“Sejamos optimistas, deixemos o pessimismo para melhores tempos!” (texto de Júlio Carrapato sobre Gabriel Morato)


acção directa

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O funeral de Júlio Carrapato realiza-se esta sexta-feira, pelas 14h, para o cemitério de Faro. Em jeito de última homenagem, de entre as largas dezenas de textos que podíamos ter escolhido, seleccionámos este artigo, publicado em Outubro de 2005 na revista “Algarve Mais” evocativo da morte, poucas semanas antes, de um outro anarquista de referência no meio libertário português, de que foi amigo próximo e companheiro, em França e em Portugal, nomeadamente no grupo fundador da revista anarquista “Acção Directa”. Neste artigo, Júlio Carrapato revela de forma bem clara a amizade entre os dois libertários, uma amizade baseada na solidariedade e no respeito mútuo entre companheiros, e também fornece alguns elementos para uma melhor compreensão dos relacionamentos políticos e pessoais na época a que o texto se refere – anos 70, antes e depois do 25 de Abril.

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“Sejamos optimistas, deixemos o pessimismo para melhores tempos!”

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À MEMÓRIA DE JOÃO GABRIEL DE OLIVEIRA MORATO PEREIRA (1940-2005)
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Morreu o João Gabriel Morato Pereira, o nosso Gabriel, como lhe chamávamos nos vários círculos do movimento libertário português, movimento cuja sobrevivência ele garantiu com mais um punhado de resistentes como Rui Vaz de Carvalho ou Antonio Mota, e que tanto lhe ficou a dever em vários momentos decisivos do pós-25 de Abril de 1974. Ele próprio, porém, a despeito de uma perseverança, de uma pertinácia e de uma firmeza à prova de bala, não resistiu a mais uma cirurgia ao coração (válvula mitral) e uma embolia cerebral, desgraçadamente sobrevinda durante o famigerado período pós-operatório, deitou-o por terra, fulminou-o, no dia 19 de Julho de 2005, à beira dos 65 anos, já que nascera em 28/07/1940. Por mais um capricho da vida, no próprio dia em que eu festejava os meus provectos 58 anos, morria-me um dos meus maiores e mais constantes amigos, deixava de bater aquele coração grande e generoso e de pulsar aquela inteligência clara. Lúcido até o fim, sempre animado por aquela lucidez apaixonada e revolucionária que nada tem a ver com a frieza ou a rigidez cadavérica, precisamente porque é a antítese da morte, era a prova viva de que a razão e emoção não se opõem, e menos ainda se excluem,conforme no-lo ensinam os modernos neurologistas, estudiosos da actividade cerebral e dos processos físicos e psíquicos, porque também se pensa com o corpo. Era, em suma, um homem sensível, porque inteligente, e inteligente porque sensível, e a sua morte revoltante deixou-nos a todos imensamente mais pobres, constituindo mais uma prova da inexistência de Deus, como diria Sébastien Faure. E de nada serve que os materialistas toscos e os “socialistas” arregimentadores, homogeneizadores e massificadores, aparentemente por outro lado, nos venham cá dizer com gélidas inflexões que “ninguém é insubstituível”. Nós anarquistas, que lutamos por uma sociedade de indivíduos (homens e mulheres) livres e iguais, mas únicos e variados, sabemos , pelo contrário, que jamais alguém é substituído,quanto mais o Gabriel! Pode-se, é claro, se for o caso, “ganhar” com a“troca”, mas o conceito de substituição é em si mesmo absurdo e obsceno…

