Encontro Libertário de Évora – Conclusões e Propostas


 

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O Encontro Libertário de Évora realizou-se nos dias 28 e 29 de Maio de 2016, por iniciativa da revista A Ideia, Projecto Mosca e Portal Anarquista, contando com a presença de cerca de 60 pessoas ligadas, por militância ou simpatia, às ideias antiautoritárias. Do estado português estiveram presentes companheiros pertencentes (mas não necessariamente em representação) aos colectivos ex-Casa Viva e AIT-SP (Porto); AIT-SP, Colectivo Estudantil Libertário, BOESG e A Besta (Lisboa); Revista A Ideia, Projecto Mosca e Portal Anarquista (Évora); AIT-SP (Guimarães) e Jornal Mapa. Do estado espanhol vieram representantes de Apoyo Mútuo, Aurora Intermitente, Escuela Prosperidad e Ateneo de Salamanca. Ainda estiveram presentes muitos companheiros individuais de diversas localidades e estados: Évora, Reguengos de Monsaraz, Montemor-o-Novo, Lisboa, Espanha, Amesterdão, Marrocos, Itália.

Depois de uma apresentação dos colectivos e individualidades presentes, iniciaram-se os debates previstos no programa.

1º – A situação económica e social do país e da Europa

(apresentação e moderação de Vítor Lima / Indignados Lisboa)

Apresentação detalhada sobre a evolução e os resultados do capitalismo actual, sobretudo em Portugal, nos países do Sul da Europa e nos da bacia mediterrânica. Entre muitas afirmações conclusivas, realce para as seguintes constatações:

– Completa fusão entre sistema financeiro e sistema político

Os estados não se preocupam com as falências sucessivas de empresas que atiram milhares de trabalhadores para o desemprego, mas vão a correr injectar dinheiros públicos quando algum banco treme. O sistema político abriu caminho à completa desregulação da economia, permitindo assim a globalização extrema do capitalismo.

Desigualdades regionais

As estatísticas mostram as profundas desigualdades regionais, a nível social, demográfico ou de rendimento, que actualmente existem entre os diversos estados e dentro dos próprios estados. Isto é uma das razões das actuais vagas de migração dos países do Sul para os do Norte, neste caso concreto dos países da bacia do Mediterrâneo para a Europa.

– Falta “democracia”

As actuais instituições políticas e financeiras que controlam e influenciam a vida de milhões de pessoas carecem de democracia. São instituições opacas, fechadas à cidadania, ao serviço da agenda neo-liberal que caracteriza a actual fase do capitalismo.

2º – A dupla destruição da memória anarquista em Portugal

(apresentação e moderação de Paulo Guimarães / Projecto Mosca)

Alguém escreveu “se os anarquistas não escreverem a sua própria História, outros o farão por nós”. E como se tem verificado ao longo da História, escrevem mal, propositadamente ou não. Paulo Guimarães salientou a importância de se conservar a memória do anarquismo e, sobretudo, a importância de se resgatar esta memória do esquecimento colectivo a que foi votada pelo fascismo e pela actuação do Partido Comunista antes e após o 25 de Abril de 1974. Para PG, isto tem de ser feito de forma colectiva ou individual, a nível nacional ou local. Resgatar do esquecimento, corrigir erros, repor a verdade. É uma obrigação dos anarquistas existentes.

Paulo Guimarães destacou também a importância do Projecto Mosca como veículo de catalogação e divulgação digital de documentos, nem sempre postos à disposição pelas instituições do estado, neste caso concreto a Biblioteca Nacional. A falta de financiamento poderá pôr em causa este projecto, pelo que apelou à colaboração e participação de todos os interessados.

3º – Utopias rurais, decrescimento e municipalismo libertário

(apresentação e moderação de Júlio Henriques / Flauta de Luz)

Júlio Henriques salientou a importância do movimento de retorno à terra que se verifica nas sociedades ocidentais e também em Portugal, mesmo que raramente os seus protagonistas tenham uma ligação, ténue que seja, ao anarquismo.

Este movimento tem sido pontuado, ao longo do tempo, pela edição de três livros que são fundamentais.

Trata-se assim de recuperar uma certa ruralidade, enraizada em hábitos ancestrais que o capitalismo destruiu ou procura destruir, entre os quais Júlio Henriques realça uma nova espiritualidade no trabalho do campo e novas formas do tratamento da terra sem adubos ou outros produtos químicos.

4º – Cultura, arte e criação numa perspectiva libertária

(apresentação e moderação de António Cândido Franco / A Ideia)

António Cândido Franco começou por fazer a história da revista A Ideia e salientar a sua importância, bem como a do seu fundador, João Freire, no contexto do anarquismo português no período imediatamente após o 25 Abril. Foi esta revista que deu a conhecer nomes importantes do anarquismo contemporâneo, bem como colocou à discussão temas até então afastados das análises anarquistas clássicas. Seguidamente realçou a importância da criação artística numa perspectiva anarquista como factor de libertação e de criação do homem novo.

Um novo colectivo, vocacionado para a intervenção artística na óptica libertária,  “A Besta”, fez a sua apresentação, tendo salientado a importância do improviso e da experimentação nas suas actividades.

