(Frankfurt) Relato sobre o X Congresso da Internacional de Federações Anarquistas


flyerXCongresoIFA-2016

Relato de um participante português no X Congresso Internacional das Federações Anarquistas, que decorreu no início de Agosto em Frankfurt, Alemanha, escrito propositadamente para o Portal Anarquista.

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Realizou-se de 4 a 7 de Agosto, na cidade de Frankfurt, o X Congresso da Internacional das Federações Anarquistas (IFA). Esta Internacional, fundada em Carrara em 1968, agrupa organizações formais com uma perspectiva federalista, reunindo-se em congresso, em princípio, a cada 4 anos. O último tinha sido feito durante o muito concorrido Encontro Internacional do Anarquismo, realizado em St. Imier (estado suíço) em 2012, e que celebrou os 140 anos da fundação, por Bakunine, Guillaume, Malatesta e outros, da Internacional de St. Imier, após a expulsão dos anarquistas da AIT no Congresso de Haia.

O Congresso decorreu num edifício gerido pelos estudantes da universidade local com excelentes condições para um evento deste tipo: zona de restauração e convívio ao nível da entrada, jardim onde dois colectivos prepararam as refeições e dois pisos com um salão enorme, onde se realizaram as sessões plenárias, e numerosas salas, utilizadas para debates, workshops e reuniões informais. Para além disto, no átrio do 1º andar ainda houve espaço para as diferentes organizações presentes montarem as suas bancas de publicações, edições e outro material.

No início do Congresso faziam parte da IFA as seguintes organizações: Federação Libertária da Argentina, Anarquistas Bielorussos, Federação Anarquista na Bulgária, Federação dos Anarquistas de Língua Alemã (federação organizadora), Federação Anarquista da Grã-Bretanha, Federação para a Organização Anarquista (que engloba grupos nos estados esloveno, croata e sérvio) e as Federações Anarquistas checa, francesa, ibérica e italiana. Os Anarquistas Bielorussos fizeram-se representar por um companheiro que vive no exterior pertencente à Cruz Negra Bielorussa. Não estiveram presentes, nem se fizeram representar, a Federação Anarquista na Bulgária (sem actividade há algum tempo) e a Federação Anarquista Ibérica, facto que causou bastante surpresa nos participantes e que poderá pressupor dificuldades no funcionamento desta organização histórica.

Para além dos membros da IFA também estiveram presentes projectos associados e convidados: a recém-criada Federação Anarquista da América Central e do Caribe (FACC), o Taller Libertario Alfredo López (Cuba), os grupos Kiskeya Libertaria (Rep. Dominicana) e Agrupación Conciencia Anarquista (El Salvador), o jornal El Libertario (Venezuela), a FAU alemã, a Organização Política Anarquista (Grécia), o sindicato Vrije Bond do estado holandês, o DAF e o Kurdish Anarchist Forum, o Aotearoa Workers Solidarity Movement (Nova Zelândia) e diversos anarquistas a título individual.

Depois da apresentação das organizações e indivíduos presentes, o Congresso iniciou-se com a ratificação unânime dos pedidos de adesão da Federação Anarquista do México, Federação Anarquista Local de Valdívia (Chile) e Iniciativa Federalista Anarquista no Brasil. Esta entrada de três organizações sem âmbito nacional “obrigou” à principal decisão deste Congresso: a alteração do Pacto Associativo. Até este Congresso, o Pacto Associativo existente, bastante eurocêntrico na sua redacção inicial, só permitia adesões de organizações com dimensão nacional e uma por território. Exemplificando, o território francês só poderia estar “representado” pela Federação Anarquista francesa (FA), aliás uma das fundadoras da IFA. Qualquer outra organização, actuando no estado francês, só poderia aderir à IFA se também tivesse um âmbito nacional e se a FA não se opusesse. Considerando a dimensão dos estados do continente americano e a consequente dificuldade de formação de uma organização nacional, a continuidade desta restrição iria, na prática, impossibilitar a adesão de qualquer tipo de organização existente ou futura nestes territórios. Ora este entrave colidia com o objectivo principal da IFA na actualidade: alargar o número de organizações-membro e a sua esfera de actuação a territórios para além do espaço europeu. Assim sendo, com a alteração do Pacto Associativo, tornou-se possível a adesão de organizações sem âmbito nacional, mas apenas local ou regional, podendo coexistirem na IFA organizações actuando no mesmo espaço territorial, mantendo-se no entanto a necessidade de acordo da organização previamente aderente.

No entanto, esta nova redacção do Pacto Associativo levanta desde logo uma questão que provavelmente colocar-se-à a curto ou médio prazo: qual será a posição de uma qualquer federação europeia se outra organização, já não de âmbito nacional mas actuando no mesmo território, solicitar a sua adesão à IFA? Concretizando, qual será a reacção da Federação Anarquista Ibérica, aparentemente numa situação muito longe do seu passado glorioso, se, por hipótese, as já existentes Federações Anarquistas da Catalunha ou das Canárias quiserem aderir? Aceitará ou vetará? E quais as consequências de uma ou de outra posição?

