(Cacilhas) Homenagem a Júlio Carrapato este sábado no CCL


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Juntamo-nos este sábado, dia 2 de julho, pelas 17, 30h, no Centro de Cultura Libertária, em Cacilhas, para conversar, conviver e recordar coisas que Júlio Carrapato fez, que escreveu, que editou, que traduziu – como reflexo imediato da sua vida e como contributo teórico e prático aos seus companheiros e à anarquia.

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Texto de Júlio Carrapato,  de Janeiro de 2003, sobre a sua experiência no pós 25 de Abril e o movimento anarquista em Portugal:

Viviam-se momentos de euforia pelo derrube da mais antiga ditadura fascista da Europa Ocidental. Em Paris, companheiros franceses da Federação e refugiados espanhóis deram-me o contacto e eu conheci-os só meses depois do 25 de Abril de 1974, após regressar de um exílio «dourado» – como soe adjectivar-se, quando se confunde exílio com idílio – por terras de França e do Brasil. Estou a reportar-me, obviamente, aos homens e mulheres que conheci na sede da Rua Angelina Vidal, em Lisboa, metendo ombros à «empreitada» de relançamento de A Batalha; a quantos conheci em Almada, no Centro de Cultura Libertária, editando a Voz Anarquista, ou aos que encontrei no Porto, Coimbra, Évora ou no Algarve, ao sabor da deriva revolucionária, animados por outros projectos. Eram eles Adriano Botelho, Emídio Santana, José Correia Pires, Reis Sequeira, José de Brito, Barreto Atalaião, Sebastião de Almeida, Artur Modesto, Jorge Quaresma, Francisco Quintal, Luísa Adão, José Bernardo, Abílio Gonçalves, Acácio Tomás de Aquino, José Francisco, Joaquim Pedro, Custódio da Costa, Elias Matias, José Paulo Lola, António Machado e alguns mais. Maioritariamente na casa dos 60 ou 70 anos; alguns como Adriano Botelho, já tinham contudo afoitamente transposto a barreira dos 80. Constituíam o que poderíamos chamar a «velha guarda» confederal e libertária, caso não fossemos avessos a qualquer linguagem com ressaibos de militarismo. Maioritariamente operários qualificados, mas pouco confortavelmente aposentados; alguns autodidactas brilhantes, frutos maduros daquele «saber de experiência feito» e de muitas leituras – sem dúvida mais inteligentes e cultos do que os patrões que os tinham feito suar, o que aliás sempre foi uma constante nos confrontos do arguto anarco-sindicalismo com a boçalidade economicista da «classe empresarial», além de serem senhores de um sentido de autonomia, de uma capacidade de organização e de um instinto de liberdade notáveis. Gente daquela cepa contrariava a atoarda propalada pelo «socialismo científico» e pela burguesia segundo a qual o anarquismo não passa de um «primitivismo». Não nasceu para servir nem para ser servida, vê na Revolução Social um longo processo libertador de tabus, preconceitos e superstições e não uma redutora e cínica ditadura «transitória» e, olhando para as próprias capacidades, sabe que não é uma tarefa superior às próprias forças a posse e gestão directas do mundo pelos próprios trabalhadores, organizados local, regional e internacionalmente. Tinha envelhecido como as boas safras dos bons vinhos e, apesar de «pensionista» das masmorras de Salazar, acumulando penas de prisão que nalguns casos podiam ir até aos 10, 15 ou 20 anos, evitava apresentar currículo, quando incidentalmente ela mesma vinha à baila. Todos os que a formavam – tanto os que tinham envelhecido lucidamente quanto os que tinham uma velhice mais confusa – sabiam que os verdadeiros amantes da liberdade e igualdade efectivas são hostis a chefias e hierarquias, bem como ao culto religioso e politiqueiro de mártires e heróis, porque, quando se está perante a encenação do poder, se «do Capitólio à Rocha Tarpeira não vai mais que um passo», também da dita rocha ao Capitólio não vai mais que outro, quando os antigos proscritos deitam mão às rédeas do mando e não o aniquilam pura e simplesmente…

