(textos) Brasil: crise política acentua divergências entre anarquistas “individualistas” e “pró-organização”


brasil

A discussão habitual – e que nos parece falsa – entre “individualistas” e “pró-organização” que ciclicamente atravessa o movimento anarquista parece estar agora a acontecer no Brasil. Infelizmente é uma falsa discussão porque a essência do pensamento libertário é conseguir conciliar esses dois aspectos: a defesa da individualidade e da especificidade de cada ser humano e o colectivo social onde todos nos integramos. Há companheiros que privilegiam mais um aspecto do que outro. Estão no seu direito. Parece-nos, no entanto, que a defesa da individualidade não se opõe à organização de tarefas nem à criação de modelos organizativos tendo em vista determinados fins. Mas compreendemos que, muitas vezes, mais do que organizar tarefas e concretizar objectivos, as organizações apenas se destinam a arregimentar pessoas, sem objectivos concretos de acção, o que motiva a reacção dos mais individualistas. Pelo que talvez seja mais interessante promover a organização em torno de objectivos muito concretos, quase imediatos, deixando que a pluralidade de opiniões e visões diversas enriqueça o movimento – que existe enquanto conjunto (mesmo não organizado) de indivíduos e grupos com um objectivo em comum:  – a destruição do capitalismo e a construção de uma sociedade sem exploração nem opressão, uma sociedade autogestionária, construída a partir dos de baixo, sem salariato nem Estado. Este texto do colectivo brasileiro “Aliança Libertária” critica o individualismo de alguns companheiros num encontro realizado este sábado em São Paulo (Brasil). Vale a pena ler e participar neste debate.

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Nota sobre o Encontro “Anarquistas frente a crise política: fascismo não passará!” (*)

– “Como a febre amarela, esta doença de desorganização se introduziu no organismo do movimento anarquista e o tem abalado por dezenas de anos”
– “Anarquismo não é uma utopia bonita, nem uma ideia filosófica abstrata, é um movimento social das massas trabalhadoras.”
trechos da apresentação da Plataforma Organizacional, escrita pelo grupo de anarquistas Dielo Truda em 1926

Nós da Aliança Anarquista decidimos por nos somar ao chamado realizado pelos companheiros do grupo Anarquismo em Movimento por compreender que a construção da unidade é uma das tarefas mais urgentes do atual momento da luta de classes. Criar espaços de unidade é fundamental para que nós trabalhadores consigamos combater tanto o crescimento de setores de extrema-direita e, simultaneamente, combater os mais diversos ataques às condições de vida de nossa classe, perpetuados pelos grandes empresários e seus políticos de todos os partidos da ordem.

Nossa proposta foi e é clara: construir uma frente que agregue anarquistas a partir de uma base mínima de acordos – combate à extrema direita, combate a todos os governos e partidos gestores do Estado capitalista e defesa da classe trabalhadora – para realizarmos algumas ações pontuais em comum. Não temos interesse algum em forjar um novo coletivo.

Com tal intuito, compusemos o Encontro deste último sábado com alguns de nossos militantes.

Apesar do debate de conjuntura ter sido de muita qualidade – com dezenas de falas que expuseram pontos importantes da atual conjuntura política e econômica da luta de classes brasileira e mesmo internacional, e também, apresentação de propostas diversas para nos unirmos frente a conturbada situação de crise política nacional – ao chegar o momento de aprovarmos as propostas apresentadas, elementos desorganizadores, cumprindo um nítido papel de provocação e desagregação, fizeram absolutamente de tudo para impedir o encaminhamento de toda e qualquer iniciativa.

Infelizmente, estes foram bem sucedidos em sua ação desorganizadora. Um Encontro que contou com a participação de cerca de 300 pessoas, muitas das quais realmente dispostas e interessadas em se unir por uma causa comum, acabou sem tomar decisão alguma.

Muitos e muitos absurdos foram expressos neste momento. Absurdos que demonstram, inclusive, total divergência sobre o que de fato é anarquismo. Nos vemos novamente diante da absurda confusão entre anarquismo e liberalismo individualista. Compreendemos o anarquismo como uma corrente socialista revolucionária, que tem como projeto a organização da classe trabalhadora para a tomada dos meios de produção e a destruição do Estado – em outras palavras, para a superação revolucionária da sociedade capitalista. A desorganização, a exaltação ególatra da liberal liberdade burguesa e de padrões comportamentais pretensamente alternativos, não possuí relação alguma com o anarquismo. Como já colocara Murray Bookchin: há um abismo intransponível entre o anarquismo socialista revolucionário, e o irresponsável individualismo comportamentalista pequeno-burguês.

