Dia: Agosto 3, 2016

Alguns poemas de José Miguel Silva


jms

“Mais pertinente do que o carácter realista da minha poesia talvez seja a sua vocação política, a sua propensão para interpelar não apenas o íntimo e pessoal, mas também o social”. José Miguel Silva (aqui)

*

Feios, porcos e maus – Ettore Scola (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos – tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

(de “Movimentos no Escuro”)

*

Queixas de um Utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

(de ‘Ulisses Já Não Mora Aqui’)

*

No Way Back

“Como sair daqui?” Perguntas bem, amigo.
Diógenes diria “à catanada, vivamente”,
Lichtenberg “à gargalhada”, se o conheço.
Thomas Bernhard proporia “num rectângulo
de tábuas” e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse “rastejando”.
Diderot aventaria
“pela rua do liceu”, Tcheckov “pela viela
mais escura, à tua esquerda”. Séneca diria,
muito sonso, “pelo passeio das Virtudes”,
Vaneigem “pelo jardim das Belas-Artes”.
Bashô responderia (e eu com ele) “é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa”.

(de “Walkmen”)

*

Too big to fail

Como pode um investimento tão fiável
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
valias, ainda por cima livres de impostos?

Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.

O mais estranho no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.

O meu único receio é que despertemos
a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o “rating” da nossa relação,

deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em “default” o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo

que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.

(de “Serém, 24 de Março”)

*

O Grande Circo de Montekarl

Não gosto especialmente de circo, mas como não há
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.

Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.

Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico – pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha –
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.

(de “Ladrador”, Averno, 2012)

relacionado: http://revistamododeusar.blogspot.pt/2014/05/jose-miguel-silva.html

https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/nestas-ervas-gostaria-de-deixar-cair-os-punhos-1672984

blog de josé miguel silva: https://eumeswill.wordpress.com/

Gonçalves Correia: “A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura”


Capturar

Para ler em pdf: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/components/com_library/texts/42_BNP_AHS424.pdf

Numa altura em que tanto se discutem os “direitos” dos animais e a necessidade de serem poupados à tortura e ao sofrimento, convém relembrar o texto da conferência produzida em 1922, em Évora, no Teatro Garcia de Resende, no quadro do V Congresso dos Trabalhadores Rurais pelo anarquista Gonçalves Correia. Este anarquista alentejano foi um dos fundadores da Comuna da Luz, nas Fornalhas Velhas, onde o regime alimentar era essencialmente vegetariano e crudívoro. Nesta conferência subordinada ao tema “A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura”, Gonçalves Correia defende o fim  da propriedade privada e da exploração quer do homem pelo homem, quer do animal pelo homem, entrando a humanidade numa nova era em que todos os seres serão tratados de forma digna e sem serem violentados.

“A sociedade futura, sem propriedade individual, que será de todos, como o sol, como a lua, como o próprio ar, inundará o mundo de ternas, de quentes alegrias. O ódio, que é filho do egoísmo e do erro, dará lugar à estima de todos, que deixarão de se guerrearem como inimigos, para se estimarem como irmãos!

O próprio irracional não terá, como o boi simpático e paciente, olhos mortiços, o corpo cansado e esquelético. Compreenderá o homem, enfim, que ser rei dos animais não significa ter o direito à sua tortura. Os próprios irracionais terão lugar no grande banquete da vida, inundando-se a terra de pura, de generosa alegria!”

Para ler e, sobretudo, para perceber a importância desta conferência num Congresso de Trabalhadores Rurais, em 1922, alertando para a necessidade de um novo tempo de igualdade e de solidariedade entre todos os seres viventes, pondo fim à exploração e à opressão.

Algo bem diferente daquilo que ainda hoje se passa com alguns “animalistas”, que se levantam em defesa dos direitos dos animais, mas que se calam bem caladinhos, quando estão em causa a opressão e a exploração de quem trabalha por conta de outrem.