(Porto) Solidariedade com a ZAD de Notre-Dame-des-Landes (pt/fr)


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(texto que nos foi enviado por email fazendo-se eco duma acção de solidariedade com a ZAD de Notre-Dame-des-Landes efectuada esta madrugada contra a representação, no Porto, da empresa VINCI,  envolvida na tentativa de construção do aeroporto que os membros da ZAD contestam. A foto é duma acção antiga em França.)

versão em português

veni, vidi…vinci [1]

Poderíamos escrever uns

Versos cáusticos sobre o
Império do betão
Neoliberal, seria um poema em acróstico[2] que nos sairia das entranhas mas, por mais que as
palavras pudessem conter a essência de uma luta ou toda a nossa raiva solidária e
Circulassem pelas redes, seriam apenas palavras
Insignificantes.

Poderíamos organizar uma marcha, ruidosa ou silenciosa, cortar o trânsito de uma cidade e gritar palavras de ordem ensurdecedoras, mas seria apenas mais uma acção simbólica que, sem impacto imediato, se afogaria no fio de notícias dos media dominantes.

Se Malthus ainda existisse, seria o arquitecto do betão neoliberal e dos seus grandes projectos inúteis e, simultaneamente, estaria à cabeça do monopólio exercido por cerca das 200 empresas que regem o império agroalimentar e o seu atrelado de sementes, venenos e OGM patenteados, orquestrando a geopolítica da fome. Seria, talvez, CEO do consórcio que pretende expulsar comunidades agrícolas e destruir partes importantes da natureza em Notre-Dame-des-Landes, em nome duma noção de progresso que faz regredir a relação da humanidade com o planeta que lhe dá abrigo. Um aeroporto que sublinha um mundo ao serviço do capital, da destruição ambiental e da competição e que tem sido, desde a sua génese, combatido por um grupo de pessoas que, juntando-se aos locais, construiu uma comunidade baseada em princípios opostos a que chamou Zona a Defender (ZAD).

Se o espaço da ZAD é considerado por governantes franceses como um “território perdido para a república”, de que res publica – coisa pública – estamos a falar? Nitidamente, para os de cima é mais a ganância do lucro que uma “coisa” pode dar a uns quantos do que algo que pertença a todas, à comunidade, ao público. Os governantes e as multinacionais esvaziaram a república do que tinha de “pública” deixando-lhe apenas a ré.[3]

Neste momento em que quem manda não tem ouvidos para outra coisa que não o som de moedas a entrar ou sair dos seus bolsos, achamos que a nossa resposta solidária ao apelo da ZAD de Notre-Dame-des-Landes [4] deve passar pelo prejuízo a infligir sistematicamente às multinacionais praticantes da necropolítica, isto é, aquela massa mínima que decide quem vive e quem morre.

Nesse sentido, o vandalismo não é senão poesia. E foi como poetas que nos solidarizámos com a luta da ZAD e que gritámos contra o aeroporto e o seu mundo. Utilizando, esta noite, as instalações da representação da VINCI na zona do Porto, na Rua da Estrada, em Crestins.

Um grafiti é um verso
Uma fechadura estragada é uma redondilha
Uma pedra é uma rima perfeita

Porto, 8-9 de outubro de 2016

[1] trata-se de uma referência a palavras atribuídas a César: eu vim, vi e conquistei (em latim: veni, vidi, vici) e ao nome dado à tentativa de despejo da ZAD em 2012: a “operação césar”….com o
pequeno desvio irónico em forma de piscar de olho da transformação de vici em vinci.
[2] acróstico: poema em que as letras iniciais, médias ou finais dos versos formam nomes, quando lidas na vertical.
[3] ré: parte traseira e, por extensão popular, rabo, cu, bunda…
[4] http://goo.gl/G4Xevm

*

Versão em francês:

veni, vidi…vinci [1]

nous pourrions écrire quelques

Vers caustiques et
Incendiaires sur l’empire du béton
Néo-libéral, ce serait un poème acrostiche [2] qui nous sortirait des entrailles, mais bien que les
mots puissent contenir l’essence d’un combat ou toute notre solidarité et notre
Colère, ce ne seraient que des mots
Insignifiants.

Nous pourrions organiser une marche, bruyante ou silencieuse, couper le trafic d’une ville et crier des mots d’ordre assourdissants, mais ce ne serait qu’une action symbolique, sans impact immédiat qui se noierait dans le fil de nouvelles des médias traditionnels.

Si Malthus était encore vivant, il serait l’architecte du béton néo-libéral et de ses grands projets inutiles et en même temps, il serait à la tête du monopole des 200 entreprises qui régissent l’empire agro-alimentaire avec sa remorque de graines, poisons et OGM brevetés, orchestrant la géopolitique de la faim. Il serait peut-être, le PDG du consortium qui cherche à expulser les communautés agricoles et détruire des parties importantes de la nature de Notre-Dame-des-Landes, au nom d’une notion de progrès qui est une régression de la relation de l’humanité avec la planète qui nous abrite. Un aéroport qui insiste sur un monde au service du capital, de la destruction de l’environnement et de la concurrence et qui a été, depuis le début, combattu par un groupe de personnes qui, avec les autochtones, ont construit une communauté, fondée sur des principes opposés, appelée Zone à Défendre (ZAD).

Si l’espace de la ZAD est considéré par les autorités françaises comme un “territoire perdu pour la République”, de quelle res publica – chose publique – parlons-nous? Il est clair qu’il s’agit plus de l’avidité du profit qu’une «chose» peut donner à quelques-uns que d’une chose qui appartient à tous, à la communauté, au public. Les gouvernements et les multinationales ont vidé la république de ce qu’elle avait de «public» ne lui laissant que la «chose».

A un moment où les patrons n’écoutent rien d’autre que le son des pièces qui entrent ou sortent de leurs poches, notre réponse solidaire à l’appel de la ZAD Notre-Dame-des-Landes [3] doit passer par le préjudice à infliger systématiquement aux multinationales de la nécropolitique, c’est-à-dire, à ceux qui décident qui vit et qui meurt.

Alors, le vandalisme n’est autre que poésie. Et ce soir, c’est en tant que poètes que nous sommes solidaires avec la lutte de la ZAD et que nous crions contre l’aéroport et son monde aux installations de la représentation de VINCI dans la région de Porto, situées rua da estrada à Crestins.

Un graffiti est un vers
Un verrou endommagé est un rondeau
Une pierre est une rime parfaite

Porto 8-9 Octobre 2016

[1] référence aux mots attribués à César: Je suis venu, j’ai vu et vaincu (latin: veni, vidi, vici) et le nom donné à la tentative de vider la ZAD en 2012 “Opération César” avec un détournement ironique avec la transformation de vici en vinci.
[2] acrostiche: poème dans lequel les premières lettres, du milieu ou de la fin des vers forment un mot lors de la lecture verticale.
[3] http://bit.ly/2bZc7rI

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