Nos grandes eventos históricos, não se pode olhar para o peso cego das coisas impulsionadas por uma pretensa “inelutabilidade”, no quadro de uma concepção fatalista ou determinista. O factor humano e o “infinitamente pequeno” desempenham um papel crucial. Em plena borrasca da Guerra Civil Espanhola, a morte prematura de Francisco Ascaso e Buenaventura Durruti não terá sido desastrosa para a Revolução Social em curso? Será que,naquele momento específico, ambos não eram insubstituíveis? Isto nada tema ver com a concepção da História, porque mais que ninguém os anarquistas repudiam chefes e homens providenciais. Prende-se apenas ao facto de, por mais comunistas (libertários) que sejam, terem um imenso respeito pelos indivíduos concretos…
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Contava-se o Gabriel, entre aqueles que, por causa das provocações e perseguições policiais, não puderam tirar os cursos ditos superiores. Tinha, no entanto, algumas habilitações literárias, entre as quais avultam o curso da Escola Comercial e Industrial Veiga Beirão, ou Ferreira Borges, não sei ao certo, curso equivalente ao 3º ciclo do ensino secundário, alínea de económicas, e concluído em 23/08/1957. Após interrupção dos estudos por razões laborais e subversoras da “ordem pública”, já se encontrava não obstante, com o 2º ano concluído do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, quando se viu obrigado a partir bruscamente para Paris, em fins de 1970. Os motivos eram alheios à sua vontade e prendiam-se ao facto de ter um mandado de captura pela formação de grupos estudantis dissidentes. Já em França, com as dificuldades inerentes a um exílio não dourado, ainda concluiria o curso de francês da Escola Internacional de Língua da Civilização Francesa (“Alliance Française”, 5º grau); contudo, adaptar-se-ia com dificuldade à vida parisiense, sendo dos primeiros refugiados a regressar a Portugal, ainda em período de incertezas, mal eclodiu o 25 de Abril de 1974. Enquanto muitos outros exilados pensavam que o saloio português era um processo interminável, entorpecido no tempo, já ele, com a sua perspicácia habitual e o seu instinto revolucionário, sabia que o “ marcelismo” estava com os dias contados, no quadro do desenvolvimento capitalista e da modernização da opressão.
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Mas o Gabriel era sobretudo um brilhante autodidacta, um revolucionário semovente e auto-activo, um operário do conhecimento em permanente auto-construção, um ser com uma curiosidade intelectual “que não se adquire nas academias”, insaciável e capaz de rasgar para os outros e para si próprio novos horizontes. Em suma, o oposto de um resignado ou de um dogmático, cristalizado à volta do quisto ou da pústula das usuais certezas e ignorância. Um insatisfeito e um revoltado permanente, avesso a acomodações, carreiras e hierarquias. Por tal motivo, à medida que ia exercendo pequenos empregos de sobrevivência, havia uma espécie que o fazia rir depreciativamente ou lhe incutia um asco invencível: a dos universitários “de esquerda” que, após gozarem do estatuto de “refugiados políticos”, “pastavam” tranquilamente, por hipótese, na Universidade livre de Vicennes, preparando teses de mestrado e até de doutoramento, muitas vezes a quatro mãos, que fariam gargalhar qualquer primata, a fim de “sacarem o taco à burguesia”… Mas que expropriação por interesse privado tão oportuna, sem ser evidentemente oportunista!
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Alheio desde sempre a toda a imundície, o Gabriel, apenas com 14 anos, imerso num caldo cultural diferente, já era capaz de ler “A Conquista do Pão” de Kropotikine, tal como o “Avante!”, aos velhos operários analfabetos de Camarate. Ao mesmo tempo, como era “deficiente físico” (coxeava de uma perna e num dos braços não tinha total mobilidade) e ouvia amiúde as almas piedosas dizerem-lhe ferozmente: “Se Deus ter marcou, algum mal tem encontrou”, depressa enveredou pelo anticlericalismo e pelo ateísmo, caminho “insondável” como os desígnios do Senhor, e foi dispensado de participar nas palhaçadas da Mocidade Portuguesa.
