Comunal de Árgea: “Não viemos para um convento. Isto é uma militância”


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Os meses imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 foram férteis em projectos desenvolvidos nas áreas mais diversas. Nas fábricas, nos bairros, nos campos. A reforma agrária no Alentejo e Ribatejo está já suficientemente conhecida e divulgada, ao contrário de outras experiências comunitárias, como foi o caso da Cooperativa Comunal de Árgea, em Torres Novas (Santarém), que juntou diversos jovens (uns que tinham estado em França e foram muito influenciados pelo espírito de Maio de 68) e outros que, ainda em Portugal, participaram na luta anti-fascista e para quem, à semelhança das actuais cooperativas integrais, queriam partilhar experiências de vida e de trabalho. Foi o que fizeram, abraçando a vida e o trabalho em comum. A experiência durou de finais de 1974 a meados de 1977. Hoje, mesmo sem o saberem, muitos projectos de utopias rurais e de regresso aos campos seguem o modelo iniciado em 1974 por estes jovens, muitos deles de espírito libertário, embora militassem uns na LUAR, outros no PRP, entre muitos outros sem qualquer filiação partidária. Esta reportagem no “Século Ilustrado”, realizada nos primeiros meses de 1975 (mas depois de Março), retrata o espírito que ali se vivia.

comunal

Como nasceu uma Comuna Rural

Um vento de liberdade soprou em Árgea no concelho de Torres Novas: seis trabalhadores, acreditando na agricultura e em si próprios, formaram uma comuna rural.

Joaquim Gaio (texto)

Francisco Ferreira (fotos)

A Comunal Árgea tem poucos meses de existência. É um fruto de um rígido e estruturado plano e de muito trabalho. Os seus fundadores – seis jovens que conheciam o campo, a exploração dos camponeses e a opressão fascista – não  esperaram que a prometida reforma agrária aparecesse para fundarem uma Cooperativa de Produção. Hoje, não são apenas os fundadores – sócios produtores – que exploram os 150 hectares de terreno. Há outros sócios de apoio e muitos candidatos.

Árgea é uma povoação igual a muitas outras do concelho de Torres Novas que há muito tempo tinha deixado de acreditar na agricultura e  nos seus oficiais reformadores. O figo e a azeitona, culturas básicas dos 800 moradores da aldeia, foram ao longo do tempo substituídas por outras culturas mais convenientes à sobrevivência e que melhor apoiassem o magro ordenado de funcionários dos Caminhos-de-Ferro – companhia onde trabalha(va) a maioria dos Argeenses. O solo foi empobrecendo e as culturas envelhecendo, como aliás sucede a tudo que tem vida, em regimes onde a liberdade não existe e a criatividade e a imaginação são amarfanhadas. Foi nessa aldeia que fica aproximadamente a 8 quilómetros da Vila de T.N. que um grupo de jovens, com a aderência da população, lançou as bases de uma Comuna Agrária. Quando há dez dias lá chegámos, três dos dezoito sócios (produtores e de apoio) da Cooperativa de Produção, descarregavam pesadas e ressequidas tábuas que a C.P. não aproveitaria. O ritmo era acelerado, as conversas poucas – as tarefas são distribuídas em reunião semanal a cada um dos elementos da Cooperativa, consoante as suas capacidades e prioridades e é importante e indispensável realizá-las – e a nossa presença tornou-se um pouco incómoda. Nem sempre os meios que se dispõem para atingir os fins são concordantes entre quantos trabalham em sectores diferentes. Aguardámos um pouco e a explicação veio, mas só depois das tábuas estarem devidamente empelhadas (sic) no velho armazém que os homens da Comunal vão transformando numa oficina.

– Não temos receio de falar da nossa experiência. O que tem sucedido é que certas pessoas aparecem aqui e recolhem depoimentos a esmo esquecendo-se que aqui há pessoas com diferentes formações culturais e que nem todos são sócios da Cooperativa. Trazem para aqui ideias formadas sobre o cooperativismo e querem-nas encontrar entre nós. Depois de lermos o que têm escrito, dá-nos a sensação que isto é uma ideia de meia dúzia de gajos que estavam na Avenida da liberdade muito chatiados (sic) e resolveram vir para aqui. Resolvemos por essa razão falar somente em grupo.

Pingas de suor caíam do rosto do jovem sócio-produtor, que nos explicou o seu mutismo e desconfiança sobre quem escreve o que outros vão fazendo. A chuva que caía impediu-nos de palmilhar alguns hectares de solo já cultivado e terra revolvida pelo esforço de uma vintena de homens que não aderiram à revolução pela via da contemplação dos aplausos e das manifestações.

