amotinaram. É um dos primeiros acontecimentos que dão inicio à Revolução Russa, e que a história oficial não conta, pois na história que nos é contada a participação da mulher é anedótica e, lamentavelmente, feita apenas por homens e para homens.

Pela relevância deste acontecimento e, sobretudo, porque foram as mulheres que o levaram a cabo fixou-se definitivamente o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, sendo o fruto de um processo de anos, de dores pela violência e pelas mortes, e em que as mulheres não se deram por vencidas e começaram a construir um pensamento de emancipação feminina.

Para reflexão, podemos assinalar que, apesar da organização, luta e morte de mulheres operárias, actualmente este dia é comemorado praticamente como um dia comercial, em que os “pretendentes a noivos” oferecem flores e consumismo, em que se desvirtua a luta pela liberdade, existindo discursos que falam do poder e da mulher, quando é o poder que manteve durante anos a mulher submissa e num estado de latência, bombardeando-nos com publicidade para alterarmos os nossos corpos, para esconder a nossa realidade e em que temos que projectar uma imagem de mulher de êxito e em progresso. Em que as lutas das mulheres foram ganhas apenas quase para se poder optar por direitos como o voto, ou aceder a cargos públicos e usar saia curta e bikini – a isto chegou hoje a “emancipação da mulher”…

Aqui: https://periodicoelanarquico.files.wordpress.com/2015/03/el-anc3a1rquico-nc2b0-2-leer-2.pdf

Sobre os movimentos feministas em Portugal:  https://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/1346/1/Tese%20de%20doutoramento%20Manuela%20TavaresVF.pdf

 

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