Carlos Taibo: “Sobre o colapso [geral do sistema]”


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Carlos Taibo e Silvério Rocha-Cunha (da Universidade de Évora) durante uma conferência sobre Decrescimento na Universidade de Évora. Maio de 2015.

Escreve Carlos Taibo: “Acabo de publicar um livro intituladoColapso. Capitalismo terminal, transição ecosocial, ecofascismo’ (Los Livros de la Catarata). Permito-me resumir aqui, fundamentalmente por razões pedagógicas, algumas teses que defendo nesta obra…. Faço-o, também, na certeza de que o debate relativo a um eventual colapso geral do sistema em que padecemos falta, duma forma apelativa, tanto nos meios de incomunicação como entre os responsáveis políticos. Dito isto, acrescento que não estou em condições de afirmar taxativamente que se vai produzir um colapso geral e menos ainda quanto a adiantar uma data a esse respeito. Limito-me a assinalar que o colapso é provável. Não apenas isso: os dados que nos vão chegando convidam-nos a concluir que é cada vez mais provável, o que, só por si, nos devia levar a assumir uma estratégia de reflexão, de prudência e, claro, de acção.”

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    1.O que é o colapso?

O colapso é um processo, ou um momento, de que derivam várias consequências delicadas: mudanças substanciais, e irreversíveis, em muitos aspectos; profundas alterações no que se refere à satisfação das necessidades básicas; reduções significativas na dimensão da população humana; uma perda geral de complexidade em todos os âmbitos – acompanhada de uma crescente fragmentação e de um retrocesso dos fluxos centralizadores -; a desaparição das instituições previamente existentes e, por fim, a quebra das ideologias legitimadoras e de muitos dos mecanismos de comunicação da ordem anterior

De qualquer modo, interessa sublinhar que alguns dos traços que se atribuem ao colapso não têm necessariamente uma condição negativa. Tal é o caso dos que se referem à reruralização, aos ganhos em termos de autonomia local ou a um retrocesso generalizado dos fluxos hierárquicos. Dito isto, é razoável acrescentar que o conceito de colapso tem uma certa dimensão etnocêntrica: é muito difícil – ou muito fácil – explicar o que é o colapso a uma criança nascida na Faixa de Gaza; não o é tanto, pelo contrário, fazê-lo entre nós.

  1. Quais são as causas previsíveis de um colapso geral do sistema?

De acordo com uma visão muito alargada, e controversa, havia que identificar duas causas principais do colapso, ainda que nos bastidores existissem outras, que chegado o momento, poderiam ter um papel proeminente ou agir como multiplicadores de tensão. As duas causas principais são as mudanças climáticas e o esgotamento das matéria-primas energéticas que usamos.

No que diz respeito às mudanças climáticas, parece inevitável que a temperatura média do planeta suba, pelo menos, dois graus relativamente aos níveis anteriores à era industrial. Quando se alcançar esse momento ninguém sabe o que virá depois, para além da certeza que não será nada necessariamente salutar. São conhecidas, no entanto, as consequências espectáveis das mudanças climáticas: para além de um aumento geral das temperaturas irá haver – já existe – uma subida do nível do mar, um degelo progressivo dos polos, a desaparição de muitas espécies, o aumento da desertificação e da desflorestação e, por fim, problemas crescentes nas áreas da agricultura e da criação de gado.

No que diz respeito ao esgotamento das matérias-primas energéticas, o primeiro que tem que se sublinhar é a nossa dramática dependência em relação aos combustíveis fósseis. Se renunciarmos ao petróleo, ao gás natural e ao carvão, não ficará nada da nossa civilização termo-industrial. Segundo uma estimativa, sem esses combustíveis 67% da população do planeta pereceria. Antonio Turiel refere que o pico conjunto das fontes não renováveis se dará em 2018, após o que a produção deste tipo de energia se reduzirá e os preços aumentarão num cenário em que se terá que canalizar cada vez mais energia para obter cada vez menos energia. Ainda que se possam imaginar mudanças na combinação das fontes que hoje usamos, com um maior peso, por exemplo, de renováveis e de carvão, não há substitutos a curto e médio prazo para as fontes de energia actuais. Qualquer mudança exigirá, inequivocamente, transformações caríssimas.

Entre os elementos que acompanham o colapso e que podem adquirir, se isso acontecer, um relevo destacado podem-se destacar os seguintes: a) a crise demográfica; b) uma delicadíssima situação social, com mais de 3.000 milhões de seres humanos condenados a malviver com menos de 2 dólares diários; c) o esperado aumento da fome, acompanhada, em muitos casos, pela escassez de água; d) o aumento das doenças, na forma de epidemias e pandemias, a multiplicação dos cancros e das doenças cardiovasculares e a reaparição de doenças como a tuberculose; e) um ambiente terrível para as mulheres – são 70% dos pobres e realizam 67% do trabalho, para receberem apenas 10% do rendimento; f) o presumível efeito multiplicador da crise financeira, com as suas sequelas em forma de caos, instabilidade, perda de confiança e incerteza; g) a falência de muitos Estados, estreitamente vinculada com as guerras de rapina desferidas pelas potências do Norte; h) as sequelas da subordinação da tecnologia aos interesses privados; i) uma pegada ecológica em crescendo – o espaço bioprodutivo consumido hoje é de 2,2 hectares por habitante, acima dos 1,8 hectares que a Terra tem à nossa disposição, e j) uma inquietante idolatrai do crescimento económico.

