A propósito de um post de Raquel Varela


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A mediática e multifacetada investigadora e historiadora Raquel Varela, conhecida trotskista, defendia ontem em post no facebook que o estalinismo é a idade das trevas, tentando separar o estalinismo das suas raízes leninistas e marxistas. Escreve Raquel Varela que “todas as investigações das últimas décadas feitas a partir de arquivos russos provam um corte radical entre o leninismo e o estalinismo, e esse corte dá-se em 1928 – é nesse ano que se dá a colectivização forçada, a introdução massiva do trabalho forçado a uma escala de centenas de milhar até depois da guerra, o início da militarização da sociedade, é nesse ano que nas fábricas a comissão de trabalhadores deixa de ser o órgão mais importante para passar esse papel a ser desempenhado pelo chefe da polícia politica; é nesse ano que as mulheres, que deram com a revolução russa o maior salto de sempre de emancipação passam a ser de novo escravas do lar e da fábrica, com medidas como a reintrodução da proibição do aborto e o encerramento de creches.”

Uma visão muito parcial, esta de Raquel Varela, que serve os seus interesses, mas que não corresponde à verdade história. Basta ler o que escreveu Ida Mett, no seu livro sobre “Kronstadt” (editado em português), Emma Goldmann, Paul Avrich ou Voline, com a “Revolução Desconhecida”, sobre o levantamento dos camponeses ucranianos, ou ainda Rudolfo Rocker, sobre o esmagamento dos sovietes, para se perceber que a deriva da revolução russa – em que participaram empenhadamente milhares e milhares de operários, soldados e trabalhadores anarquistas – começou logo no início com o controlo selvático de toda a sociedade por parte do partido bolchevique. Esses ecos chegaram cedo a Portugal, ainda em 1921, nomeadamente com apelos para que a revolução russa e a intervenção autoritária do partido bolchevique não significassem a morte do ideal socialista.

Mas os gérmens do totalitarismo marxista remontam ao próprio Marx, como muito bem sublinha Luís Bernardes num comentário ao post de Raquel Varela. Escreve Luís Bernardes: “Tudo o que aconteceu com o estalinismo e o marxismo real tinha sido totalmente antecipado pelos anarquistas e, sobretudo, por Bakunin, que a este respeito lembrou, desde logo e referindo-se a Marx, que ““Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.” A história, infelizmente, deu-lhe razão com a deriva da brutalidade soviética – mas o germe do totalitarismo, ao contrário do que a Raquel Varela opina, não está no estalinismo, mas sim no próprio marxismo – que permite o aparecimento de Estalines, Pol Pots e outros negreiros. A deriva totalitária e antisocialista da revolução russa deu-se logo com o esmagamento dos sovietes e o seu controlo total pelo partido bolchevique, o fim da liberdade de imprensa, a proibição e a prisão de todos os opositores (mesmo de esquerda) ao partido blochevique, o esmagamento da revolta de Kronstadt, a colectivização forçada dos pequenos camponeses e a guerra desenfreada levada a cabo contra o exército camponês de Makhno na Ucrânia. Staline foi apenas um epifenómeno duma gangrena mais profunda e que está inscrita nos genes teóricos do marxismo.”

Marx é um autor interessante e a sua obra deve ser estudada, mas o marxismo, enquanto corpo teórico e prático, não é flor que se cheire e em todos os países onde ascendeu ao poder mostrou o seu rosto de violência, atrocidades e morte, nos antípodas do mundo de liberdade e solidariedade que urge construir.

a.

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