(memória libertária) A manifestação do 1º de Maio de 2011 em Setúbal


Portugal

Há 5 anos, numa manifestação pacífica, numa das muitas manifestações do 1º de Maio que por todo o país aconteceram, cerca de 200 pessoas, anarquistas e anti-autoritários, foram intersectados pela polícia para identificação dos “responsáveis”. Como não existiam representantes, e perante a natural repulsa e reação de um dos manifestantes, a polícia atirou a pouca distância balas de borracha, agredindo violentamente, atirando balas reais para as árvores, gás lacrimogéneo, perseguindo depois durante horas os muito feridos. As pessoas ficaram em estado de choque, indefesas, perante tanta violência e ódio por parte da polícia. A mensagem era bem clara! O terrorismo de estado no seu melhor….

Várias pessoas ficaram com marcas de balas de borracha no pescoço, joelhos, por todo o corpo…a população abria as portas para proteger e esconder as pessoas feridas. Alguns de nós enfrentaram verbalmente a polícia chamando-lhes cobardes e oferecendo o peito até a balas. Em estado de choque.

Era um clima ainda mais horroroso do que o da noite fascista, se fosse possível.

Eu encontrava-me inicialmente na retaguarda da manifestação a tirar fotografias das numerosas faixas e bandeiras negras e vermelho negras. A alegria e firmeza eram comuns, cantávamos a uma só voz, aplaudidos pelas pessoas, distribuíamos comunicados à população.

Estávamos fortes e unidos e isso aterroriza-os…. à polícia e aos da CGTP que se tinha ido queixar que a manifestação era deles…nós estávamos no fim dessa manifestação, em bloco próprio mas a dada altura mudámos de percurso.

E de repente eram balas reais, balas de borracha, gás lacrimogéneo, pessoas gravemente feridas, atingidas no pescoço e nos joelhos, traumatismos cranianos, sangue a escorrer….

Alguns de nós não fugiram inicialmente, procurando ajudar os feridos… mas grupos de polícias em grande número rodearam todo o bairro, atirando pelas costas a grande distância balas de borracha.

Éramos quatro pessoas, 2 muito feridas. Andaram à nossa caça, fugíamos pelo bairro, até que fiquei isolada…. senti o impacto de uma bala nas costas, uma bala de borracha. Sem parar virei para a direita e vi que ficaria completamente à mercê dos perseguidores…então atirei-me de mais de dois metros de altura gritando para os outros: está ali uma loja de chinês, vamos esconder-nos lá!

Entrei a coxear na loja de chinês e disse-lhe: estão a perseguir-nos, a atirar sobre nós, estão loucos!

Sem nada dizer, o chinês apontou para o fundo da loja…e nós os quatro escondemos-nos no chão da loja, atrás no armazém….

Um de nós estava ensanguentado demais, compramos um fato de treino e ele foi vesti-lo…estava aterrorizado…. tinha de fugir dali, sair por uns tempos da cidade…. lá se acalmou…

Uma de nós saíu com a cabeça partida a escorrer sangue…

Tocou o telemóvel, uns anti-autoritários meus amigos estavam preocupados, tínhamos vindo de longe, estavam a vários quilómetros à minha espera.

Ficou a outra companheira a ajudar o ferido. Eu saí sózinha, tirei o casaco para disfarçar e tive de fazer o caminho inverso, perdida nas ruelas daquela cidade, acabando por ter de passar ao lado do quartel general da polícia onde 2 polícias fortemente armados se encontravam na rua de espingarda em punho…o olhar desvairado….

Tentei ser o mais natural possível, atravessei a rua e depois foram mais de 2 km, para mim pareciam mais de 20km, até encontrar os meus amigos… fiquei chocada! Um deles estava muito ferido com marcas de 3 balas de borracha no pescoço…abriu a mão e mostrou-me as cápsulas de balas reais e das balas de borracha que tinham recolhido do chão.

As costas doíam-me muito….

No dia seguinte não pude ir trabalhar, fiquei em casa, as dores eram muitas. No corpo e na alma. A raiva.

A enorme raiva.

No ano seguinte estávamos todos lá, mais, muitas mais pessoas, daquela cidade e de todo o país se juntaram a nós. Mas não íamos desarmados, não!

As bandeiras negras que transportávamos eram feitas de grossos paus e tínhamos jurado a nós próprios que desta vez a caça seria outra….e tínhamos a nossa própria segurança.

Desta vez nem se aproximaram muito de nós…tínhamos vencido!
Era a única maneira! Enfrentá-los!

Mas, essencialmente, percebemos quão distantes estamos desta merda de sociedade…e como os “comunistas” também são outra forma de nos policiar e como, por vezes, a sua conivência com a polícia e com o autoritarismo é por demais evidente….

E agora digam-me: querem continuar a ser “pacifistas”? Ainda não perceberam como funciona esta merda de engrenagem?

Raiva!!! Muita raiva!!! Amor! Muito amor!

Amor e raiva!

Venceremos (A)!!!

Emília Cerqueira

aqui: https://www.facebook.com/emilia.cerqueira

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