(antifascismo)Ribeiro dos Santos: a morte de um antifascista às mãos da PIDE


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Foi há 44 anos que a PIDE matou Ribeiro dos Santos no Instituto de Economia, ao Quelhas, em Lisboa. Ribeiro dos Santos era um jovem estudante de Direito, antifascista e militante do MRPP. Aurora Rodrigues, alentejana de Castro Verde, ex-militante do mesmo partido, actualmente procuradora do Ministério Público em Évora e amiga de Ribeiro dos Santos, estava presente e relata de forma viva estes acontecimentos trágicos que mobilizaram nos dias seguintes milhares de estudantes que saíram para as ruas, em confronto directo e violento com as forças repressivas do fascismo, a Policia de Intervenção e a PIDE. Fiquemos com as palavras de Aurora Rodrigues:

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“No dia 12 de Outubro de 1972, assassinaram José António Ribeiro dos Santos em Económicas. Em Económicas (então ISCEF, actual ISEG) estava marcado um meeting contra a repressão e o imperialismo e eu estava lá. No anfiteatro, estavam afixados na parede palavras de ordem e uns cartazes com vietnamitas num arrozal, iguais aos que estavam afixados na cantina de Económicas e aos que eu colocara nesse dia na cantina da Cidade Universitária, onde tinha montado a banca da Livrelco. O Ribeiro Santos trazia umas calças verdes de bombazina com uma gabardina azul e lembro-me de nos rirmos por aquilo não combinar e de ele também se ter rido. Quando o meeting ia começar, estava eu no anfiteatro e vejo um grupo de estudantes que entrou conduzindo um individuo que tinha sido surpreendido a apontar as palavras de ordem que estavam afixadas nas paredes. Esse indivíduo foi logo cercado pelos estudantes e levado para a frente do anfiteatro.

A direcção da associação de estudantes de Económicas, que eu identifico como ligada a Juventude do PCP – não sei se eram militantes ou não – era de conciliadores e, neste caso, de uma forma que foi fatal. É tão simples quanto isto: aquele individuo era um “bufo”, porque ninguém se põe a copiar o que está escrito nas paredes para um papelinho, se não for com esse fim, e muito menos naquele tempo. Aliás, ele confirmou o que estava ali a fazer e a sua ligação à PlDE. A ideia dos estudantes que o cercaram era pôr o individuo lá à frente no anfiteatro, perguntar-lhe o que é que queria, o que estava ali a fazer, pô-lo para fora a pontapé e realizar o meeting. A ideia era esta. Só que a direcção da associação de Económicas teve a ideia brilhante de chamar os pides para identificar o pide.

Para isso foram ter com o secretario da Faculdade que chamou os pides. Vieram dois indivíduos, entraram para o gabinete desse secretário e fecharam-se lá dentro com ele e com três dirigentes da associação de estudantes de Económicas. Os estudantes ficaram do lado de fora. Como o Cotrim era um rapaz alto e eu na altura era muito magrinha, facilmente me pôs aos ombros para eu espreitar, porque a porta tinha em cima uma bandeira de vidro. Espreitei e vi que estavam todos a falar amenamente e ate a rir uns com os outros. Fiquei lá, até que vi que eles iam abrir a porta e avisei: “Vêm aí”. O Cotrim pôs-me no chão, eles abriram a porta e os estudantes, o Ribeiro Santos e os outros que lá estavam, que eram muitos, fomos ao lado deles, a rodeá-los, em correria, por umas escadas em direcção ao anfiteatro.

