(no aniversário da morte de Francisco Ferrer) Viva a Escola Moderna!


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Barcelona, 13 October 1909. (Flavio Costantini, 1965. Tempera, 50 x 64 cm)

As ideias de Ferrer Guardia, fuzilado em 1909, foram o início do desenvolvimento de uma pedagogia do livre pensamento.

Julián Vadillo , historiador

A 13 de Outubro de 1909 era fuzilado nos fossos do castelo de Montjuic, o pedagogo libertário Francisco Ferrer Guardia. Tinha sido acusado, julgado e condenado como sendo o instigador dos acontecimentos ocorridos em Barcelona entre 26 de Julho e  2 de Agosto desse mesmo ano, no que ficou conhecido como a Semana Trágica de Barcelona. Não era a primeira vez que Ferrer enfrentava um tribunal, acusado de algo que não tinha cometido. A diferença com as ocasiões anteriores foi que, em Outubro de 1909, o objectivo cumpriu-se: fuzilar Ferrer.

Mas quem era esse Ferrer Guardia que alguns sectores da sociedade espanhola tanto odiavam? Que tinha feito Ferrer para que o seu destino fossem os fossos do temido castelo de Montjuic?

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Um pedagogo ao serviço do Povo

Francisco Ferrer Guardia nasceu em Alella a 14 de Janeiro de 1859. Filho duma família de camponeses acomodados e católicos, não teve toda a formação que gostaria. Para mais, imbuído das ideias de um dos seus professores, foi adquirindo pouco a pouco uma consciência republicana e anticlerical.

Ainda adolescente mudou-se para Barcelona, onde começou a trabalhar. Ali, Ferrer foi-se aproximando do pensamento republicano de Manuel Ruiz Zorrila, partidário duma estratégia insurreccional que derrubasse o trono de Afonso XII e dos seus sucessores. Foi por isso que Ferrer Guardia apoio, em 1884, o levantamento republicano de Santa Coloma del Farnés, assim como a intentona do general Villacampa.

Embora fosse muito próximo de Ruiz Zorrilla, Ferrer foi-se interessando cada vez mais pelas correntes da renovação pedagógica e pelo livre pensamento, o que o fez entrar em contacto com o anarquismo. O movimento libertário era um formigueiro de renovação no âmbito educativo.

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Muitos dos seus elementos preocuparam-se desde muito cedo pela educação e instrução dos filhos da classe operária. Em vários centros de cultura libertária foram-se inaugurando escolas e aulas de alfabetização com a ideia de contrapor à educação e à cultura burguesas uma educação baseada nos princípios básicos do anarquismo. Ainda que com polémicas e debates internos, os anarquistas foram inaugurando iniciativas, chegando inclusivamente a fundar escolas laicas ou a estar na órbita de iniciativas laicistas em que também participavam republicanos progressistas. Ferrer esteve envolvido neste processo.

Devido a problemas conjugais, nos quais a sua primeira esposa quase acaba com a sua vida, o casamento termina com a separação de ambos e a saída dele para a Europa. Em França, Ferrer conhece em primeira mão as correntes pedagógicas de renovação, dos jardins-de-infância, etc. Mas, sobretudo, é influenciado pelo método pedagógico que Paul Robin desenvolveu no orfanato de Cempuis e nas correntes pedagógicas que Charles Malato ou Jean Grave defendem nas suas obras. Estas iniciativas começam a fazer Juan Ferrer pensar em fundar uma escola quanto voltar a Espanha.

Graças a uma herança recebida, Ferrer regressa a Espanha e, em Agosto de 1901, funda a Escola Moderna em Barcelona, com sede na rua Bailém. Um projecto baseado na pedagogia racional e libertária que não deixou ninguém indiferente.

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A pedagogia da Escola Moderna

Através da Escola Moderna, Ferrer tentou desenvolver um modelo de pedagogia baseado na coeducação de sexos, no ensino ao ar livre, no professor como instrutor, mas nunca como portador da verdade absoluta, ter a ciência como eixo básico do ensino e tirar a religião de todo o âmbito educativo. A tarefa dos integrantes da Escola Moderna foi mostrar, através dos princípios racionais, as desigualdades sociais e instruir os rapazes e as raparigas nos valores da liberdade, igualdade e fraternidade. Uma educação que defendia o movimento operário e de que o movimento operário se servia.

