(Eugène Enriquez) A arrogância nos grupos


161226-SaloCena de “Salò, ou 120 dias de Sodoma”, de Pier Paolo Pasolini

Warren Buffet, terceira fortuna do mundo, diz: “Não há luta de classes, há uma guerra de classes. É a guerra dos ricos contra os pobres e os ricos estão vencendo”. Não se pode ser mais claro. Os “ricos” estarão (ou já estão) em condições de dominar, explorar, matar psiquicamente e às vezes fisicamente aqueles que são menos iguais a eles mesmos, a riqueza em nosso mundo vem substituir a “libertinagem” desmedida do mundo de Sade.

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O texto da série Ensaios sobre a Arrogância é de autoria de Eugène Enriquez, professor emérito de sociologia da Universidade Paris-Diderot. O texto parte da teoria da democracia para pensar o surgimento do campo da psicologia social como uma tentativa de resposta à arrogância. A crescente e atual expansão da arrogância interpela o ideal de igualdade da democracia. Se considerarmos que a democracia é por definição o regime no qual as diferenças convivem, que ela historicamente superou a hierarquia baseada no sangue, haveria lugar para a expressão da arrogância na democracia? “Exercício arbitrário de um poder sobre outrem”, visando a “despossuí-lo parcial ou completamente de sua característica de homem livre”, a expressão da arrogância tem por fonte principal uma assimetria baseada na associação entre a riqueza e o poder. Enriquez destaca ainda a atualidade de Sade (1740-1814)*, pois o homem, esse ser do excesso, que deseja a riqueza desmedida ou a paradoxal propriedade ilimitada, se encaixa no modelo de desejo onipotente e de volúpia contínua da “libertinagem”, que transforma os outros em simples instrumento para gozar um prazer perverso. (Myriam Bahia Lopes)

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A Arrogância nos grupos

Por Eugène Enriquez | Tradução: Yolanda Vilela 

Parece-me importante precisar, antes de qualquer desenvolvimento, o sentido do termo arrogância. Este não deve ser confundido com palavras como orgulho, desdém, desprezo, sentimento de superioridade etc. Por uma razão essencial: é o único que qualifica a ascendência sobre o outro, o rapto de sua individualidade. Arrogância significa exercer arbitrariamente um poder sobre outrem, despossui-lo parcial ou completamente de sua característica de homem livre.

Esse termo, que parecia reservado às sociedades altamente hierarquizadas, retorna atualmente de forma importante em nossas sociedades democráticas e nos interroga sobre o seu futuro.

A arrogância ligada às sociedades altamente hierarquizadas

O fato de nessas sociedades os homens poderem dar provas de arrogância em relação a outros parece ser algo natural. O estatuto que lhes confere o nascimento, a riqueza, o mérito reconhecido e o favor dos mais poderosos permite que eles tratem os outros com condescendência (desprezando-os e humilhando-os muitas vezes), pois estão seguros de suas posições, o que lhes dá precedência sobre os outros.

Nesse tipo de sociedade, as práticas mais violentas (que chegam à tortura e ao crime), evocadas nas obras de Sade (1740-1814), são comuns. As pessoas “importantes” podem, com efeito, se deixar levar impunemente por uma libertinagem que não tem nada de leve, visto que elas não estão no mesmo patamar que o mais comum dos mortais.

Encontraremos igualmente essa segurança tranquila nas sociedades em que as mulheres não têm direito algum, ou poucos direitos, nas quais elas correm o risco de serem violentadas ou em que temem ser mortas. Naturalmente, a arrogância que contém em seu cerne a possibilidade assassina não cede sempre a esse excesso. Nas comunidades camponesas, tão louvadas (frequentemente sem razão) por Tönnies (1855- 1936), existe uma hierarquia estrita das funções e, acima de todos, estão o senhor, o fidalgo provinciano e o padre, aos quais todos devem deferência, e eles fazem sentir a sua superioridade em todas as circunstâncias.