Os três dirigentes da associação de estudantes de Económicas iam à frente com os pides e quando chegaram à entrada do anfiteatro, os estudantes avançaram para os agarrar. Foi uma reacção instintiva para os impedir de fazer fosse o que fosse. Não estava programada por ninguém, pois não era possível programar nada naquelas circunstâncias. Como eram muitos os estudantes, os pides teriam sido imobilizados e não teriam tido oportunidade de fazer o que fizeram. Só que, nesse momento, à entrada do anfiteatro, os dirigentes da associação, que iam à frente disseram “Calma, calma, que nós temos garantias” e puseram-se à frente dos pides. Foi aí que um dos pides sacou da arma, que já trazia de certeza, em posição de fogo. Nem isso os dirigentes associativos de Económicas e o secretário viram, nem isso eles acautelaram, porque o pide não teve tempo de puxar nada, a arma já vinha pronta a disparar e ele -foi isto que se passou, que eu estava ali – ele sacou da pistola e deu um tiro à queima-roupa, mesmo junto ao corpo de Ribeiro Santos. Só não conseguiu atingir mais pessoas nessa ocasião, porque o Zé Lamego lhe agarrou a mão e puxou-lhe o braço para baixo, mas ele continuou a disparar. Feriu o Zé Lamego com um tiro na perna e ainda fez fogo para o anfiteatro, mas aí já sem poder fazer pontaria, porque o Zé Lamego o continuava a agarrar.

Depois disto os pides saíram com o outro “bufo”, pide ou o que é que ele era, que estava lá a tirar os apontamentos. O Ribeiro Santos ainda esteve encostado junto da parte lateral do estrado da secretária do anfiteatro, com uma cor que me pareceu normal. Tenho isto absolutamente vivo. Eu estava ao pé dele, queria falar-lhe, saber o que ele tinha, como é que estava e ele, de repente, mudou de cor, ficou branco e ainda disse “depressa!”. Foi então que foi levado para o hospital de Santa Maria. Penso que as pessoas não se aperceberam bem da gravidade porque, como inicialmente estava consciente, não se percebia que ia morrer.

Foi tudo muito rápido. Foi um momento em que era impossível reagir com sangue-frio. Levaram-no num carro para o hospital de Santa Maria e eu fui atrás, fui para a rua sozinha e apanhei um táxi. Quando cheguei lá, entrei. Conhecia bem o hospital de Santa Maria, porque Direito tinha uma grande ligação com Medicina. Tínhamos reuniões lá e fugíamos muitas vezes para os corredores de Santa Maria, que aquilo era assim uma espécie de labirinto e ninguém nos encontrava. Fui à procura dos médicos, estavam uns médicos sentados num grupo e dirigi-me a eles. Perguntei se não tinha entrado um estudante com um tiro e o que é que tinha acontecido e eles, a olhar para mim, disseram que não me podiam dizer. Para eles não me poderem dizer, soube logo o que tinha acontecido, saí e comecei a subir uns degraus. Veio um médico atrás de mim, lá deve ter furado o que tinham acordado, se é que tinham acordado alguma coisa uns com os outros, e disse-me que ele tinha morrido.

Saí pela entrada principal do hospital para me dirigir à cantina, mas entretanto encontrei o Fraga, um estudante que eu conhecia, que não era do MRPP. Contei-lhe o sucedido e fomos os dois para a cantina a convocar as pessoas para estarem às 9 da noite, na cantina do Técnico, e dali seguimos, acompanhados por estudantes, cujo número ia aumentando, para as cantinas todas. Fomos a Ciências, a Económicas, à residência do Lumiar, fomos a todo o lado e assim convocámos muita gente, pois era a hora do jantar. Feita essa reunião, nessa noite saiu o comunicado dos estudantes à população, um comunicado dos estudantes em geral e não apenas da linha associativa afecta ao MRPP, que em Direito se chamava “Ousar Lutar, ousar vencer”. Noutras faculdades, havia uma corrente diferente chamada “Onde há repressão há resistência”. O comunicado foi feito na associação de estudantes do Técnico, com os meios deles, embora com alguma resistência inicial.

A seguir à morte de Ribeiro Santos, aquela coisa que estava a germinar na faculdade de Direito, que eu sempre vi, tornou-se imparável. Grande parte das pessoas foi decididamente do MRPP nessa altura, juntou-se às posições que o Ribeiro Santos tinha defendido e defendeu-as. Politizaram-se, de uma forma ou de outra. Foi a politização da Universidade e não foram só os estudantes. Houve professores que se juntaram aos estudantes. Lembro-me dos professores Luís Silveira, Miguel Galvão Teles e Isabel de Magalhães Colaço, pessoas democratas, que tomaram uma posição, que nem sempre foi conhecida depois do 25 de Abril. No dia seguinte à morte de Ribeiro Santos, o professor Luís Silveira tomou a decisão de não dar a aula prevista no horário, como forma de protestar contra o seu assassinato.