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Fruto de um país onde vigorava a censura e tudo se movia na clandestinidade, em clima conspirativo, teve como primeira “opção”, à falta de melhor e no desconhecimento do mundo, o PCP. Por conseguinte, quando foi para a Faculdade, creio que em 1963, já era membro do referido partido; muito embora, quando fosse preso, em 21 de Janeiro de 1965, quando era Secretário-geral da RIA (Reunião Inter-Associações), já estivesse desencantado com a geringonça burocrática e a sua inutilidade prática, e prestes a tudo trocar por outras formas mais activas de luta, o que realmente veio formalmente a acontecer, mal foi “posto em liberdade?, ou seja , quando saiu da “jaula” para a prisão maior do mundo exterior. Entrementes, conhecera as cadeias de Aljube, de Caxias (reduto sul e reduto norte), durante cerca de ano e meio, dado que fora condenado a 18 meses de prisão, saindo apenas três meses antes do cumprimento total da pena, devido a uma amnistia geral para os implicados no caso. E, pelo caminho, durante a fase dos interrogatórios (ou inquisitória), tomara longamente o gosto da tortura: a “posição de estátua” durante horas a fio, alternando com a tortura do sono durante onze dias. À medida que o interrogavam, os agentes da PIDE troçavam dele por ser coxo e se meter em altas cavalarias. E quando, no último dia de tortura, desfaleceu e caiu na quase total inconsciência, foi rodeado pelos esbirros que se “divertiam” a atirá-lo de uns para os outros.
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A notícia da detenção de Gabriel e de mais algumas dezenas de estudantes foi dada então pela imprensa internacional e muito especialmente pelo “Le Monde”, que mantinha viva a memória da crise académica portuguesa de 1962. Aqui ocorreu um fato curioso e só o narro à guisa de apontamento marginal: não conhecendo eu pessoalmente o Gabriel, nem nenhum dos detidos dessa redada, que aliás seriam maioritariamente soltos muito antes do meu futuro amigo, o que é certo é que, caloiro de Direito, aos 18 anos, participei na monumental pateada e assobiadela ao “magnífico reitor” Paulo Cunha, tendo em vista a chamada de atenção para o caso dos presos. A participação que tive na vaia, que teve lugar no edifício da reitoria da Universidade Clássica, em plena sessão solene comemorativa de qualquer treta que não me ocorre – conto-o à laia de anedota -, e certa falta de jeito valeram-me uma passagem pela Rua António Maria Cardoso, sede da PIDE, que agora os especuladores querem transformar em condomínio privado, com a benção do Estado, e a expulsão da Universidade de Lisboa de onde transitei para a Universidade de Coimbra. Sem ser místico, ter faculdades divinatórias, nem acreditar em premonições, dir-se-ia sem embargo que tudo se conjugava para que o Gabriel mais eu nos conhecêssemos em Paris, no início dos anos 70, e ficássemos a partir daí companheiros, cúmplices e amigos para o resto da vida…
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Conheci, pois, o Gabriel, em França, para aonde eu partira clandestinamente, no início de 1968. Penso que o encontro fortuito teve lugar no café Luxemburgo, frequentado pela emigração rebelde, por bastantes exilados portugueses e por desertores refractários do exército colonial. Ao pensar hoje no cenário, “mobilado” por tanta rapaziada que recusara a guerra e dera o “salto”, só posso pensar que o colonialismo lusitano, à moda antiga, tinha os dias contados, pelo efeito desmoralizador que tanta deserção tinha na tropa fandanga. Depois, seria só questão da estocada final do monstro fascista. Não me venham é cá com estrofes sobre os “capitães de Abril”, ou com as súbitas tomadas de consciência no meio do capim, como nos romances de Lobo Antunes. E menos ainda me digam, como Jerónimo de Sousa, actual Secretário-Geral do PCP, à jornalista Felícia Cabrita, que naquele tempo quem desertava eram os filhos da burguesia, já que os filhos do proletariado não podiam! Atoarda quejanda, que nos leva a crer que, na hora da verdade, a “burguesia” é mais radical que o “proletariado”, só podia de resto vir de um “operário” viciado na vida parlamentar, no pós-25 de Abril, e que, chegada a hora, envergara o uniforme da Polícia militar e andara por terras da Guiné-Bissau, chegando a receber louvores dos seus superiores hierárquicos.
