Morreu Mário Silva, pintor anarquista e mestre na arte da ‘perfomance’


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mario-silvaMorreu hoje, aos 86 anos, o pintor Mário Silva, nascido em Coimbra, mas residente há muitos anos na Figueira da Foz. Uma voz rebelde e inconformada, cidadão do mundo, que sempre se assumiu como anarquista e agitador, mestre na arte da ‘perfomance’.

Uma das suas acções mais célebres decorreu no Verão de 1988 quando anunciou a queima de quadros da sua autoria, na Figueira da Foz, em protesto contra a política fiscal da altura, era ministro das Finanças o social-democrata Miguel Cadilhe.

Afinal, o que passou para o país como a queima de obras de arte mais não foi do que a destruição de fotocópias de quadros, “estratagema” assumido, na altura, à agência Lusa pelo pintor.

“Aproveitei a visita do Presidente da República (Mário Soares), estava cá a televisão e a imprensa toda para protestar contra os impostos que queriam que pagasse [pela venda de um quadro]. Foi um estratagema” disse Mário Silva.

A encenação, numa praça da Figueira da Foz, incluiu o artista plástico de corda ao pescoço e a queima de telas que, afinal, mais não eram do que “fotocópias de quadros e gravuras”.

“As molduras foram construídas a partir de restos de caixões que fui buscar a uma funerária. Havia pessoas a chorar para lhes dar os quadros e não os queimar”, recorda, divertido.

O pintor, que assume a condição de homem de esquerda, maçon e anarquista por recusar as “amarras” a partidos políticos, foi preso duas vezes pela PIDE, no antigo regime.

Uma das vezes, estudante de Engenharia em Coimbra em plena crise académica de 1962, rumou ao forte de Caxias integrando um grupo de 40 universitários que ali esteve encarcerado por determinação da polícia política.

No cárcere os estudantes formaram um Governo-livre no qual Mário Silva assumiu a pasta de ministro do Interior da Cela.

O grupo comemorou a libertação, dias depois, com um jantar em que fundaram, em nome dos dias atrás das grades, o Rotary Clube de Caxias.

“Desenhei o logótipo e tudo” relata Mário Silva.

Ao longo de uma carreira que se estendeu por quase 60 anos, o artista plástico ficou conhecido pelas `performances` que realizava de cada vez que inaugurava uma exposição.

Se em Lisboa apareceu como cardeal “com uma farda alugada no Parque Mayer”, Coimbra recorda-lhe o “escafandro completo e barbatanas” com que o “mergulhador” Mário se apresentou na antiga galeria do jornal “O Primeiro de Janeiro”, na rua Ferreira Borges.

A mesma rua, aliás, onde desfilou, décadas mais tarde, a caminho de mais uma exposição, como D. Sebastião, capa, espada e escudo a preceito, num carro puxado por cavalos.

“Fui um Desejado muito pouco desejado” relata, aludindo ao regresso a Portugal, depois de mais uma encenação: uma partida por via marítima, numa embarcação de pesca, a caminho de um suposto asilo cultural em Espanha.

As recordações guarda-as na memória e na casa-atelier que possui em Lavos, perto do mar e do Mondego, onde a reportagem da Lusa “tropeçou” em histórias a cada passo.

“Tenho mar e rio no nome, só podia viver aqui”, aponta Mário Silva

O homem que ficou conhecido por integrar um júri de um concurso televisivo na década de 80 “sempre de camisa aberta” – uma imagem de marca, junto com a pêra e os chapéus de abas largas – protagonizou, em 2002, mais um episódio, quando um grupo de amigos decidiu inscrever o seu nome na toponímia da Figueira da Foz.

O areal do Cabedelo era para se chamar Mário Silva mas não só a autorização não foi concedida como, da base do monumento – escultura e busto colocadas junto ao molhe sul do Mondego – teve de ser retirada, à pressa, a denominação, permanecendo, no entanto, o nome do homenageado.

Com base numa notícia da Lusa de 2007

Fernando Assis Pacheco sobre Mário Silva

 

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