Não obstante, se, farto de ser deturpado, esbulhado e votado às gemónias, o anarquismo português quisesse «exibir» o seu quinhão de sofrimento contido e de bravura, teria muito por onde começar, sem nunca verdadeiramente acabar! Estou a lembrar-me, a talho de foice, de alguns casos nem isolados nem esporádicos que os mais velhos me contaram, com tranquila lhaneza encontradiça na coragem humana: a evasão rocambolesca de António Caldeira, ainda no tempo da monarquia, do degredo angolano, e entrada clandestina em Lisboa, a nova captura e o novo desterro para a Guiné; a vida agitadíssima de Bartolomeu Constantino, inflamado orador, articulista improvisado e sapateiro olhanense, que até Chaves e à União Operária Transmontana foi parar, morrendo na miséria em 11 de Janeiro de 1916, aos 52 anos, após ter sido preso 36 vezes; as lutas, também durante a 1ª República, o Alentejo, de José Candeeira contra uma das classes mais reaccionárias e parasitárias do país, a dos latifundiários, e as tentativas comunalistas de António Gonçalves Correia, o fundador da «Comuna da Luz»; a vida atribulada de Manuel Joaquim de Sousa, do Secretariado da CGT, que, a páginas tantas, tinha a vida ameaçada, tanto pela polícia republicana quanto pela Legião Vermelha, conotada com o PCP; a vida exemplar de Mário Castelhano – anarquista e sindicalista respeitado por toda a gente -, homem prático e de ideias claras, autor de Os meios de transporte e a transformação social, animador de imensas greves e arquitecto do 18 de Janeiro de 1934, sucessivamente deportado, em 1926, para Angola, em 1930, para a ilha do Pico, de onde logrou escapar, em 1931, preso e seguindo com mais 70 companheiros para a inauguração do Campo de Concentração do Tarrafal, em 1936, onde morreria, em 12 de Outubro de 1940, porque o «médico passador de óbitos» Esmeraldo Pais Pratas não o deixara medicar-se (Edgar Rodrigues, A oposição libertária em Portugal, 1939-1974); a valentia do pescador de Setúbal Jaime Rebelo, falecido em 1975, ex-combatente em Espanha e exilado em França, que, durante uma sessão de tortura pela PIDE, cortou a língua com os dentes, gesto que inspirou ao historiador Jaime Cortesão o poema «Romance do homem de boca cerrada»… Enfim, creio que esta sucinta exposição de algumas vidas tão «difíceis» quanto discretas basta!

Outro facto, que deixava a «velha guarda» acrata estupefacta, era a constatação da idolatria que a «escola de ditadores» do marxismo e do leninismo nutria por regimes tão concentracionários e liberticidas como os da URSS ou da China Popular. Como podiam homens que se jactavam de ter estado tantos anos presos rever-se em espelhos como os das polícias políticas «soviética» ou chinesa? Chegava a ser dramático e, antes de mais, uma história de «cegueira» de tipo masoquista, ou de recalcamento sádico, como diria o míope José Saramago. Era só lembrarmo-nos que, de 1917 a 1953, ano da morte de Staline, a polícia secreta russa tivera as seguintes designações: Tcheka (Comissão Extraordinária Panrussa para combate à Contra-Revolução, Sabotagem e Especulação), criada em 20 de Dezembro de 1917 e capaz, logo a partir do segundo semestre de 1918, de praticar terrorismo de Estado em larga escala, eliminando meticulosamente todos os concorrentes do partido único e até as tendências do Partido Bolchevista que não agradassem a Lenine e Trotsky; GPU (Directório Político Unificado de Estado), herdeiro da Tcheka e senhor de funções ainda mais vastas, entre as quais avultava um Tribunal Especial, a partir de 1 de Março de 1922; NKVD, resultante da incorporação do GPU no Comissariado do Povo dos Assuntos Interno, em 10 de Julho de 1934. Era tal o seu poder e tanto o terror que difundia, sobretudo a seguir ao assassinato de Kirov (1934), que, no começo de 1941, os serviços secretos foram desdobrados em dois Comissariados, o do interior (NKVD) e o da segurança do Estado (NKGB), os quais passariam, em Março de 1946, a ministérios – o MVD e o MGB. (A. Rossi, Autópsia do Stalinismo).