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Carlos Taibo na Boesg (Lisboa), Maio de 2015

  1. Quais são os traços previsíveis do cenário posterior ao colapso?

Qualquer resposta a essa pergunta tem que ser, por força, necessariamente especulativa. Para que isso não acontecesse teríamos que conhecer as principais causas do colapso, se este tem um carácter repentino ou não, as suas eventuais variações geográficas ou a natureza das reacções que suscita. Nem sequer é possível determinar o momento do colapso, ainda que possa referir que muitos analistas têm como referência os anos entre 2020 e 2050.

Ainda que, e já que se trata de identificar os traços gerais da sociedade pós-colapso, possam ser estes: a) uma escassez geral de energia, com efeitos visíveis em matéria de transporte, abastecimentos e turismo, em paralelo com uma desglobalização geral; b) graves problemas para a preservação de muitas estruturas de poder e dominação, e em particular para as mais centralizadas e tecnologizadas; c) uma confrontação aguda entre movimentos centralizadores, hipercontroladores e híper-repressivos, por um lado e, por outro lado, correntes descentralizadoras e liberalizantes; d)preocupantes confusões entre o público e o privado, com um evidente aumento da violência, de que serão vítimas principalmente as mulheres; 2) um cenário económico geral marcado por uma redução do crescimento, o encerramento massivo de empresas, o aumento do desemprego, a desintegração dos ditos Estado do bem-estar, a subida dos preços dos produtos básicos, a falência do sistema financeiro, o desmoronar das pensões e retrocessos visíveis na saúde e na educação; f) uma degradação geral das cidades, com perda de habitantes e crescentes desigualdades; g) um cenário delicado no mundo rural, em resultado de uma má gestão dos solos, da monocultura, da mecanização e da mercantilização, e h) uma redução da população do planeta.

No caso concreto da Península Ibérica, temos maus antecedentes, como o testemunham o abandono das energias renováveis, o desperdício e a escassa eficiência energética, a aposta lamentável na alta velocidade ferroviária e nas auto-estradas, a baixa produção de matérias-primas energéticas, o alto consumo de petróleo e, por fim, sempre presente, a dívida. As mudanças climáticas vão-se traduzir, antes do mais numa enorme subida das temperaturas na metade meridional da península, com efeitos graves sobre a agricultura e uma profunda crise da indústria turística. À margem disto, vão existir fenómenos planetários como os relacionados com a falência de empresas, a exploração laboral, o empobrecimento, a crise financeira, a desnutrição, a degradação da saúde e o descrédito das instituições.

  1. O que é que os movimentos pela transição eco-social propõem como alternativa?

Substantivamente o que propõem não é outra coisa senão uma recuperação do velho projecto libertário de uma sociedade auto-organizada desde baixo, desde a autogestão, desde a democracia e da acção directas, e a partir do apoio-mútuo.

Se se trata de identificar, de algum modo, os traços dessa transição eco-social, e do cenário final que a acompanha, podem ser os seguintes: a) a reaparição, no terreno energético, de velhas tecnologias e hábitos, num cenário de menor mobilidade e de retrocesso visível do automóvel em proveito do transporte público; b) o desenvolvimento de um sem-fim de economias locais descentralizadas; c) o estabelecimento de formas de trabalho mais duras, mas num ambiente melhor, sem deslocações, com ritmos mais lentos, com o objectivo de garantir a auto-suficiência, e sem empresários nem exploração; d) a progressiva remissão da sociedade patriarcal, num cenário de divisão das tarefas e de retrocesso da pobreza feminina; e) uma redução de oferta de bens, e em particular de produtos importados, num marco de simplicidade de sobriedade e de simplicidade voluntárias; f) a recuperação da vida social e das práticas de apoio mútuo; g) uma saúde descentralizada baseada na prevenção, nos cuidados primários e na saúde pública, com um menor uso de medicamentos; h) o desenvolvimento de fórmulas de educação/deseducação extremamente descentralizadas; i) uma vida política marcada pela autogestão e pela democracia directa; j) uma desurbanização generalizada, com redução da população das cidades, expansão da vida dos bairros e um progressivo desaparecimento da separação entre meio urbano e rural, e k)uma activa reruralização, com crescimento da população do campo num cenário definido pelas pequenas explorações e cooperativas, a recuperação das terras comunais e o desaparecimento das grandes empresas. Cinco verbos resumem, talvez, o sentido de fundo de muitas destas transformações: decrescer, desurbanizar, destecnologizar, despatriarcalizar e descomplexizar.

     5.O que é o eco-fascismo?

