Açores: apenas 35 por cento dos eleitores votou em partidos


acores

As elevadas taxas de abstenção nos últimos actos eleitorais têm um significado: o de que o actual sistema político não responde às expectativas dos cidadãos.

É sabido que os anarquistas, precisamente por considerarem que todos os cidadãos devem estar em igualdade de circunstâncias e que não devem abdicar da sua capacidade de auto-representação, não se revêm nos sistemas eleitorais vigentes nos países democráticos – e menos ainda nos sistemas totalitários de países de partido único – por os considerarem pouco igualitários e serem apenas uma forma de dar continuidade ao sistema de exploração e opressão capitalista que combatemos.

O Estado não é neutro. As cadeiras do poder, esteja lá quem estiver, são sempre as cadeiras da gestão do capital. As transformações sociais nunca aparecerão pela mão do Estado, mas sim pela auto-organização, horizontal, dos cidadãos em torno dos seus objectivos concretos (seja nos locais de trabalho, de residência, de lazer, etc.).

Apesar disto, e de, em geral, apelarem à abstenção nos diversos actos eleitorais, os anarquistas nunca – ou muito raramente e apenas em casos excepcionais – consideram a abstenção como uma resposta aos seus apelos, ou o número de abstencionistas como apoiantes da sua causa. Sabem que há muitas razões para a abstenção e que nem todas têm como motivo as razões invocadas pelos libertários.

No entanto, nos últimos actos eleitorais –seja em Portugal, Brasil ou outros países – a abstenção tem atingido números recorde. Ontem, nos Açores, a abstenção ficou nos 60 por cento, o que somado aos 5% de votos brancos e nulos, faz com que apenas 35 por cento da população açoriana tenha votado nos 13 partidos concorrentes ao acto eleitoral.

Este tão alto nível de abstenção tem significado. E esse significado tem necessariamente a ver com o nível de desilusão dos eleitores com o sistema representativo e com a experiência ganha em mais de 40 anos de actos eleitorais, que fez com que muitos cidadãos tenham já chegado à conclusão de que o voto não muda nada de significativo, a não ser de vez em quando os rostos de quem ocupa as cadeiras do poder, mas cujas políticas – à esquerda e à direita – são necessariamente as mesmas, em traços gerais, uma vez que estão ali apenas em representação dos interesses do Capital.

O capitalismo, com as eleições, mas não só, conseguiu esta proeza de – esteja quem estiver no aparelho de estado – estar sempre a defender os interesses do Capital e da propriedade (seja privada ou do Estado) e não os daqueles que diz estar a representar – o povo.

E, neste sentido, cada vez é mais claro para milhões de eleitores em todo o mundo que se votar significasse a possibilidade de mudar alguma coisa de significativo, e não apenas alternar os grupos que se revezam no poder, há muito que as eleições seriam proibidas – aliás, como ainda acontece nalgumas ditaduras de partido único em que o grupo no poder não quer partilhá-lo com mais ninguém.

 Não é o caso das democracias, onde o poder é partilhado e ocupado (à vez ou em coligação) por vários partidos – mas em que a gestão que é feita é sempre a mesma e visa um mesmo objectivo: a reprodução do capital, a sua manutenção e o primado do lucro antes da vida.

Estes números da abstenção mostram que o sistema representativo já não responde (terá alguma vez respondido?) às necessidades dos tempos que correm e que, cada vez mais, se impõe uma lógica de democracia directa, descentralizada e, sempre que possível, assemblearia (até usando os novos recursos informáticos), em que os interesses das populações, a sua vontade, se sobreponham aos interesses mercantilistas do capitalismo e da sociedade dividida em classes, que tem no Estado (e nos seus aparelhos ideológicos e repressivos) o último suporte.

antónio a.

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