E durante o mesmo período, tivera cinco chefes supremos: Dzerjinski, Menjinski, Lagoda, Lejov e Béria. Só o primeiro deles morreria de morte natural, vitimado pelo tifo! Tão paradoxal obituário no próprio seio dos carrascos-mores tinha uma razão determinante: Staline gostava de comprometer os subalternos, endossar-lhes os crimes e mudar de montada a meio da corrida. Já se sabe que a Okhrana, a bófia do czarismo, não fora ineficaz e até infiltrara nos órgãos dirigentes do Partido Bolchevista Roman Malinowsky, em quem o iludido Lenine depositara tantas esperanças; mas que tal achais uma corporação onde lagoda, com aquele toque florentino, era especialista em venenos, Lejov, autor de 1936 a 1938 de sangrentas depurações entre os Konsommol, os quadros do Partido, dos «sindicatos», dos «sovietes», do Exército e da Econpomia, deve ter sido o maior assassino de toda a história de todas as Rússias, e o sinistro Béria, chefe de todas as «purgas» e deportações do pós-guerra e candidato à sucessão de Staline, teve que ser eliminado à traição, numa reunião à porta fechada, para permitir a ascensão de Kruchtchev, um polícia subalterno, ao posto supremo? Mas não é tudo. Já com a etiqueta KGB, essa corporação ainda forneceu um Gorbatchov, protegido do chefe Andropov, que com a sua «perestroika» e correspondente «glasnost» levaria a própria URSS, nos anos 90, à implosão, além de fornecer Putin, actual Presidente eleito da Rússia, entre outros casos menores. Como, porém, nem todos os bufos se puderam reciclar a tempo, na busca conseguida da respeitabilidade burguesa, é na máfia russa que, hoje, vamos encontrar muitos ex-quadros do KGB, gerindo tranquilamente o negócio das privatizações, da abertura de bancos com vocação para a bancarrota, ou o tráfico de armas e de emigrantes ilegais…

Exercendo o direito à crítica, a «velha guarda» libertária também me fez compreender a principal razão da força do anarquismo português e uma das suas veniais fraquezas: uma composição social que era proletária a quase 100%. É certo que escritores como Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Mário Domingues, Assis Esperança ou Jaime Brasil nunca esconderam as suas simpatias pelo anarquismo; contudo, homens como o advogado Campos Lima, os professores Aurélio Quintanilha, Emílio Costa ou Adolfo Lima, o médico e polígrafo Abel Salazar, o escritor Tomás da Fonseca, os jornalistas Julião Quintinha ou Cristiano Lima e os participantes na tertúlia do Café Veneza eram uma excepção no panorama «nacional». A grande maioria das sucessivas gerações de intelectuais portugueses e até de simples burros (de duas pernas) carregados de diplomas académicos, exercendo as mais variadas profissões liberais e ocupando as pequenas chefias burocráticas, quando não aberta ou envergonhadamente à direita, elegia o marxismo como «ópio» favorito, fazendo-lhe inúmeros fretes e dando-lhe aquele toque «artístico» de partido da classe média. Sim, da tal parte da classe média que gosta de se apoiar na peonagem da classe baixa, a fim de melhor disputar a liderança à classe alta ou com ela estabelecer compromissos inconfessáveis! Foi assim que cheguei a uma especiosa definição de certa intelectualidade: Intelectual de «esquerda» ou progressista é o passarão que gosta de manejar a escova da graxa com a mestria com que Paganini tocava violino e de defender asperrimamente os regimes mais autoritários e homicidas, em nome da «necessidade histórica», levando, na melhor das hipóteses, algumas dezenas de anos para descortinar vagamente aquilo que qualquer operário anarco-sindicalista topa logo à primeira. Qual a razão de tal aberração? Será porque o anarquismo não promete tachos, nem promoções, nem notoriedade, nem protagonismo a ninguém e luta por uma sociedade em que a relação comando-obediência é erradicada?