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Seja como for, devo ter conhecido o Gabriel, que na qualidade de “deficiente físico” não tinha problemas militares, em 1971, porque a seu lado se encontrava outro bom amigo, o Antonio Mota, ex-estudante do Instituto Superior Técnico (Engenharia Mecânica) e ex-animador das lutas académicas, que só partira para Paris nesse ano, já depois do Gabriel lá estar. Nesse tempo, após uma breve passagem pelo maoísmo, itinerário normalmente seguido pelos dissidentes do PCP (caso de Gabriel), ambos ainda andavam nas margens do “marxismo libertário” ou da “ultra-esquerda”, vagamente agarrados a um conselhismo à Pannekoek ou ao aparente espontaneísmo luxemburguista. Quer dizer, já tinham ultrapassado o leninismo, o trotskismo e mais ainda o stalinismo, correntes cruzadas e complementares do mito bolchevique, que tantos estragos fizera no campo revolucionário internacional, mas ainda não tinham ajustado definitivamente as contas com o mito marxista. Fá-lo-iam pouco depois, atirando todo esse lastro inibidor por cima da amurada, separando claramente as águas, fazendo-se ao largo e aderindo sem reservas ao anarquismo, à sua tradição e à sua ética.
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Foi sensivelmente nesse tempo que se teve lugar o funeral de Pierre Overney, jovem operário abatido, se bem me lembro, à porta de uma das fábricas da “régie” Renault. Como o rapaz era membro de qualquer pequena organização da extrema-esquerda autoritária e o acompanhamento do féretro se fazia à revelia do PCF e da sua correia-de-transmissão sindical (CGT), ninguém dava nada pela manifestação, pensando toda a gente que ela não reuniria mais de uns três ou quatro gatos-pingados. Ora bem, todos se enganaram. Pela multidão que reunia – cerca de 200.000 a 300.000 pessoas – e pela ausência de controle por parte das burocracias sindicais e partidárias gorilóides e de má catadura, o funeral fazia pensar nas grandes manifestações de maio de 1968. Infelizmente, tínhamos que gramar o sorumbático e militarista batalhão maoista, flanqueado por uma ou duas companhias de trotskistas mais pedantes e aparentemente mais “convivais”, contudo, nenhum grupelho de extrema-esquerda tentando substituir-se ao PCF ou a CGT, conseguia enquadrar ou arregimentar nem um décimo dos manifestantes. Além disso, os anarquistas, que não tinham por hábito censurar ou policiar ninguém, podiam finalmente desfilar livremente e soltar aos quatro ventos as suas frases criativas e demolidoras, sem terem de andar à porrada com a tropa de choque stalinista, armada em capataz ou em pastor da “classe operária”. Só quem não os conhece de perto é que não sabe que ainda conseguem ser mais eficazes do que qualquer corpo de “polícia de intervenção”, tal como aconteceu nalguns episódios de Maio de 1968!
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Para evitarmos confusão e outras extrapolações, é evidente que o Gabriel, o Eduardo Pereira (operário que participara no assalto ao quartel de Beja em 1961, e após longos anos de prisão rompera com o PCP) e eu próprio nos manifestámos ao lado dos anarquistas parisienses, que empunhavam as habituais bandeiras negras e rubrinegras. Desfilámos, não a passo cadenciado, mas efectuando pequenas corridas e pequenos reagrupamentos que o Gabriel, que ainda não usava bengala, acompanhava estoicamente e sem esforço aparente. Referindo-se aos acratas presentes, comentava o Eduardo Pereira, com voz grave e limpando o suor do rosto: “São estes rapazes e raparigas, com a sua alegria, os únicos dessa manifestação que aqui vão sem quaisquer ilusões!” À sua maneira, formulava avant la lettre a ulterior máxima dos anarquistas italianos: “Sejamos optimistas, deixemos o pessimismo para melhores tempos!”
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Já depois do 25 de Abril de 1974, encontrávamo-nos todos em Lisboa. Após um jantar, ou um almoço, opíparo no 1º andar do Tatu, ao Campo Grande, enquanto matávamos saudades de umas cabeçorras de garoupa, de pescada, de uns bacalhauzinhos “à maneira”, rematando o Gabriel ainda a coisa com uns bifinhos de cebolada, acertámos agulhas e elaborámos projectos: urgia que nos aproximássemos dos velhotes de “A Batalha”, ou de “A Voz Anarquista”, de Almada, que organizássemos comícios e manifestações e que , em Julho de 1975, saísse o “Boletim da Associação de Grupos Autónomos Anarquistas”, precursor da revista “Acção Directa”, a qual soltaria o primeiro e possante “vagido” por volta de Outubro do mesmo ano.