Ainda que o prefixo “eco-“ se costume identificar com realidades agradáveis, convém assinalar que no partido nazi, o partido de Hitler, existia um poderoso grupo de pressão de carácter ecologista, defensor da vida rural e receoso das consequências da industrialização e da tecnologização. É verdade que este projecto se direccionava em favor de uma raça eleita que devia impor-se, sem olhar a meios, a todos os outros…

Carl Amery já referiu que estaríamos muito enganados se concluíssemos que as políticas abraçadas pelos nazis alemães há 80 anos remetem para um momento histórico muito particular, conjuntural e, por isso, felizmente irrepetível. Pelo contrário, Amery convoca-nos a estudar essas políticas porque podem reaparecer nos nossos dias, agora não defendidas por grupos neonazis ultra-marginais, mas sim potencializadas por alguns dos principais centros de poder político e económico, cada vez mais conscientes da escassez geral que se avizinha e cada vez mais decididos a preservar esses recursos escassos numas poucas mãos através de um projecto de darwinismo social militarizado, isto é, de eco-fascismo.

Este último, que numa das suas principais dimensões responde a alegadas exigências demográficas, exigiria a marginalização, neste caso o extermínio, de boa parte da população mundial e teria já manifestações evidentes na renovada lógica imperial adoptada pelas potências ocidentais. A verdade é que o cenário geral de crise energética pode enfraquecer sensivelmente os activos servindo um projecto eco-fascista.

  1. O que é que as pessoas comuns pensam do colapso?

O colapso suscita reacções variadas. Uma delas assenta, sem mais, na ignorância, visivelmente induzida pelo negacionismo que as grandes empresas defendem relativamente às mudanças climáticas ou ao esgotamento do petróleo. Uma segunda reacção bebe dum optimismo sem freio, traduzido numa fé cega que aquilo que desejamos será realidade, na ideia de que as mudanças vão ser lentas, previsíveis e geríveis e de que ainda temos tempo ou, por fim, na confiança nos governantes. Uma terceira posição é a daqueles que acreditam que inexoravelmente vão aparecer tecnologias que permitirão resolver todos os problemas. Não faltam , num quarto grupo, os que preferem juntar-se ao carpe diem (do latim: aproveita o momento. NdE) e, por isso, consideram que só nos devemos preocupar com o mais imediato e com o que estiver mais perto. Há quem se esconde, também, no conceito de culpa e conclui ou que não tem obrigação nenhuma de resolver os problemas criados por outros, ou que a espécie humana tornou-se merecedora, pela sua conduta, de um castigo severíssimo.

Nesta mesma ordem de pensamento, Elisabeth Kubler-Ross identificou cinco etapas no processo de colapso: a negação, a angústia, a adaptação, a depressão e a aceitação. Por detrás de muitas das reacções mencionadas nota-se, de qualquer modo, o desígnio em boa parte da população do Norte opulento de não renunciar ao seu modo de vida actual e de preservar os actuais níveis de consumo e de status social. E nota-se também uma firme recusa em pensar nas gerações vindouras e nas demais espécies que nos acompanham na Terra.

  1. Esquivar-se ao colapso?

O capitalismo é um sistema que demonstrou historicamente uma capacidade formidável de adaptação aos desafios mais dispares. Hoje a grande pergunta é a relativa a se, levado por um impulso incontrolável para acumular lucros espectaculares num período de tempo muito breve, não está a cavar a sua própria sepultura , com a agravante, claro, de que na sepultura estamos nós.

Face ao risco de um colapso próximo, em alternativa, as respostas são, substancialmente, duas. Enquanto a primeira julga que não existe outro horizonte senão esperar que chegue esse colapso – será o único caminho que permite à maioria dos seres humanos aperceberem-se dos seus deveres -, a segunda considera que há que sair com urgência do capitalismo e que, a este respeito e de forma provisória, o que se acha ao nosso alcance é abrir espaços autónomos autogestionados, desmercantilizados e, oxalá, despatriarcalizados, criar condições para a sua federação e aumentar a sua dimensão de confronto com o capital e o Estado. Se uns interpretam que estes espaços servirão para nos esquivar ao colapso, outros acreditam que é melhor concebe-los como escolas que nos prepararão para sobreviver num cenário posterior àquele. De qualquer modo, o mais provável, é que não consigamos evitar o colapso: o que está ao nosso alcance e, pelo contrário, adiar um pouco o seu aparecimento e, talvez, mitigar algumas das suas dimensões mais negativas.

De qualquer modo, parece claro que não há nenhum motivo sério para depositar qualquer esperança nas instituições do sistema, submetidas aos interesses privados, hierarquizadas, militarizadas e aberrantemente vendo apenas o curto-prazo. Uma das principais estratégias do capitalismo contemporâneo beneficia da enorme habilidade que o sistema mostra quando é o momento de fazermos as perguntas importantes. E nestes momentos o principal empenho do capitalismo consiste em procurar desesperadamente matérias-primas e tecnologias que nos permitam conservar aquilo de que hoje dispomos, sem permitir que nos questionemos sobre o mais importante: interessa-nos realmente conservar isto que temos hoje ou, melhor dito, com que apenas contam uns poucos?

Aqui: http://kaosenlared.net/carlos-taibo-sobre-el-colapso-general-del-sistema/

Tradução: Portal Anarquista

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