– Estamos pois de pé atrás. Falaremos de tudo o que quiser, mas terá de esperar pelo regresso dos restantes sócios que andam espalhados e demasiado ocupados com o muito que há para fazer.

Demos uma volta pelas imediações. Entrámos na queijaria em pleno funcionamento, na vacaria, no alambique onde a aguardente de figo pingava apetitosamente e assistimos à tosquia de um bem tratado rebanho.

– O meu patrão só me dava trabalho três dias por semana. Eu não me alimentava só com isso e por isso vim aqui oferecer-me.

O Chico é um dos vários trabalhadores de Árgea que, embora não sendo sócio da Cooperativa, achou que daí podia resultar uma obra importante para as gentes da povoação. Recebe diariamente 150 escudos e ao fim do ano terá de decidir se entra como sócio ou deixa definitivamente a Comunal de Árgea, que não pode alimentar no seu seio excepções para poder singrar numa terra e num país economicamente depauperado e socialmente desigual. A igualdade será o motor que transformará as relações de exploração que sempre existiram entre trabalhadores e patrões. Na Comunal de Árgea novas relações são criadas e revolucionários exemplos diariamente se estão dando. Não foi por acaso que o grupo coeso pela luta antifascista iniciou nas proximidades de Torres Novas esta experiência que tem como palco 150 hectares de terra em germinação. Joaquim Alberto, um dos fundadores da Cooperativa e, que sempre esteve ligado aos problemas e soluções no campo da agricultura é natural dos Riachos e conhecedor dos condicionalismos e virtualidades que caracterizam o Concelho e a sua população. Foi ele que “furando” a regra anunciada, mas ainda não reatificada (sic) em assembleia, nos falou sobre a Comunal.

– Iniciámos com dois hectares de terreno, que nos foram postos à disposição por uma pessoa amiga para formarmos a Cooperativa. Seguidamente falámos com outro proprietário, dono da zona central da Cooperativa e que possuía aproximadamente 50 hectares de terreno. A partir dessa altura pusemos claramente o problema aos restantes donos de terrenos se queriam ou não entrar com terrenos. Actualmente temos uma área de 150 hectares.

A 14 de Novembro os seis sócios-produtores entraram na Árgea para definitivamente lançarem as bases da Comunal. Um barracão abandonado serviu-lhes de dormitório e a terra mal cultivada garantiu-lhes a concretização dos longos e discutidos planos que anteriormente e, depois em contacto com a população, conceberam e clarificaram. Um mês depois puderam realizar a primeira Assembleia Geral. Os donos das propriedades com a colaboração do grupo fizeram em Janeiro, a apanha da azeitona que lhe pertencia. As terras, algum gado e alfaias agrícolas foram definitivamente entregues à Comuna.

– Até ao dia de hoje ainda não fomos pedir terra para cultivarmos. É claro que não recusamos, mas somos obrigados a retardar algumas entregas para não possuirmos terras incultas na Cooperativa.

Não foi a fuga da cidade que levou estas duas dezenas de jovens até às zonas de Torres Novas; nem tão-pouco foi uma predilecção especial pelas terras de Árgea, ainda que esse espaço rural possua condições excepcionais para ser transformado pela dinâmica revolucionária que mantém e fecunda a vida comunal que encaminhou os sócios da Cooperativa para aí.

– Bem. Nós não optámos por esta, pois isso implicaria poder escolher. Ora até à data ninguém nos ofereceu um palmo de terreno noutro lado para podermos fazer o que aqui já construímos e pensamos desenvolver. Para nós havia duas hipóteses: trabalhar numa zona e criar uma aldeia  – que daqui a uns anos seria como as outras ou pior – ou vir para uma aldeia e construir a tal Comuna. A oferta de terrenos que tivemos e os contactos anteriores e posteriores com a população sugeriram-nos esta. A Comuna está feita.

As culturas tradicionais da zona com algumas inovações, como seja o tomate, o milho, e a pecuária (criação de ovelhas e de vacas leiteiras) são os produtos base da Cooperativa de Produção com alguns meses de existência. A reconversão indispensável a ser feita no ordenamento do terreno e respectivas culturas de acordo com as características do terreno e com os objectivos da Cooperativa, são projectos que os sócios têm presente, mas que os condicionalismos económicos e de pessoal ainda não permitiram essa futura arrancada. Por enquanto interessa garantir a sobrevivência de um plano revolucionário não apenas no tocante à reforma agrária, mas sobretudo nas relações que a vida comunal estabelece entre todos os sócios e a população em que está inserida. As comunas agrárias, que estão a desabrochar entre nós serão escolas de transformações económicas, sociais e culturais na medida em que os seus sócios conseguirem pela vida que levam e pelos frutos que colhem, evidenciar a força revolucionária da vida colectiva.