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E aqui são bem cabidas duas apreciações de teor global. Em primeiro lugar, quando nos aproximámos da velha guarda libertária, apesar de um certo choque de gerações e de haver certos companheiros com quem nos entendíamos melhor, como o Emídio Santana, o José de Brito, o Francisco Quintal ou o Adriano Botelho, do que com outros, cujos nomes não vale a pena citar – o que é facto é que nos aproximámos à boa e franca maneira anarquista, sem reservas mentais, sem “entrismos” dignos de submarinos ou de burocratas, sem intuitos manipulatórios e sem preocupações de controle ou domínio. Fizemo-lo como uma parte de um movimento que se aproxima de outra, tendo em mira um todo que não afogasse ninguém e que, na sua totalidade, fosse melhor do que qualquer das partes. Um todo, enfim, resumindo muito, policromo e poliédrico, mas que fosse revolucionário e intransigente, e até intratável, em matéria de princípios e tácticas. Em segundo lugar, ao longo destes últimos 30 anos, a presença do Gabriel – que , como qualquer um, tinha os seus defeitos e o seu feitio, a par de imensas qualidades que sobrelevavam tudo – foi o mais constante e decidido de todos os colaboradores da “Acção Directa”, para além do facto de ele ter sido um dos mais lúcidos (e salutarmente desconfiados) aderentes ao anarquismo português. Com a energia habitual, a sua voz, distribuída por panfletos e comunicados e multiplicada por manifestos e pequenos ensaios e amplificada por reuniões e comícios, contribuiu decisivamente para que certos “libertários”, em geral oriundos do activismo e guerrilheirismo de tipo blanquista, ou do cagaçalismo doutrinário da Internacional Situacionista, ou do simples reformismo muito dado à “tolerância”, não transformassem a acracia numa mercadoria aparentada com a democracia, ou com uma ditadura do proletariado conselhista e “abrangente”, e não integrassem o anarquismo no sistema autoritário imperante, através, por exemplo, de um “municipalismo” interpretado ad hoc e de uma participaçãozinha sub-reptícia nas eleições autárquicas…
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É que o Gabriel, além da coragem física, não tinha papas na língua, nem anquiloses ou necroses nas cordas vocais. Uma vez, se bem me lembro, quando a seguir à sementeira de cravos, o “turismo revolucionário” estava na moda e até Portugal vinham os Jean-Paul Sartre ou os ex-anarquistas como Daniel Cohn-Bendit – figura de proa da revolução de Maio de 1968, mas depois reciclado na ecologia aliada à social-democracia alemã e hoje eurodeputado esverdeado -, o Gabriel, esbarrando com este último na via pública, não se conteve e perguntou-lhe de chofre: “Ouve lá, pá, não sei se ainda te proclamas anarquista, mas, mas se o fazes, devias saber que há anarquistas em Portugal e que são estes quem tu devias procurar em primeiro lugar, em vez de visitares os militares de Abril…”
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De outra vez, após a leitura de um artigo publicado no “Diário de Lisboa” com a transparente intenção de nos ridicularizar e de agradar ao patrão stalinista, a propósito da imaginativa manifestação de 3 de Março de 1975, a mais inspirada e desinibida das últimas décadas, em que conseguimos reunir alguns milhares de pessoas e entupir o Rossio com outros tantos curiosos, pasquinada em que o articulista nos chamava de freaks, entre outros “eufemismos” – o Gabriel lá conseguiu interpelar a senhora, que se cruzou connosco na rua. Manifestando ela sinais de comprometimento e desculpando-se com o “humor”, para aliviar o tema, deu-lhe ele a resposta adequada, sem levantar a voz: “O humor nunca está ao lado do poder, seja ele qual for minha cabra!”. Derradeiro exemplo da capacidade de ripostar do nosso companheiro, quando se dava a esse trabalho: tendo Miguel Portas algum tempo depois da criação do diáfano Bloco de Esquerda escrito no “Público” que, entre os bloquistas, até havia “libertários”, lá se viu o Gabriel obrigado a escrever na “Acção Directa” uma simples nota, expeditamente intitulada “Uma Organização de Aldrabões”.