5º – A educação libertária

 (apresentação e moderação de José Moncho / Escuela Prosperidad)

Apresentação de um vídeo sobre a filosofia e forma de funcionamento da Escuela Libre Paideia de Mérida, um exemplo já com 25 anos de uma escola anarquista.

O companheiro José Moncho da Escuela Prosperidad de Madrid apresentou esta escola: onde e como funciona, principais destinatários, modo de ensino.

Nunca é demais realçar a importância que o tema da educação libertária tem tido na história do anarquismo. É um dos temas sempre presente e considerado fundamental para a instauração de uma nova sociedade.

Nesse sentido interveio também o Colectivo Libertário Estudantil de Lisboa, defendendo uma nova escola direccionada para a liberdade e não para a obediência e para a reprodução da sociedade actual.

6º – O anarquismo no estado espanhol no último ciclo de lutas

(apresentação e moderação de Javi / Apoyo Mútuo)

Javi apresentou a história (ainda curta) desta organização e o porquê do seu aparecimento. Realçou alguns aspectos que a tornam diferente das outras já existentes, nomeadamente a preocupação com as formas de comunicação para o exterior e com a imagem que transmite através de cartazes, flyers, etc.

Carlos Taibo também fez uma apresentação, com um enfoque mais global, salientando a importância dos “5 dês”: decrescer, desurbanizar, descomplexizar as relações, destecnologizar e despatriarcalizar.

A apresentação do companheiro Javi sobre o Apoyo Mútuo gerou um debate animado, sobretudo entre os companheiros do estado espanhol, sobre a questão da metodologia adoptada por este colectivo e sobre a dicotomia revolução vs. reforma.

7º – Anarco-sindicalismo e instrumentos de luta

(apresentação e moderação de José Paiva / AIT – SP Porto)

José Paiva fez um historial da secção do Porto da AIT e respectivas actividades, realçando o trabalho desenvolvido actualmente mais virado para a solidariedade com as pessoas e resolução dos seus problemas concretos, do que propriamente para o trabalho sindical. Mencionou igualmente as razões da actual discussão em torno do funcionamento interno da AIT, basicamente relacionadas com a questão da representatividade das diversas secções.

8º – A necessidade de informação libertária e de criação de espaços comunicacionais alternativos

(apresentação e moderação de Guilherme Luz / Jornal Mapa)

Guilherme Luz realçou a importância da informação, fez um pequeno historial das diversas publicações que atravessaram o universo libertário depois do 25 de Abril, salientando o seu progressivo decrescimento em número, e explicou também a origem, objectivos e modo de funcionamento do Mapa.

Chamou ainda a atenção para a importância do anarquismo aproveitar as potencialidades e a popularidade das formas de comunicação proporcionadas pelas novas tecnologias. Para Guilherme Luz é importante a existência de novos espaços de comunicação que funcionem como alternativa ao papel.

Guilherme Luz ressaltou ainda a importância de saber para quem, em cada momento estamos a falar, e neste painel foram prestadas informações sobre a Rede de Informação Alternativa (que junta meios de informação anti-autoritários) que já realizou dois encontros (Alentejo e Coimbra) e sobre o projecto de uma rádio alternativa na Internet que conhece agora as suas primeiras experiências.

*

PROPOSTAS

O Encontro terminou com um amplo debate sobre a forma como as várias temáticas foram apresentadas e onde surgiram propostas para o futuro:

1ª – Realização de debates sectoriais, por permitirem um maior aprofundamento dos contributos e da discussão, em vários locais do estado português. Os dois já propostos seriam na BOESG sobre espaços alternativos e em Setúbal sobre os media.

2ª – Comemoração dos 80 anos do início da revolução espanhola (Julho de 2016), englobando debates, exposição colectiva de cartazes e outras iniciativas.

3ª – Uma revista teórica sobre anarquismo que funcionaria sob a forma de dossiers temáticos, uns propostos, outros resultantes dos debates sectoriais acima mencionados.

4ª – Em continuação do debate sobre a necessidade de reafirmarmos a nossa memória histórica, a possibilidade de realização de campanhas e outras iniciativas conjuntas, como assinalar os 90 anos do encerramento do jornal A Batalha e destruição das suas instalações pelo fascismo (Maio de 1927), os 80 anos do atentado a Salazar (Julho de 1937) e os 100 anos do início da publicação do jornal “A Questão Social”, de Gonçalves Correia, ou outro tipo de campanhas sobre temas mais actuais (anti-eleições, de denúncia das prisões, pelas 30 horas de trabalho, etc.)

versão em castelhano: https://www.nodo50.org/tierraylibertad/335articulo8.html

relacionado:

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/05/30/encontro-libertario-de-evora-termina-com-proposta-para-a-realizacao-de-encontros-tematicos/

https://encontrolibertarioevora2016.wordpress.com/

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4 comments

  1. Parabéns pela iniciativa. Imensa, imensa, imensa pena por não poder ter ido, e esperança, esperança, esperança de um novo encontro a que não faltarei.

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