Contudo, nem mesmo se faz necessário apelar à teoria anarquista para demonstrar a total contradição entre individualismo e anarquismo: o próprio fracasso em encaminhar qualquer proposta no Encontro de sábado é um argumento inquestionável. É impossível consolidar uma frente de lutas com aqueles que são contra toda e qualquer forma de organização e que confundem anarquismo com uma infértil exaltação infantil e individual de práticas comportamentais pretensamente contestadoras, porém, na prática, deliciosamente inofensivas para nossos inimigos de classe.

Um barco onde alguns de seus tripulantes se empenham na sabotagem, nunca conseguirá ir longe – independente de com ou quanto empenho e força o resto da tripulação reme.

Dito isto, reforçamos nossa vontade de forjarmos a unidade entre anarquistas. Todavia, mostra-se certo que só será possível a consolidação desta frente caso estabeleçamos, de antemão, acordos mínimos de como esta deve funcionar. Sem respeito aos métodos organizativos próprios do anarquismo e da classe trabalhadora, é impossível avançarmos.

Por isto, convidamos a todos os que se identificam com o anarquismo, que compreendem a urgência do combate tanto à extrema-direita, quanto aos governos, partidos da ordem e suas políticas, assim como aos ataques gerais à nossa classe trabalhadora, a marcarmos um novo encontro já pautado nestes pontos mínimos e que funcione de acordo com os métodos organizativos próprios da classe. Desde já, estamos conversando com outros companheiros a fim de encontrarmos conjuntamente uma data para tal reunião.

FORJAR A FRENTE ANARQUISTA!

UNIDADE E LUTA CONTRA A EXTREMA DIREITA E OS ATAQUES A NOSSA CLASSE!

Aliança Anarquista

(*) https://www.facebook.com/events/942017175896606/

aqui: https://www.facebook.com/aliancaanarquista/photos/a.432297143618817.1073741828.430881077093757/576023142579549/?type=3&theater

panfleto distribuido pela Aliança Anarquista no encontro de sábado passado em São Paulo onde estão reflectidas as suas ideias organizativas, nomeadamente a criação de uma Frente Antifascista: https://www.facebook.com/aliancaanarquista/photos/a.432297143618817.1073741828.430881077093757/575028782678985/?type=3&theater

2 comments

  1. O problema é esse os coletivistas querem sempre bater , bater , bater dai quando reagimos começam a aparecer notas como essa a divergência é importante temos os nossos espaços e não queremos construir junto algo que se acredita ser de forma institucional camaradas ficar forçando esse tipo de relação harmônica é só acentuar as coisas, temos posturas diferentes a maioria dos individualistas nem socialista se julga por exemplo o respeito mútuo pode haver, mas vejo muito por parte dos coletivistas cagação de regras e ainda por cima ridicularização, mas quando estamos na rua e as coisas não se resolvem com palavras tudo muda creio que o correto é cada um cuidar do seu próprio trabalho e um contra ponto no seu texto não estamos desorganizados possuímos outra forma de organização o que rimos muito quando vocês falam isso por que até o psol ja comprou esse tipo de discurso dai chega num ato e tem dobro de anarquista do que partidário, daonde brotam? os olhões arregalados… Existe um processo para o individualista se formar um processo que não é respeitado estes caras do aliança me falaram um monte de merda uma vez por um texto que simplesmente fiz sobre o que achava do anarquismo como um partido que é o que eles se reivindicam desnecessário e não consegui me conter ao ver uma publicação deste tipo é querer acirrar ânimos se o coletivismo desse realmente tão certo assim vocês poderiam simplesmente esquecer que a gente existe e ver que não queremos defender democracia, tamo cagando e andando pro Lula, fora todos começando com o fim do fundo partidário e doações de empresas corporações para partidos politicos. Alguns se preocupam com a raíz enquanto outros em quebrar os galhos. Saúde y anarkia.

  2. Perdeu tempo escrevendo um texto desse tamanho contra as liberdades individuais e não deu UM argumento sequer, o único zigoto de argumento foi uma falácia de apelo a autoridade.Quem concorda com isso: vocês não são e NUNCA foram anarquistas, são apenas um bando de socialistas estatólatras.

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