A arrogância vai se exprimir particularmente nas relações “face a face” ou nos pequenos grupos, onde é mais fácil manter tal postura, do que nas relações à distância. Nesses últimos anos, temos sido particularmente afetados pelo desdém, pela vontade de humilhação, mas é possível, longe das observações mordazes, manter um certo limite de “estima de si”. A distância tem um caráter protetor.

A arrogância, postura normalmente proscrita nas sociedades democráticas

Como a democracia é formalmente o reino da liberdade de cada um, ela não pode, em hipótese alguma (ao menos teoricamente), produzir arrogância, visto que ninguém pode abandonar a “propriedade de si” (R. Castels e Cl. Haroche).

Além do mais, cada pessoa que esteja vivendo “uma igualdade de condições” é igual a outra, ou seja, um semelhante, e não um superior ou um inferior. Sobre isso Tocqueville (1805-1859) escreveu:

[…] os gênios mais profundos e vastos de Roma e da Grécia nunca conseguiram chegar a essa ideia tão geral e ao mesmo tempo tão simples que é a similitude dos homens. Nos povos aristocráticos, cada casta tem suas opiniões, seus sentimentos, seus direitos, seus costumes, sua existência à parte… os semelhantes são vistos somente nos membros de cada casta… quando, ao contrário, as classes são mais ou menos iguais em um povo… cada um pode julgar, em um momento dado, as sensações de todos os outros; cada um dá uma olhada rápida sobre si mesmo; isso basta. Não há, portanto, miséria que não se conceba sem pena e cuja extensão não seja mostrada por um instinto secreto (TOCQUEVILLE, p. 171-174).

Assim, Tocqueville mostra que a compaixão se torna um elemento central das sociedades democráticas, pois ela está ligada à maneira segundo a qual cada um é afetado pelo que acontece com um outro pouco diferente de si mesmo.

Além disso, ele observou que os americanos não viviam somente como iguais, mas também como indivíduos que buscam a companhia de outrem, tanto nas relações bilaterais quanto nos grupos que eles forjavam em todas as circunstâncias, como se o fato de serem reconhecidos como “sujeitos” devesse levá-los, necessariamente, não a cultivar sua singularidade, mas, ao contrário, sua similitude, seu conformismo, criando comunidades onde cada um se sentisse confortável.

Como ele ressalta, a república não deve ter lutado, como na Europa, contra o princípio monárquico. O que explica a preeminência da sociedade civil sobre o Estado. Ora, para que haja sociedade civil é preciso que ela seja o produto “de crenças semelhantes e de ações comuns resultando da similitude dos sentimentos e da semelhança das opiniões”.

O contrário sobreveio na Europa. O que explica a tentativa revolucionária constante nos países europeus, que devem sempre se opor à tendência dos chefes a recriar Estados hierarquizados e promover arrogância, orgulho e humilhação. Certamente, o quadro desenhado por Tocqueville é um pouco idealizado. Contudo, em suas linhas gerais, ele continua sendo pertinente.

O que precede faz-nos compreender melhor as razões pelas quais a psicossociologia se desenvolveu inicialmente nos Estados Unidos.

A psicossociologia como construção do grupo em que cada sujeito é respeitado como igual a qualquer outro

Trata-se aqui simplesmente de mostrar que o projeto da psicossociologia conforme ao ideal americano é amplamente difundido na Europa, em particular, e que ele visa estabelecer uma democracia real entre todos os indivíduos que participam de agrupamentos diversos.

Os americanos se deram conta de que havia desigualdades “sociais” e que estas podiam ocasionar formas de superioridade (de arrogância) inaceitáveis pela população. Um despotismo sutil pode se estabelecer a partir da produção e da posse das riquezas. Eles fizeram essa constatação ao mesmo tempo que os europeus. Mas, ao passo que estes deram um lugar essencial à transformação das estruturas sociais, os americanos voltaram- se para uma mudança das “subjetividades” e das “relações humanas”.