Por outro lado, faz parte da IFA uma organização transnacional, a já referida Federação para a Organização Anarquista, que federa grupos nos estados esloveno, sérvio e croata, apesar desta situação não estar contemplada no Pacto Associativo. Qual será a posição da IFA e das organizações já existentes se, de repente, começarem a surgir pequenas federações transnacionais formadas por grupos com afinidade linguística (por exemplo uma hipotética Federação Anarquista Galaico-Portuguesa) ou que partilhem a mesma realidade geográfica (ainda uma hipotética Federação Anarquista da Patagónia, englobando grupos argentinos e chilenos muito mais perto entre si do que de Buenos Aires ou de Santiago do Chile) ou ainda que tenham o mesmo tipo de luta (continuando no campo das hipóteses uma Federação Anarquista de Notre-Dame-des-Landes e do Val Suza) e que decidam pedir adesão?

Enfim, tudo isto são questões para as quais a IFA vai ter de encontrar uma solução de actuação e decisão. Face à tranquilidade com que decorreu este Congresso, aparentemente sem momentos de tensão, penso que se perdeu uma excelente oportunidade de se aprofundar uma discussão sobre a forma e o âmbito geográfico que as organizações formais anarquistas, neste caso de carácter federalista, deveriam ou poderiam assumir.

Outras discussões importantes, embora não conclusivas, foram as que decorreram sobre o modo de financiamento da IFA e sobre o modo de funcionamento da CRIFA (Comissão de Relações da IFA). Em relação à primeira questão, os participantes no Congresso foram informados que a IFA encontra-se actualmente sem fundos. Esta situação deve-se ao apoio financeiro substancial que a IFA deu, desde o Congresso de St. Imier, à expansão do anarquismo organizado de natureza federalista, mas também a diversas iniciativas, como a Rede Anarquista do Mediterrâneo, ou a grupos específicos, como o DAF e o Fórum Anarquista do Curdistão. Na opinião do Secretariado da IFA, torna-se portanto urgente que as diversas organizações aderentes arranjem formas de contribuir de forma regular, na medida das suas possibilidades, para este fundo comum. Em relação à segunda questão, e com o alargamento da IFA no continente americano, é importante definir e aprovar outra forma de funcionamento da CRIFA (que se reúne duas vezes por ano) já que é impossível financeiramente pagar viagens transcontinentais aos delegados das organizações aderentes. Várias propostas de solução foram colocadas. Manutenção de uma única CRIFA com reuniões alternadas nos dois continentes, mas com número reduzido de delegados, ou seja, quando a reunião fosse no continente europeu, viriam apenas um ou dois delegados das organizações do continente americano e vice-versa? Duas CRIFA’s reunindo separadamente? Utilização de Skype ou de outra forma de contacto via internet em detrimento das reuniões presenciais? Nada foi decidido, ficando as organizações presentes de reflectirem sobre esta questão e pronunciarem-se mais tarde.

Finalmente, o Congresso aprovou algumas estratégias de actuação em relação a temas específicos: guerra, nacionalismo, migrantes, Curdistão, “safer spaces”, patriarcado, campanhas internacionais e luta pela cidade. Ficou também decidido que, se possível, o período entre congressos passaria para três anos, em vez dos actuais quatro. O novo Secretariado ficou à responsabilidade de companheiros das Federações Anarquistas da Grã-Bretanha e francesa, sendo que estes últimos, que asseguraram o funcionamento deste órgão nos últimos anos, sairão daqui a um ano.

Como já foi referido, o Congresso decorreu de forma agradável, com bastantes intervalos que permitiram discussões informais e momentos de convívio. Os dois colectivos encarregados da cozinha, apesar de toda a ajuda que receberam, fartaram-se de trabalhar, pondo à disposição dos participantes pequeno-almoço, almoço e jantar com comida de boa qualidade. A organização foi excelente, tendo conseguido arranjar alojamento gratuito para todos aqueles que o solicitaram.

Algumas linhas finais para a Iniciativa Federalista Anarquista no Brasil. A língua comum aproximou-nos e foi com prazer que conheci pessoalmente companheiros com quem já dialogava através da internet. Esta organização pretende ser o embrião de uma futura federação, englobando para já três grupos: a Liga Anarquista no Rio de Janeiro, que publica o jornal Levante, o grupo Fenikso Nigra (Fénix Negra) de Campinas e a Comuna Anarco-Punk Aurora Negra, dinamizadora do Centro de Cultura Social da Favela da Vila Dalva em São Paulo. Para além das actividades específicas de cada grupo, a Iniciativa organizou, em 2015, o 1º Fórum Geral Anarquista no Rio de Janeiro, um evento aberto a todas as correntes do anarquismo, e, em 2016, o 2º em Salvador da Bahia. Para 2017, está previsto o 3º, a realizar-se em Junho em Campinas e para o qual estão convidados os anarquistas portugueses que queiram participar.

Um anarquista individual

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