– Para se ser sócio da Cooperativa é preciso que a Assembleia Geral o aceite. Enquanto não tiver o aval da A.G. pode estar cá, mas é apenas candidato. O máximo que alguém poderá cá estar sem ser sócio é um ano. Não pomos reserva à entrada de pessoas desde que elas apresentem condições que se enquadrem dentro dos âmbitos da Cooperativa. Não são as actividades existentes que limitam as entradas mas as possibilidades económicas existentes. Os que aparecem trabalham naquilo que sabem ou no que é mais urgente para ser feito.

A Cooperativa de Produção, denominada Comunal Árgea, pela força dos estatutos livremente aceites e revolucionariamente vividos, é constituída por sócios produtores (os fundadores), sócios de apoio e por candidatos. A diferença entre sócios produtores e de apoio, em número de dezoito, actualmente, consiste em que aqueles (produtores) trabalham nas actividades agrícolas da Cooperativa e sujeitam-se às relações económicas existentes naquela; os sócios de apoio não fazem das actividades da Cooperativa a sua actividade principal.

– Tanto para os que trabalham cá como para os que exercem actividades lá fora as relações económicas são idênticas. Os que exercem actividades profissionais no exterior, é porque a Cooperativa acha que o devem fazer. Se um dia a Cooperativa achar que um dos sócios deve concorrer a Presidente da Câmara e ganhar as eleições, pois fará isso e não irá ter tempo para andar por aqui a apanhar tomate ou a fazer qualquer outro serviço. Não podemos perder de vista que estamos numa Cooperativa de Produção Agrícola.

Aceite pela Assembleia Geral o candidato pagará a quota anual de 100 escudos e cumprirá os estatutos da Cooperativa, que na sua essência e força comunitária estabelecem: Tem poder na Cooperativa quem nela trabalha – Aceitar as relações económicas que derivam de uma igualdade de remuneração – igualdade conforme tempo de trabalho e não consoante a qualidade de trabalho a desempenhar.

Daqui surgem todas as implicações de uma vida em comum. Não são apenas os exploradores que não têm lugar nas Comunas. As novas formas de vida e valores criados pela vida comunal não permitem uma sociedade de explorados e de exploradores. As comunas não são pequenas ilhas na sociedade capitalista, semelhante aos espaços verdes que a sociedade de consumo cria para poder continuar a explorar o homem depois de “estar bem oxigenado” e iludido quanto à sue recuperação semanal. A comunal de Árgea está bem inserida na população e os seus sócios não perdem de vista o País onde estão e o papel que lhes cabe na transformação político-económica-social e cultural da sociedade portuguesa.

– Uma cooperativa em si não faz a revolução. A formação de cooperativas como as entendemos e experimentamos aqui revolucionarão a agricultura e transformarão os agricultores. É evidente que não viemos para um convento. Isto é uma militância.

A linguagem simples e directa de Joaquim Alberto só é verdadeiramente compreendida no concreto da sua vida e no grupo, onde o egoísmo e individualismo criado e fomentado pelo regime fascista e por todo o sistema capitalista, não tem lugar, a não ser que se deseje que as experiências comunais morram à nascença.

– Nesta altura o essencial é o trabalho agrícola, pois é ele que nos garante a sobrevivência e actividades culturais que queremos desenvolver entre as populações e posteriormente a todo o concelho. Pensamos num Serviço de Saúde para toda a região e a criação de lojas – futuras cooperativas – colocadas em zonas convenientes.

Quando no país inteiro se apela para o trabalho e para as tarefas revolucionárias, fica-se espantado quando se sabe que este grupo de trabalhadores ainda não recebeu qualquer apoio económico oficial. Será que desta vez o IRA concede os 800 contos prometidos? Ou mais uma vez terão os sócios-produtores de recorrer às “facilidades concedidas” pelas empresas particulares e bancos nacionalizados?

Publicado no “Século Ilustrado”, 1975,  s/data

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/02/07/a-outra-reforma-agraria-unir-terras-unir-pessoas/

http://acincotons.blogspot.pt/2013/04/comunal-uma-cooperativa-do-pos-25-de.html

http://citizengrave.blogspot.pt/2012/12/a-comunal-de-argea-em-1975.html

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