Como é impossivel transformar todo o mundo, os psicossociólogos fizeram, sob a impulsão de Kurt Lewin (1890-1947), o projeto de formar “agentes de mudança” que levariam outras pessoas a adotar atitudes mais compreensíveis em relação a seus colaboradores. A psicossociologia se estabelecia como um método e uma ética “de aprendizagem da democracia”.

A invenção e a difusão do “training group”, pelos alunos de Lewin, foram o elemento dinâmico dessa psicossociologia democrática que favorecia, nos indivíduos, um novo questionamento de suas “conservas culturais” (expressão de J. L. Moreno / 1889 -1974), uma exploração de seus sentimentos negativos e a passagem progressiva para sentimentos positivos entres os membros do grupo e a tomada de decisões coletivas pertinentes. Consequentemente, toda arrogância de uma ou várias pessoas devia ser (teoricamente) deinitivamente banida.

O movimento não diretivo de Carl Rogers (1902-1987) foi ainda mais longe. Ele privilegiou a expressão das emoções a fim de favorecer uma melhor “compreensão” entre os membros do grupo. Assim, estes serão levados a se libertar das atitudes “avaliativas”, consideradas como um bloqueio a uma verdadeira comunicação, e de comportamentos de desconfiança em relação a outrem, cuja diferença é sempre propensa a provocar angústia e medo. Eles poderão, consequentemente, escutar melhor uns aos outros, desenvolver sentimentos amistosos e facilitar a tomada de decisões coletivas pertinentes.

Atualmente, os psicossociólogos, sobretudo ingleses e franceses, são menos “ingênuos”. Eles se deram conta de que os sentimentos exprimidos não eram os únicos a irrigar os grupos e que era indispensável levar em conta interesses em jogo, que podem gerar confitos estruturais, e astúcias do inconsciente, que podem fazer prevalecer as pulsões destrutivas sobre a pulsão de vida.

Além disso, como os “institucionalistas” enfatizaram, é necessário preocupar-se com a maneira pela qual as instituições (nas quais os grupos agem) foram instauradas, se transformam ou perderam sentido [vider de l’in- térieur] (Nietzsche) e também com as normas que elas promulgaram.

O fato de se colocar pessoas em grupo não culmina obrigatoriamente numa melhor compreensão mútua nem no desaparecimento de manifestações de arrogância nem tampouco em decisões ideais.

O que nos dizem as sociedades « arcaicas »

Claude Lévi-Strauss (1908-2009), em seus estudos sobre as tribos indígenas do Brasil, comparou-as a “relógios”, ao contrário de nossas sociedades, que funcionariam como “máquinas a vapor”. Essas sociedades “selvagens” são, portanto, pouco instáveis, elas vivem mais sob o registro da reprodução (dos mitos e dos ritos, do modo de divisão do trabalho entre os sexos, da atribuição de status particulares, por exemplo: Xamã) do que sob o registro do movimento. Logo, elas têm poucas decisões a tomar. A maior parte do tempo elas contam com os costumes, com os gestos e com as palavras que tão bem escandiram a sua existência.

Quando, excepcionalmente, ela tem que tomar decisões, a comunidade dos homens se reúne e se põe a falar, a trocar palavras o tempo que for preciso para que se chegue a uma decisão coletiva ou, ao menos, a uma decisão aceitável pelo conjunto dos membros. Quando ela tiver conseguido criar um “estado de unanimidade” (Lévi-Strauss), ela poderá estudar lucidamente o problema que os reúne (por exemplo: mudança de território) trocando argumentos racionais. A decisão final será, então, aceita e colocada a trabalho pelo conjunto da comunidade.

