Jaime Brasil, anarquista e primeiro secretário-geral do Sindicato dos Profissionais de Imprensa de Lisboa


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Num momento em que se prepara a realização de mais um Congresso dos Jornalistas Portugueses recordamos a figura do jornalista e escritor Jaime Brasil, anarquista, colaborador quer da imprensa libertária (no Suplemento Semanal de “A Batalha”, com Ferreira de Castro, Mário Domingues, Nogueira de Brito), quer da imprensa comercial, sobretudo no Primeiro de Janeiro (onde chefiou a delegação de Lisboa) e no Globo (que dirigiu). Muito activo, Jaime Brasil foi um dos fundadores e o primeiro secretário-geral do Sindicato dos Profissionais de Imprensa de Lisboa, um antecessor do actual Sindicato dos Jornalistas.

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Jaime Brasil (à esquerda), ao centro está Roberto Nobre e à direita, Ferreira de Castro.
A foto é de Maria do Céu Nobre, tirada em Versalhes, em 1949. Aqui.

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Artur Jaime Brasil Luquet Neto (Angra do Heroísmo, 1896 – Lisboa, 1966) foi um escritor e jornalista libertário.Nasceu nos Açores, veio estudar para Coimbra em 1909 com Adriano Botelho e outros, seguindo depois para a Escola de Guerra e entrando na carreira de oficial do Exército. Afastando-se dela com a patente de tenente, enveredou cedo pela profissão de jornalista, que desempenhou por toda a vida, vindo a ser chefe da delegação em Lisboa do diário “O Primeiro de Janeiro”, sucedendo a Pinto Quartim, nos anos 50. Em 1932-33 publicou vários livros sobre a questão sexual, liberdade amorosa e controlo dos nascimentos, que lhe valeram polémicas com os católicos e o exílio em França e Espanha. Durante a guerra civil neste país, advogou uma frente única antifascista. Foi preso em 1940, no seu regresso a Portugal. No final desta década foi à Palestina e publicou o livro “Shalom, Shalom”.

Jornalista brilhante, crítico literário e de arte, foi redactor do Primeiro de Janeiro, do Século, do Século da Noite, da República, do Diabo, dirigiu o jornal O Globo, de efémera duração, e muitos foram os jornais e revistas em que colaborou, sendo à data da sua morte chefe da delegação em Lisboa de O Primeiro de Janeiro, cuja excelente página «Das Artes, das Letras» organizou, desde início, durante muitos anos, e na qual colaboraram José Régio, Casais Monteiro, Gaspar Simões, Jorge de Sena, bem como inúmeros dos melhores autores das décadas de 40 e 50; as recensões críticas eram, nessa página que passou a ser dirigida pelo poeta Alberto de Serpa , assinadas com a letra A. (correspondente a Artur, de seu primeiro nome).

Grande amigo do seu patrício Vitorino Nemésio, ajudou-o quando este, em 1921, vindo dos Açores, se estreou no jornalismo profissional.

Jaime Brasil colaborou também no Suplemento Semanal do jornal “A Batalha”, órgão da Central Geral dos Trabalhadores, central sindical anarco-sindicalista, onde entre outros manteve uma série denominada “Paradoxos Bárbaros”, uma coluna de crítica literária intitulada «Através dos Livros» e outra designada “Voz que clama no deserto”.

É desta coluna, escrita com muita ironia, que se transcreve o seguinte extracto:

«Evidentemente que temos os generais e as forças vivas – temos a ditadura. Ditadura, porém, tem sido isto sempre, ora ditadura do rei, ora do executivo, ora do legislativo. Ditadura heróica com Afonso Henriques, ditadura doida com D. Sebastião, ditadura às direitas com Pombal, ditadura às esquerdas com Afonso Costa, ditadura civil com os Cabrais, ou com o António Maria, ditadura militar com o Sidónio ou com o Vitorino, ditadura de saias com a Srª D. Maria II, ditadura de botas e esporas com o sr. Manuel Maria, e até já os ditadores do Alcaide – essa terra famosa para homens bravos – foram experimentados e não deram resultado nenhum.»

Jaime Brasil, para além de jornalista culto e probo, distinguiu-se como polemista, não poupando o adversário nas pugnas que travou: com o diário católico Novidades, a propósito do livro A Questão Sexual; com Agustina Bessa-Luís, acerca de Os Super-Homens, em 1950; com um camilianista a quem chama «camelianista», em 1958, com Raúl Proença, intitulada “Em defesa do jornalismo” e com António Sérgio, tendo publicado quatro artigos sobre «Os verdadeiros e reflexivos heróis no conceito do sr. António Sérgio».

Em 1925 foi um dos fundadores do Sindicato dos Profissionais de Imprensa de Lisboa, do qual foi o primeiro secretário-geral. Em Paris, onde residia desde 1937 e para onde voltou, algum tempo, no final dos anos 40, fundou em 1939 a ‘Union des Journalistes Amis de la République Française’.

Para além de milhares de artigos e reportagens, espalhados pelos jornais em que trabalhou, deixou também uma vasta bibliografia, em que se destacam:

O Problema Sexual, 1931; A Questão Sexual, 1932; Os Padres e a Questão Sexual, 1932; Os Órgãos Sexuais, 1933; A União dos Sexos, 1933; O Japão Actual, 1936; Diderot e a Sua Época, 1941; Vida e Obras de Zola (assinado A. Luquet), 1943; Rodin, 1944; Os Novos Escritores e o Movimento Chamado «Neo-Realismo», 1945; Vítor Hugo, 1940; Chalom…Chalom!… Uma Reportagem na Palestina, 1948; O Caso de «A Infanta Capelista» de Camilo Castelo Branco ou Como se Arrancam as Penas a Um Empavonado «Camelianista», 1958; Leonardo Da Vinci e o Seu Tempo, 1959; Velásquez, 1961; Ferreira de Castro. A obra e o Homem, 1961; Zola – O Escritor e a Sua Época, 1966

apontamento biográfico escrito com base nos dados coligidos em: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/arquivo/?p=creators/creator&id=427 e em http://vidanovazores.blogspot.pt/2012/03/jaime-brasil-esquecido.html

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No suplemento da Batalha, entre muitos assuntos, Jaime Brasil também tratou de temas sobre o jornalismo.

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Para ler: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09821.022#!4

 

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One comment

  1. Ao centro está Roberto Nobre, e à direita, Ferreira de Castro.
    A foto é de Maria do Céu Nobre, tirada em Versalhes, em 1949.
    Tentei enviar um mail ao CC, com as correcções, mas não fui bem sucedido. Se quiserem fazê-lo, agradeço
    Ricardo António Alves

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