(Sismo em Itália) Depois das lágrimas de crocodilo tudo ficará como antes


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No mais recente sismo em Itália cerca de 300 pessoas morreram e centenas de casas ruíram. Entre elas muitos edifícios públicos que tinham sido recentemente “reforçados” em nome das novas regras anti-sísmicas e que não resistiram. Nomeadamente escolas. A falta de verbas, mas também a corrupção generalizada e mafiosa da administração pública, compromete a segurança das populações. Se não se podem evitar os terramotos, podem-se evitar as suas consequências mais desastrosas e mortíferas. Esta é a mensagem deste texto do companheiro italiano Zatarra, geólogo, da Secção de Roma de Alternativa Libertária – Federação dos Comunistas Anarquistas.

*

Depois das lágrimas de crocodilo tudo estará de volta. O terramoto é um evento natural que acontece muitas vezes no nosso planeta.

Apenas num ano registam-se à volta de um milhão, dos quais vários milhares são suficientemente fortes para serem sentidos pelos seres humanos, mas apenas algumas dezenas são capazes de causar danos graves. (…)

A única previsão de longo prazo que podemos fazer assenta na probabilidade histórica que é usada para definir a perigosidade sísmica numa área específica, e que reside na probabilidade dessa área exceder um certo nível de energia sísmica num dado intervalo de tempo. (…)

Por isso, o único aspecto que podemos melhorar para nos protegermos desses eventos naturais é a prevenção face aos seus efeitos.

E o que significa fazer prevenção em relação a terramotos?

Do ponto de vista da prevenção anti-sísmica, dentro de uma área específica e considerando a interacção possível existente entre o terramoto, as construções humanas e as pessoas presentes nesse local, é preciso definir o risco sísmico. O risco sísmico é expresso quantitativamente pelo produto de três quantidades: perigo, vulnerabilidade e exposição.

O risco sísmico tem uma magnitude objectiva, independente da intervenção humana, e é provável que ocorra numa determinada área, dentro de um determinado período de tempo, com uma dada energia.

A vulnerabilidade sísmica expressa a capacidade das construções humanas para suportarem terramotos; a vulnerabilidade, ao contrário do perigo, é uma magnitude subjectiva porque depende da qualidade com que os edifícios são construídos. Por fim, a exposição, também uma magnitude subjectiva, já que representa a presença populacional, instalações, infra-estruturas, negócios ou qualquer outra área relativa a recursos humanos, economia, história ou estratégia que possam ser danificadas por terramotos.

Nós consideramos as implicações de tudo isto num plano social (…) até porque a maioria dos edifícios das grandes cidades italianas, incluindo edifícios sensíveis, tais como escolas e hospitais, estão localizados em áreas susceptíveis de amplificação sísmica.

(…) O problema torna-se enorme quando consideramos o facto de que mais de 50% do parque habitacional italiano foi construído antes de haver uma legislação sísmica precisa, e também porque muitos edifícios relativamente novos – feitos antes de 2003 – foram construídos sem considerações anti-sísmicas, seja, antes da sua localização ser classificada com uma classe de risco sísmico maior do que antes.

Outro caso que é preciso sublinhar diz respeito ao problema da vulnerabilidade sísmica das escolas, já que em Itália, em mais de 60% dos casos, são edifícios construídos antes disso, e não foi considerado qualquer planeamento anti-sísmico. Mas, na minha opinião, não podemos ter a certeza quando à solidez dos que foram construídos, mesmo quando os regulamentos técnicos relativos a acções sísmicas já estavam aprovados, porque sabemos como se desenvolveu a construção civil em Itália nos anos 70 e 80 do século passado.

É claro que estamos diante de um enorme problema de avaliação da vulnerabilidade sísmica real e actual e de um consequente ajustamento das estruturas antigas face às novas regras.

E se quisermos resolver este problema, sério e real, devemos estar preparados para investigações estruturais com o objectivo de:

– verificar a qualidade dos materiais utilizados na construção das instalações e testar a funcionalidade de elementos de base que compõem a estrutura,

– verificar a funcionalidade da estrutura na sua totalidade. E uma vez que haja incompatibilidade na estrutura para resistir à acção sísmica esta deve ser adaptada de forma a aumentar a sua resistência.

Mas nós também aprendemos que a segurança no terreno e nas construções é, muitas vezes, se não sempre, sacrificada no altar do lucro e da poupança dos dinheiros públicos, uma vez que existem os recursos técnicos e económicos para lidar com a questão do risco sísmico e de outros tipos de riscos ambientais.

Para esses recursos serem canalizados para onde são necessários é preciso que os governos centrais e periféricos reduzam o desperdício que é manter o exércitos partidários das empresas públicas ou de capital misto ou manter os exércitos propriamente ditos ao redor do mundo para garantirem a paz essencial para os negócios das corporações; devem reduzir os valores que são dados aos empresários de falsas cooperativas do sector terciário, ou os que são dados a um enorme exército de líderes totalmente inúteis para a comunidade.

Para não mencionar os enormes custos de política representativa.

Se se mantiver o beneplácito da administração, a arrogância dos lobbies empresariais continuará a aumentar no nosso território, com um sector de construção inútil à comunidade, apropriando-se  de recursos que poderiam ser usados ‌‌para melhorar e aumentar a segurança das nossas escolas, hospitais e casas.

Mas não esperamos nada daqueles que nos administram. Depois das lágrimas de crocodilo tudo ficará como antes.

Zatarra – AL Roma

aqui: http://alternativalibertaria.fdca.it/wpAL/blog/2016/08/24/lacrime-di-coccodrillo/

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