P. Clastres (1934-1977) dará continuidade à obra de Lévi-Strauss. Ele mostrará em A sociedade contra o Estado, que as tribos brasileiras por ele estudadas não conhecem o Estado porque são visceralmente contra todo poder transcendente separado. O chefe não comanda, ele tem apenas um “dever de palavra”. O que ele diz é perfeitamente conhecido de todos. Assim, quando fala, ele quase não é escutado. O discurso do chefe se resume a lembrar os mitos da tribo, a evocar seu nascimento, seus costumes e a dizer que os membros das tribos devem continuar a viver como os seus ancestrais. Ele [o chefe] não deve trazer nenhum elemento novo ao seu discurso. Ele não passa de um recitante da gesta de seu povo.

Em seu artigo “O infortúnio do guerreiro selvagem”, P. Clastres, que mostrara anteriormente o caráter agonístico das comunidades primitivas, se interroga sobre o grupo de “guerreiros” que possui, no interior da tribo, o estatuto mais elevado e que, no entanto, quase não é procurado.

A razão disso é simples: para que o guerreiro seja admirado, é necessário que ele realize feitos extraordinários sozinho. Ele deve ir de façanha em façanha, das mais fáceis (matar um inimigo e escalpá-lo) às mais temerárias (atacar sozinho uma tribo em seu território). Assim, tendo que se superar sempre, o guerreiro sabe que, um dia, contra inimigos reunidos, ele só poderá ser morto. Ser um guerreiro, diz Clastres, é ser um “ser-para-a-morte”. Ele poderá, talvez, dar provas de arrogância enquanto for aclamado. Mas, ele pagará um preço alto por isso. Compreende-se, então, por que o estatuto de guerreiro é poucoinvejável.

Assim, vemos que, nessas tribos, ninguém, nem chefe nem guerreiro, pode se instalar numa posição constante de superioridade ou manifestar arrogância (exceto excepcionalmente). Os membros da tribo são membros de um coletivo. Eles não devem se esquecer disso.

Para melhor compreender os casos em que a arrogância pode se manifestar é preciso explorar, inicialmente, as origens da arrogância.

As origens da arrogância

A) As origens psicológicas

  1. A mônada psíquica

O infans (a criança antes da fala) pode ser caracterizado como um ser habitado por um “sentimento oceânico”, pois ele não distingue o dentro e o fora, o que, consequentemente, faz com que ele não conheça os limites de seu corpo, do qual, aliás, ele não tem consciência. Ele funciona como uma “mônada psíquica” (Castoriadis / 1922-1997) centrada em suas sensações de prazer, quando seus educadores se ocupam ativamente dele, colocando-o no centro do mundo, e em suas sensações de desprazer, de dor psíquica e física, quando se sente abandonado, jogado num universo hostil.

O infans quer tudo imediatamente. Ele tenta viver a “onipotência” sobre um fundo real de total impotência, na medida em que a criança [petit d’homme] não tem a possibilidade de cuidar de si mesma. Quando ele começa, progressivamente, a estabelecer “relações objetais”, permitindo que a palavra de outrem o penetre, ele passa a compreender que não é o centro do mundo e que, para existir, precisa do outro, com o qual poderá se identificar, [outro] que tem seus proprios desejos e que pode reconhecê-lo ou negá-lo. Termina assim o sentimento de onipotência, ainda que isso leve tempo. Antes disso, a criança terá começado a forjar para si um “eu ideal”, resto da onipotência suposta que se atenuará ou se apagará durante a sua vida, mas que pode permanecer solidamente ancorada em alguns (como os “homens de poder”). Podemos até mesmo nos perguntar legitimamente se esse desejo de onipotência desaparece nos comuns mortais. Entretanto, na maioria dos casos, a passagem pelo “estádio do espelho” (Lacan / 1901-1981) irá favorecer, na criança, por antecipação, a percepção de seu corpo unificado, o reconhecimento do outro e pelo outro, e o estabelecimento de um narcisismo temperado, um “narcisismo de vida” (A. Green / 1927-2012) necessário para viver sem “Ego grandioso”, mas com estima de si.