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E foi por essas e por outras que o Gabriel foi nomeado pelos colaboradores director da referida publicação. Já se sabe que entre os libertários não há divisões hierarquizadas do trabalho, corolário do facto de não haver dirigentes e dirigidos, e que o topo está ao nível da base e a base ao nível do topo, do mesmo modo que os distribuidores de panfletos e os coladores de cartazes não são discriminados pelos redactores de manifestos. Todos somos “pau para toda a obra”, apesar das apetências, das saudáveis diferenças de inclinações de cada um. Não temos é que levar a demagogia ao ponto de fazermos todos a mesma coisa, e ao mesmo tempo, só para demonstrarmos que não há desigualdades entre nós! Mas para além do facto de entre acratas o “posto” de director de jornal não ser um lugar de poder, e de ser obrigatório por lei dar um nome para que a publicação não tenha carácter anónimo e não se arrisque a ser apreendida, o que constitui outro facto é a confiança que todos depositávamos no Gabriel, ao ponto de o nomearmos por unanimidade. Foi também graças à sua energia indomável que o pós-25 de Abril conheceu a manifestação não autorizada mais curta e involuntariamente violenta da sua história, segundo a imprensa e a televisão espanhola. Tendo o delegado português e várias dezenas de espanhóis sido presos numa reunião em Barcelona para a reconstituição de uma Federação Anarquista Ibérica de âmbito verdadeiramente peninsular, em 1975, já depois da morte de Franco e durante a vigência do Governo de “transição democrática” de Adolfo Suarez, logo Gabriel, entre outros promotores da ideia, decidiu avançar com uma manifestação de emergência, a fim de alertar a opinião pública, sem pedir licença ao Governo Civil(!); enquanto as autoridades portuguesas, apesar de ter um “cidadão nacional” detido, sempre com receio de incomodar o big brother espanhol, tudo preferiam silenciar. Reuniram-se à pressa 50 ou 100 pessoas que foram dispersas à bastonada pelas “forças da ordem” na baixa lisboeta. Contou-me quem viu a cena – porque nesse preciso momento estava eu em Évora, na Universidade, a dar aulas, sem poder participar com o meu fraco arcabouço na refrega com a polícia democrática – que o Gabriel ainda foi obrigado a terçar armas com a autoridade, opondo a um zeloso bastão um simples chapéu de chuva. Como a esgrima lhe foi desfavorável, teve direito – um direito não constitucionalmente consignado – a uma ou duas cacetadas, tendo-lhe um casalinho de jovens manifestantes, que se viraram contra a prepotência do brutamontes uniformizado, salvo a sua pele.
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Também ainda em vida do arrepiante caudilho (não confundir com codillo, que é uma espécie de saboroso cozido à galega), contribuiu Gabriel para a aproximação dos povos peninsulares e para o quase corte de relações entre os dois Estados ibéricos: como o velho assassino espanhol, o quase eterno Paco Franco, decidisse que, antes de marchar para um “mundo melhor”, mais valia, à cautela, condenar 5 ou 6 nacionalistas bascos ao garrote vil, a fim de não empreender a última viagem sozinho, lá estava o nosso amigo com outros companheiros ainda vivos e bem vivos, cujos nomes seria despiciendo citar, até porque não trabalho no Ministério da Administração Interna, na primeira fila dos invasores e ocupantes da embaixada da Espanha em Lisboa. Tudo me foi relatado em pormenor, porque então vivia em Évora, pelas razões já apontadas. A própria “Acção Directa”, aliás, publicou um artigo relativamente circunstanciado sobre o assunto, no qual também vinha escrito que, ridiculamente, a UDP (União democrática Popular), consumada a ocupação, tivera como principal preocupação içar a bandeira da agremiação, para reivindicar para si o movimento e confisca-lo em proveito exclusivo. Enfim, maoísmos, “maoíces”.