A Escola Moderna teve instalações adaptadas ao seu método pedagógico e fundou uma editora em que publicou os textos mais avançados da época. Outros libertários, livre pensadores e republicanos da época uniram-se em torno do projecto de Ferrer. Anselmo Lorenzo, um dos fundadores da Primeira Internacional em Espanha e firme partidário da educação racionalista, foi um dos seus mais firmes defensores. Mas também outras personalidades da época como Odón de Buen, um dos melhores naturalistas da altura, ou Santiago Ramón y Cajal, Luis Bulfi, Andrés Martinez y Vargas.

A Escola Moderna era o plasmar de uma trajectória de pedagogia impulsionada pelo anarquismo espanhol que partia das origens da Primeira Internacional e que teve outros representantes como José Sánchez Rosa.

Era de supor que esta iniciativa, tão afastada dos cânones pedagógicos de uma Igreja católica que controlava a educação a todos os níveis, não ia ser bem recebida. Desde o primeiro momento, a Escola Moderna de Ferrer, como muitos outros projectos pedagógicos da época baseados no laicismo, sofreram duros ataques por parte da Igreja. Em numerosas ocasiões a Escola Moderna foi fechada por ordem do governo. Mas sempre voltava a a retomar as aulas.

O ponto de não retorno para o projecto deu-se em Maio de 1906. No último dia desse mês, o anarquista Mateo Morral lançou um ramo de flores com uma bomba camuflada contra o cortejo nupcial de Afonso XII na rua Mayor de Madrid. A bomba causou 23 vítimas e poucos dias depois Mateo Morral aparecia morto. A versão oficial dizia que se tinha suicidado, mas investigações recentes asseguram que foi assassinado.

Seja como for, Mateo Morral tinha trabalhado como bibliotecário na Escola Moderna de Ferrer. Esse facto foi determinante para a detenção de Ferrer e o encerramento da Escola Moderna. Por este atentado foi também detido o jornalista José Nakens, fundador de “El Motín” que foi acusado de  dar protecção a Morral. Ainda que o julgamento contra Ferrer, Nakens e outros tenha acabado pela absolvição, a Escola Moderna não voltou a abriri as suas portas aos alunos. Só a editora se manteve com o projecto.

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O golpe de graça: a Semana Trágica de Julho de 1909

Uma vez livre, Ferrer continuou com as suas tarefas pedagógicas e a trabalhar à frente da sua editora, com a ideia de que a Escola Moderna voltaria a abrir as portas.

Era um momento tenso na história de Espanha. O governo de António Maura mantinha um braço de ferro nas colónias marroquinas. As notícias do desastre no Barranco del Lobo, a 27 de Julho de 1909, em que perderam a vida dezenas de soldados espanhóis e em que centenas ficaram feridos, fizeram o governo tomar a decisão de mobilizar os reservistas. Uma decisão que teve como resposta do movimento operário em Barcelona, representado por anarquistas e socialistas filiados na Solidaridad Obrera e no PSOE, a convocatória duma greve geral contra a mobilização.

Nas reivindicações dos operários estavam exigências laborais e sociais. Em nenhum momento o Comité de Greve – composto pelo sindicalista Miguel V. Miranda, de Solidaridad Obrera; Francisco Miranda, em representação dos grupos anarquistas, e por ele socialista Antonio Fabra Ribas – abordou o tema religioso. No entanto, uma massa de gente lançou-se contra os edifícios religiosos da cidade, tendo alguns autores visto aqui a influência de Alejandro Lerroux e o seu Partido Radical, que não estavam entre os convocantes da greve.

Durante uma semana houve confrontos em Barcelona entre as forças de ordem pública e os grevistas, cujo número cresceu pelos soldados que iam embarcar no porto de Barcelona para Marrocos. No final, as autoridades controlaram a situação e começou uma política repressiva contra os grevistas, que terminou em conselhos de guerra e fuzilamentos.