Dessa forma, os homens que não renunciaram à fantasia e ao desejo de onipotência serão sempre levados a atitudes de arrogância em relação a outrem, em particular àqueles que em seus países são considerados “subalternos”.

  1. O homem, ser do excesso

Podemos ir mais longe ao consideramos as obras de Sade e Bataille (1897-1962). Sade proclama veementemente: os libertinos se conduzem como “Deuses”. Assim, eles são capazes de decretar suas próprias leis, que são leis apenas de seu desejo de onipotência e de volúpia contínua e que implicam a transformação dos outros em simples instrumentos de um gozo perverso.

Sade é um verdadeiro romancista kantiano. Ora, o objeto da razão é,para Kant (1724-1804), o único entendimento que rejeita todas as crenças e que é sistemático. O sistema deve ser mantido em harmonia com a natureza, da qual nos tornamos mestres somente ao obedecê-la. Seus princípios são esses da conservação de si. Para ser operante, o sistema deve permitir o cálculo, pois o cálculo é o elemento indispensável para a constituição de uma ciência. A razão emitirá apenas argumentos provados logicamente ou experimentalmente, jamais contaminados por sentimentos. A sequência dos princípios decorre logicamente daí. Se, [por um lado] podemos ver seres livres, [por outro] ninguém jamais viu seres iguais. Embora a razão seja o bem de todos, cada um a utiliza a seu modo.

Assim, os homens são desiguais por natureza e se nem sempre eles são capazes de se referir à razão e de dispensar  as paixões, é normal que os maisduros, aqueles que não são “perturbados pelas emoções e as paixões” governem, explorem e até matem aqueles que têm almas fracas.

Se forem livres, os homens podem querer aceder a uma liberdade total, não renunciar a nenhum de seus desejos e gozar constantemente por todos os meios. Eles são livres também para se vender a quem pagar mais e, desse modo, entrar no reino da “venalidade generalizada”.

Assim, sendo livres, todos os homens podem se elevar à altura dos libertinos e se permitir todos os excessos. Para Sade, ser republicano é estabelecer, é aprofundar as desigualdades entre os homens fortes, racionais e os homens fracos e sentimentais. É da natureza do homem tudo querer. O homem não é um ser submisso, o ser submisso não é um homem.

Não teríamos citado Sade se ele não tivesse sido um “profeta” dos tempos atuais, quando se desenvolve a arrogância mais pura dos homens mais ricos em relação aos mais pobres. Warren Buffet, terceira fortuna do mundo, diz: “Não há luta de classes, há uma guerra de classes. É a guerra dos ricos contra os pobres e os ricos estão vencendo”. Não se pode ser mais claro. Os “ricos” estarão (ou já estão) em condições de dominar, explorar, matar psiquicamente e às vezes fisicamente aqueles que são menos iguais a eles mesmos, a riqueza em nosso mundo vem substituir a “libertinagem” desmedida do mundo de Sade.

Embora fascinado por Sade, G. Bataille não pronuncia o mesmo discurso. Certamente, ele também considera o homem um ser excessivo, mas, para ele, o excesso tem no horizonte a perda, o dispêndio, a ruina, a orgia, a falta. O homem é um ser que deve “soltar as amarras”, se “consumir” e viver “um erotismo que é a aprovação da vida até a morte”. Durante toda a sua vida, Bataille deu provas de uma lucidez e honestidade profundas. Ele quis ser tudo, mas no défcit, no inútil, no dispêndio. Na época da Acéphale (sociedade secreta), ele quase chegou a se sacrifcar fsicamente para selar o pacto comunitário. Ele nunca teve indulgência por aqueles que se acreditavam superiores. À razão ele opôs a paixão; à riqueza, o dom; ao poder, a perda, a insufciência. Como Sade, ele mostrou que o homem quer tudo, que ele é uma “mônada psíquica” obcecada pela onipotência; porém, ao contrário de Sade, [Bataille] mostrou que esta última só pode levar à catástrofe quando é posta em prática.