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Apesar de não me faltar vontade, falta-me o espaço para trazer à colação todas as situações que atravessei com o Gabriel, situações de infortúnio, mas também de alegria, momentos de penúria, mas às vezes também de relativa abundância, e sempre de rebeldia, que mais do que quaisquer outras forjam uma amizade indestrutível e um companheirismo genuíno, decantado, despojado de artificialismos e lirismos espúrios, que soam a falso, ou demasiado demonstrativos para o meu paladar. Não posso, não obstante, deixar passar em claro dois episódios por nós vividos em cenários menos caseiros e mais internacionalistas. Numa reunião peninsular da FAI, em Madrid, para onde nos deslocámos na carripana do António Mota, tivemos o ensejo de fazer aprovar planos de entreajuda e de troca de informações, bem como moções de estratégia global e livremente consentidas em prejuízo da dinâmica e da vida próprias dos vários grupos de afinidade e da especificidade da pluralidade dos indivíduos implicados. Éramos seis delegados da região portuguesa. Felizmente, dois viajaram de avião, caso contrário o carrinho do António teria soluçado de impotência.

Já no VI Congresso da Internacional de Federações Anarquistas (IFA), que se desenrolou durante três dias em Lyon (França), em 1997, na presença de centenas de delegados do mundo inteiro, éramos só dois os delegados portugueses, o Gabriel mais eu, no meio de uma delegação ibérica de cerca de dez elementos.Os franceses, nossos anfitriões, dispensaram-nos um apoio logístico formidável, a nível de dormidas e de um espaçoso restaurante de dois pisos, que ficou por nossa conta, enquanto as sessões, com vários tradutores nas respectivas cabinas, tinham lugar num grande pavilhão a beira-rio; mas foi determinada moção, essencialmente da lavra de Gabriel, que melhorou o geral bom relacionamento entre delegados franceses, italianos, espanhóis, ingleses, alemães, russos, búlgaros, checos ou canadianos (as delegações latino-americanas e asiáticas, infelizmente, por falta de meios, não puderam estar presentes), e permitiu que se marcasse pontos em relação ao Congresso anterior. Animado por ver tanta gente – sobretudo de um movimento que sempre tem sido tão perseguido a Norte como a Sul, a Oeste como a Leste -, lembrar-me-ei sempre daquele corpulento, tonitruante e simpático kanaca que, nos anos depois, seria cobardemente assassinado pelas costas, no meio do “misterioso” Oceano pacífico, na Nova Caledónia, sua terra natal, por colonialistas franceses…

Como acima expus, não pude ir ao funeral do João Gabriel de Oliveira Morato Pereira, porque a tristíssima notícia do seu falecimento só me foi comunicada na noite já avançada de 19 de Julho, em plena Feira do Livro de Tavira, onde trabalhava no meu pavilhão. A Paula, sua companheira, e os filhos de ambos, o Francisco e a Sofia, todavia, tiveram muita gente a fazer-lhes companhia. Pena foi que a imprensa da capital, apesar da presença da jornalista Diana Andringa, próxima parente do “respeitável” Bloco de Esquerda, salvo erro, não tivesse dedicado linha roxa à morte de um homem que tanto e tão bem se bateu contra o fascismo, o stalinismo, ortodoxo ou reciclado, ou a pessegada capitalista da democracia representativa, sem sacar para si, nem para os seus, como soe dizer-se, o mais pequeno dividendo, e tantas, tão boas e tão exequíveis ideias tinha sobre a transformação e a reorganização da sociedade futura. Uma sociedade, evidentemente, não perfeita, nem parada num espaço e num tempo ideais, mas ao menos perfectível, ao invés desta enxovia mercantil em que muitos teimam em vegetar, nomeio de corruptos, dos gestores, dos governantes e das putas de ambos os sexos. Referindo-se a toda essa gentinha e não certamente às pobres matriculadas da chamada “mais antiga profissão”, dizia George Orwell que, como o Gabriel, era a antítese da escumalha que tinha na linha de mira: “Puta uma vez, puta a vida inteira…”

Artigo de autoria de Júlio Carrapato,
publicado no nº de outubro 2005 da revista “Algarve Mais”
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