Os fuzilados foram: José Miguel Baró, um republicano, a 17 de Agosto; Antonio Malet Pujol, lerrouxista, a 13 de Setembro; Clemente García, um jovem deficiente psíquico acusado de dançar com a múmia de uma freira na rua, e Eugenio del Hoyo, ex-guarda civil, acusado de promover os confrontos.

Mas faltava ainda o mais importante. As autoridades começaram a acusar Ferrer de ser o instigador dos acontecimentos. A sal pedagogia era condenada, a partir dos jornais católicos, como perversa. Acusava-se Ferrer de envenenar a infância e a juventude num anticlericalismo violento. As acusações de instigação não foram provadas porque Ferrer não foi instigador de nada. Para mais, naquela altura ele não estava em Barcelona e não participou em nenhuma mobilização.

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Cemitério de Montjuic: as campas de Ferrer, Ascaso e Durruti

Apesar de tudo, o julgamento político contra Ferrer consumou-se. Levantou-se em Espanha e em todo o mundo uma onda de protestos em defesa de Ferrer e  acusando a existência de uma nova inquisição em Espanha. Personalidades de primeira ordem a nível internacional, como Anatole France, William Archer, Piort Kropotkin, George Bernard Shaw, Arthur Conan Doyle ou H.G. Wells pediram a inocência de Ferrer.

Mas o destino do pedagogo estava decidido. A 13 de Outubro de 1909 era fuzilado em Montjuic, onde em anos anteriores tinham sido fuzilados outros libertários e onde anos depois outros o seriam também.

Com Ferrer fuzilado, a indignação cresceu. António Maura viu-se obrigado a demitir e Afonso XIII foi expulso da Academia das Ciências de Paris. Contudo, sectores eclesiásticos e conservadores celebraram a morte de Ferrer.

Mas no interior do movimento operário, as ideias pedagógicas de Ferrer foram o início do desenvolvimento duma pedagogia posta em prática pelos anarquistas e em que, inclusivamente, se baseou parte da legislação educativa da Segunda República.

Hoje a campa de Ferrer pode ser visitada no cemitério de Montjuic, ao lado das de Ascaso e Durruti, e em Bruxelas uma estátua honra o livre pensamento.

aqui: https://www.diagonalperiodico.net/saberes/31859-francisco-ferrer-guardia-viva-la-escuela-moderna.html

Tradução Portal Anarquista

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Programa da Escola Moderna

A missão da Escola Moderna consiste em fazer com que os meninos e as meninas que lhe forem confiados se tornem pessoas instruída, verdadeiras, justas e livres de qualquer preconceito.

Para isso, o estudo dogmático será substituído pelo estudo racionalizado das ciências naturais.

Ela estimulará, desenvolverá e dirigirá as aptidões próprias de cada aluno, a fim de que, com a totalidade do próprio valor individual, não somente seja um membro útil à sociedade, mas que, como consequência, eleve proporcionalmente o valor da coletividade.

Ela ensinará os verdadeiros deveres sociais, conforme a justa máxima: Não há deveres sem direitos; não há direitos sem deveres.

Em vista do bom êxito que o ensino misto obtém no estrangeiro, e, principalmente, para realizar o propósito da Escola Moderna, encaminhado à preparação de uma humanidade verdadeiramente fraternal, sem categoria de sexos nem classes, serão aceites crianças de ambos os sexos a partir da idade de cinco anos.

Para completar a sua obra, a Escola Moderna abrirá nas manhãs de domingo, consagrando a aula ao estudo dos sofrimentos humanos durante o curso geral da história e à recordação dos homens eminentes nas ciências, nas artes ou nas lutas pelo progresso.

A estas aulas poderão assistir as famílias dos alunos .

Querendo que o trabalho intelectual da Escola Moderna seja frutífero no futuro, além das condições higiénicas que temos procurado dar ao local e às suas dependências, será estabelecida uma inspecção médica quando da entrada do aluno, cujas observações, se considerado necessário, serão transmitidas à família para os efeitos adequados, e, em breve, uma inspecção periódica, com o objectivo de evitar a propagação de doenças contagiosas durante as horas de convivência escolar.

Extraído da obra de Francisco Ferrer  Guardia, “A Escola Moderna”.

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