Em defnitivo, se o homem sonha ser Deus, ele deve se contentar em ser um homem “dentre os homens” (Sartre), vivendo em instituições duráveis fundadas, como ele, na aceitação da “autolimitação” e repudiando a arrogância, que não pode senão criar um mundo mortífero.

B) As origens sócio-históricas

  1. O dinheiro, a posse das riquezas

As sociedades democráticas viram o retorno da hierarquia. Sade já havia previsto que a tendência geral das sociedades era recriar hierarquias que repousam no poder do dinheiro e da produção industrial. Ele havia mostrado a homologia entre a produção de sentimentos e de prazer no século XVIII e a produção de instrumentos, de máquinas e de mercadorias. Os mestres estariam, portanto, aptos a colocar suas paixões ao serviço da produção industrial e da criação de riquezas.

No século XX, Claude Lévi-Strauss tenta dar uma forma invariante a essa intuição. Não pode, segundo ele, haver sociedades funcionando como “máquinas a vapor” sem que elas instaurem um ou mais “intervalos diferenciais”. O triunfo do capitalismo no século XIX ia dar razão a todos aqueles que viam que a base da hierarquia seria a possessão de riquezas. Para alguns, o dinheiro e os lazeres, para outros, o trabalho. Basta nos referirmos ao que escreviam Engels (1820-1895), Marx (1818-1883), Saint-Simon (1760-1825), etc., para compreender que o reino do dinheiro seria o mais terrível dos reinos. Depois do século XIX, as desigualdades entre classes, assim como as desigualdades entre nações só fizeram prosperar e a arrogância se legitimar. Pois, como considerar como semelhantes os pobres, os sem-domicílio, os miseráveis que vivem nas ruas ou os “assistidos”? Consequentemente, diminuíram-se as medidas de proteção social que permitiam que os “indivíduos por falta” nao fossem “desilhados” (R. Castel).

  1. A classe atribuída pela sociedade

Em certos casos, contudo, a riqueza nao basta. Ela pode ser combinada com uma classe oicial (ou implícita) para estar em condições de provocar submissão e deferência. Desse modo, as “grandes famílias” que, graças às heranças acumularam grandes fortunas, não são admiradas apenas por sua riqueza, mas pela duração dessa riqueza que lhes forneceu o equivalente em títulos de nobreza. Da mesma forma, pessoas de alto nível que perderam parte de sua fortuna conservam um lugar privilegiado na hierarquia social.

Pode-se constatar também que algumas pessoas provenientes de “meios simples ou médios” puderam, pelo mérito de uma carreira brilhante, chegar a ocupar funções que fazem esquecer suas origens modestas. Esse caso é mais raro e mais ambíguo (exemplo: o presidente Pompidou).

Acrescentemos que, algumas vezes, pessoas que tiveram uma vida marginal, habitualmente reprimidas, originárias da “ralé” [bas-fonds], emergem de repente e vêm tomar um lugar invejável na sociedade policiada. Marx percebeu muito bem que a alta sociedade nao passava do espelho “de antigos bandidos, traidores, mafiosos e uma apetência particular em relação a ela”. Sendo assim, quando os indivíduos conseguem obter um certo nível na escala social, eles cedem frequentemente à tentação de olhar de cima e explorar seus antigos correligionários.

  1. A referência ao sexo

De modo geral, em todas as sociedades, os homens minoraram o papel das mulheres. As expressões arrogantes não faltam. Mas essa arrogância, atitude central, é pouca coisa quando comparada à posição verdadeiramente desvalorizada que é dada às mulheres em certos países.

Quando as mulheres são arrogantes em relação aos “inferiores”, homens, outras mulheres, é porque possuem riquezas, porque têm um nível elevado na sociedade ou porque sabem utilizar os recursos de seus charmes (que lhes ensinaram a cultivar) para manipular ou seduzir os outros.