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O funeral

No dia do funeral do Ribeiro Santos, as pessoas foram para o largo em frente da casa dele, que é hoje e sempre será a Calçada Ribeiro Santos. O largo estava absolutamente cheio, as pessoas foram efectivamente prestar-lhe homenagem. Estava ali uma parte grande de Lisboa.

Os estudantes saíram de casa do Ribeiro Santos com o caixão aos ombros para o levarem a pé até ao cemitério da Ajuda, mas a polícia carregou sobre eles e sobre as pessoas que estavam ali à volta, de tal maneira que o caixão esteve quase a cair, até que o meteram no carro funerário, que seguiu para o cemitério.

As pessoas não puderam fazer o funeral a pé, como se tinham proposto, mas saíram dali em manifestação a correr até ao cemitério da Ajuda. Era um grupo grande a correr e então assisti a um exemplo significativo da politização cada vez mais geral que então se vivia. O regime não era aceite pela maior parte das pessoas e por isso o 25 de Abril não foi assim uma coisa que tivesse acontecido do dia para a noite. Lembro-me que, em Alcântara, chegámos a uma passagem de nível, que tinha a cancela fechada, porque ia passar um comboio e vinham os carros da policia atrás de nós. O comboio parou para nos dar passagem, saltámos a cancela para o outro lado e depois de termos atravessado retomou a marcha e os carros da polícia ficaram retidos. Isto é uma coisa que eu tenho muito presente: a sensação de saltarmos a cancela e quando chegámos ao cemitério as portas estarem fechadas, já tinha chegado o carro funerário.

Ali ao lado do cemitério, do lado de baixo, na Calçada do Galvão, havia uma espécie de hortinhas, que ainda la estão, que faziam uns socalcos. Então eu e mais uns 4 camaradas subimos para lá, saltámos para dentro do cemitério e conseguimos chegar ao sítio onde estava a cova e a urna. Estavam lá muitas pessoas que não tinham estado no largo, não eram daqueles que tinham ido na manifestação, com muitos polícias e pides à volta da urna. Eu sei que eram, porque os reencontrei depois e eles nunca mais deixaram de me conhecer. Quando vai descer o caixão, as pessoas que ali estavam começam a cantar o hino nacional, o que naquelas circunstâncias não me pareceu apropriado. O Ribeiro Santos tinha a mesma opinião a respeito do hino nacional e algumas vezes tínhamos falado acerca disso.

Os pides e os polícias perfilaram-se e nós, os poucos que tínhamos conseguido saltar o muro, gritávamos “Assassinos!” “Assassinos!” e aproveitámos aquela parte do hino que é “Às armas! Às armas”, para gritarmos aquilo o mais alto que podíamos. Gritámos ali o que tinha de ser gritado e isso foi uma coisa que eles nunca me perdoaram, nem eu quis que me perdoassem, só sei que foi uma coisa de que mais tarde me falaram muito.

Depois continuámos, mas com muita dificuldade. Lembro-me de termos ido a um restaurante no Campo Grande, íamos lá algumas vezes, pedimos uma travessa de arroz de marisco, éramos nove e sobrou. Aquilo era mais ou menos assim: nós fomos às manifestações, os que puderam levaram o caixão aos ombros e há muitas fotografias desse momento, distribuímos comunicados, mas as pessoas não estavam em si – e eu acho que ainda hoje não estão. Sabíamos que corríamos riscos, mas não estávamos à espera daquela morte. Quando parámos, não conseguíamos suportar. Uma coisa é estar-se numa manifestação sob o efeito da adrenalina, outra é quando pára. Fica-se desconcertado e era como nós estávamos. A reacção não foi só nossa. Foi uma reacção geral dos estudantes e da população.

Depoimento de Aurora Rodrigues, no livro “Gente comum: uma história na PIDE”. 

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