Não foram, porém, só os acratas mais velhos que conheci no pós-25 de Abril. Como o anarquismo português nunca desapareceu da conflitualidade social, digam o que disserem os seus coveiros apressados, também conheci os que estabeleceram a ponte entre os mais idosos e as jovens gerações. Estou a pensar, a propósito, naqueles que, como Moisés da Silva Ramos, Irene Nóbrega Quintal ou Lígia Oliveira estariam na casa dos 40 ou 50 anos, em 1974. Depois vinham os que, como Gabriel Morato Pereira, António Mota, Rui Vaz de Carvalho, Jorge Mota Prego, Paulo Ferreira, Carlos Pimpão, António Alvão Carvalho, Artur Pinto, além do autor destas linhas, tinham entre 20 e 30 anos após o que seguiam alguns jovens operários e rapazes dos liceus, como Vitor Sobral, Fabião ou José Tavares, restando-me pedir desculpa aos muitos que aqui não menciono, por falta de espaço. Foi com esta gente que se tentou relançar o movimento libertário, tarefa nada fácil, porque a repressão fascista cavara um fosso entre as gerações e porque alguns que de nós se aproximavam, em geral oriundos da família marxista, carregavam toda uma espécie de vícios «políticos», com toda a carga negativa que tal termo implica, além de outros, vítimas da perda de certas qualidades, terem sucumbido ao «encanto» discutível do reformismo. Ainda assim, foi possível lançar novos periódicos como Acção Directa, O Meridional ou Antítese, além das Edições Sotavento. No período dito do PREC, de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975, despontou a Associação de Grupos Autónomos Anarquistas e, de então para cá, grupos há, federados ou não na FAI, que fazem o seu trabalho, e outros que fundaram uma associação para a reconstituição do movimento anarco-sindicalista. Entre outras acções comuns empreendidas, não gostaria de deixar de mencionar aqui: a manifestação de 3 de Março de 1975, contra o Pacto Ibérico e de solidariedade com os trabalhadores espanhóis, a única claramente antimilitarista que se fez no Portugal pós-fascista, na qual se gritou: «os soldados são filhos do povo, os generais são filhos da puta»; o assalto à embaixada de Espanha, também em 1975, após a execução de alguns nacionalista bascos pelo General Franco; determinado comício, entre outros, que encheu por completo o salão da Voz do Operário e obrigou o Expresso a titular: «Anarquismo português à procura de um segundo fôlego».

Mas as dificuldades em fazer ouvir a própria voz, numa sociedade altamente mediatizada e manipuladora, saltavam à vista e eram de ordem vária: aquando da manifestação de 3 de Março, jornais como o Diário de Lisboa nem se atreveram a citar na íntegra a frase supracitada, limitando-se a dizer que os acratas apenas haviam tautologicamente bramido «os soldados são filhos do povo»; e quando do referido comício nenhum graxista de serviço ousou escrever que as frases mais proferidas foram «o homem acaba onde o soldado começa» ou «o medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo». Passando ao «cacau», essa produção que não é apenas «africana», nem falo. Enquanto corria a rodos da social-democracia alemã ou sueca, do «comunismo» russo ou chinês, ou dos serviços secretos norte- americanos, para os bolsos dos conhecidos comparsas de todos esses cavalheiros, os libertários portugueses apenas podiam rir da sua altiva e deliberada penúria!

Só me falta concluir, por hoje, dizendo que o «crime (quase) perfeito» em apreço, afinal, não chegou a ser consumado, porque, como constatou Louis Mercier Vega, o anarquismo demonstrou ser «um cadáver recalcitrante». Vivo e bem vivo, manifesta-se contra Fóruns Sociais dos economistas e tecnocratas da ATTAC (Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda ao Cidadão). Em cidades tão distantes como Seattle, Washington, Estocolmo, Porto Alegre, Génova, Florença, Praga, Sevilha ou Barcelona evidencia ter forças próprias e um projecto alternativo irredutível, diametralmente oposto ao 4º Reich e às guerras «regionais» que por esse mundo ele vai semeando…

Cf. CARRAPATO, Júlio, Algarve Mais, Janeiro de 2003.

aqui: https://drive.google.com/file/d/0B0hqpwkcN1LaN0s2MGNMYTJ4clE/view

elogio fúnebre a Júlio Carrapato (Carlos Pimpão):  https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/06/30/elogio-funebre-lido-no-funeral-de-julio-carrapato/

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