  1. A diiculdade de pensar um mundo sem chefe, sem poder separado

Seremos breves quanto a essa dificuldade, pois ela foi frequentemente explorada com muita propriedade por analistas do poder. Quatro elementos entram aqui em jogo:

(1) somente os atributos primitivos constituem comunidades, sociedades sem Estado. Todas as outras sociedades são sociedades de Estado, portanto, com poder separado.

(2) O reforço de todos os Estados durante os séculos XX e XXI ocasionou uma grande quantidade de poderes e a construção de novas hierarquias. Pode-se verificar, assim, uma miríade de poderes que se sobrepõem e que por vezes se misturam.

(3) A complexidade do desenvolvimento das grandes empresas favoreceu a criação de uma série de níveis na grande empresa (recentemente, a inflação burocrática diminuiu) que mesmo quando ela se inclina a tomar decisões coletivas, sua tendência é de endossar a responsabilidade de uma só pessoa. Os grandes, os médios e os pequenos chefes pululam e todos mostram ter ciúmes de suas parcelas de poder.

(4) O fato de terem aparecido, no século XX, “grandes chefes” amados, exaltados e, em seguida, negados, rejeitados, acostumou-nos a um mundo de chefes, e não a um mundo que caminha para a autogestão.

A arrogância descerá na escala hierárquica. Pode-se constatar empiricamente que são os grandes chefes que tratam os outros (o nível diretamente subordinado) com comiseração (“meus homens”, “meus colaboradores”); da mesma forma, são os pequenos chefes que esmagam com seu desdém os poucos empregados que estão sob as suas ordens.

Assim, tanto as origens psicológicas como as origens sócio-históricas nos indicam que a arrogância pode-se manifestar em todas as sociedades e em qualquer momento da história.

Os grupos arrogantes

Mas nem todos os grupos são arrogantes e nem todos os grupos são arrogantes em relação aos mesmos grupos. É preciso que examinemos as condições que favorecem a emergência da arrogância.

A) Os grupos que incitam a irrupção da arrogância em relação a outros grupos

O critério é simples: mais um grupo se fecha, e mais ele pensa ser dirigido por um homem (ou um grupo) encarnando a verdade, mais ele tende a recalcar as questões que o colocariam em perigo e mais ele terá tendência à arrogância.

Os grupos mais arrogantes se apoiam:

  1. Na religião

Os adeptos ortodoxos das religiões do livro (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) são particularmente arrogantes, visto que acreditam possuir todas as respostas para todas as questões, uma vez que elas estão inscritas nos livros sagrados ou são fornecidas pelos sábios que souberam comentar, interpretar e completar tais obras (rabinos célebres, concílios, eremitas). Quando as religiões “instaladas” parecem não mais responder validamente aos problemas atuais, as seitas com seus profetas e gurus farão o revezamento. Elas se mostrarão mais arrogantes do que as religiões codifcadas, pois elas não comportam senão os eleitos que foram convertidos e que estão prontos a morrer por elas.

  1. Na ciência

A ciência em nosso mundo positivista é a referência absoluta. Os pesquisadores (os bons e os menos bons) são chamados a se pronunciar sobre os mais variados temas. Mesmo que eles desenvolvam teorias opostas, o grande público, incapaz de compreender os meandros da pesquisa científifca, tem fé absoluta em seus dizeres. E apesar de todas as críticas atuais da ciência, o homem comum não está pronto a renunciar às suas ilusões.

  1. Na ideologia

A ideologia é preocupante somente quanto se apresenta como ciência ou como religião, quando lhes tomam emprestado a sua “verdade incontestável”. Se é normal que um ser humano tenha uma ideologia (uma maneira de pensar e de sentir), é igualmente normal que ele evolua, que se coloque em questão. É o que o ser arrogante não pode suportar, uma vez que ele estima ter sempre razão.

  1. Na competência

Embora vaga, a noção tem serventia diariamente. Assim, peritos serão ouvidos religiosamente. Ora, não é porque se é competente que não se pode dizer « asneiras » em seu campo de competência, ainda mais que esta é sempre questionada pela invenção de novas tecnologias e de novos métodos.

  1. Na encenação [mise en scène] nos grandes grupos

Nas manifestações, nas “grandes missas laicas”, o corpo de cada um desaparece na multidão, [que é] o único corpo aceitável. Dessa transformação, o chefe não é o único a tirar proveito ao seduzir a multidão. Os homens comuns [petits hommes], transfigurando-se de repente num grande corpo coletivo, estão certos de deter a verdade que se exprime em slogans. O grande grupo pode, então, dar provas de arrogância em relação a outros grupos que não souberam ouvir “a palavra da verdade”.

De toda forma, tanto nos grandes grupos como nos pequenos grupos certos de deter a verdade manifesta-se o espírito tribal, isto é, o conformismo mais absoluto. Ora, como diz Devereux (1908-1985), fiel a Freud (1856-1939), que observara no nível das nações a existência de um “narcisismo das pequenas diferenças”: “Se não formos um habitante de Esparta ou de Atenas, um capitalista ou um proletário, estaremos muito perto de não sermos grandes coisas, e talvez de não sermos nada mesmo”.

Esses momentos de fusão, de “ilusão grupal” (D. Anzieu / 1923-1999) são, às vezes, somente momentâneos. Pode haver, nos grupos, uma tomada de consciência. Mas ela é sempre difícil, pois, como diz R. Kaës, os grupos evitam frequentemente os problemas inquietantes que poderiam ameaçar sua bela unidade instaurando um “pacto denegativo” que assim os protege de tomadas de consciência dolorosas.

Os grupos sobre os quais se exerce a arrogância

Grupos privilegiados suscitam a arrogância. Nós os mencionaremos brevemente.

    1. As mulheres

A arrogância de muitos homens em relação às mulheres pode ser sem limites. Como diz um provérbio árabe: “Bata em sua mulher todos os dias, se você não souber porquê, ela sabe”. Observemos apenas que depois que as mulheres acederam à cena da grande e da pequena história, os atos agressivos em relação a elas se multiplicaram.

    1. Os povos ditos “inferiores”

Cf. Os textos de Yves Déloye e Stella Bresciani

    1. As outras nações

A globalização (fracassada) culmina num julgamento negativo generalizado entre as nações. Os grandes organismos internacionais e as grandes agências de avaliação de riscos não deixam de contribuir com essa difamação. O que explica as tentativas de fechamento em si mesmo ou de desprezo pelos outros.

4) As pessoas precarizadas ou de poucas posses e as pessoas em dificuldade

Cada vez mais, as pessoas em estado de precariedade ou ganhando pouco (a plebe), os desempregados, os que estão à procura de emprego suscitam irritação e os poderes públicos tendem a retirar delas as proteções sociais que lhes permitiam ter um papel de cidadãos.

Ao concluir, podemos fazer somente uma constatação. A arrogância não tende a desaparecer, ela tende, ao contrário, a se estender, pois entramos na era do triunfo da desconfiança e do salve-se quem puder. 0 egoísmo cresce, o pensamento está moribundo, a intolerância tende a se instalar. Como já disse o austríaco Karl Kraus (1834-1936), antes da Primeira Guerra Mundial: “Estaríamos assistindo aos últimos dias da humanidade”?

Nota

* Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814)

Referências Bibliogrâicas
CLASTRES, P. A sociedade contra o estado [1974]. São Paulo: Cosac & Naify, 2012.

CLASTRES, P. O infortúnio do guerreiro selvagem [1980]. In:Arqueologia da violência. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

TOCQUEVILLE, A. De la démocratie en Amérique, tome II. Paris:Éditions?/ année?, p. 171-174.

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