Para compreender a situação que se vive na Síria


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A guerra civil síria tornou-se, em boa parte, o teatro de um confronto indirecto entre potências estrangeiras. Rússia, Estados Unidos, Irão, Turquia, França, petromonarquias…Quem quer o quê? E onde está Rojava no meio de tudo isto? Um artigo de descodificação e de hipóteses publicado hoje (18/10/2016) no site da Alternative Libertaire

Síria: no meio da salgalhada imperialista

Em Setembro, pela terceira vez este ano, a Síria viu falhar uma nova tentativa de tréguas patrocinada pela Rússia e pelos Estados Unidos. Este falhanço deveu-se, sobretudo, à multiplicação, no seio da guerra civil, de grupos armados com objectivos contraditórios, às alianças entre movimentos, aos apoios duvidosos. É difícil fazer respeitar um cessar-fogo nestas condições. No entanto, mais do que nunca, Moscovo e Washington aparecem como a dupla sem a qual nada se pode fazer na Síria. Para grande irritação das outras potências com intervenção no conflito – Irão, França, Turquia, Arábia Saudita… – , mantidas à distância dos conciliábulos russo-americanos ou convidadas para conferências multilaterais inúteis, como a de Lausanne, a 15 de Outubro [1]

Foi essencialmente devido às intervenções estrangeiras que a revolução de 2011 degenerou, já em 2012, em guerra civil. Nesta salgalhada de imperialismos, cada qual persegue objectivos, faz apostas, testa os seus parceiros e adversários… E durante este período, a população civil, refém deste jogo cruel, foge aos milhares.

O que quer a Rússia…

Antes de tudo o mais, Moscovo quer conservar a Síria na sua órbita. Este país, aliado desde 1971, acolhe o único ponto de ancoragem da frota russa no Mediterrâneo: Tartous. Mas ficar na Síria não significa necessariamente conservar Bachar el-Assad. Depois de cinco anos de massacres, todos sabem que o ditador nunca mais terá autoridade para reinar sobre a totalidade do país. O ideal seria, por isso, negociar e obter um acordo entre Assad e a oposição não jihadista. Seguia-se uma transição que duraria um ano ou dois, para um governo de união nacional apadrinhado por Moscovo… e desembaraçado do comprometedor Assad. Pode-se imaginá-lo a acabar os seus dias num exílio dourado na Rússia ou no Irão. Este acordo permitiria isolar e desagregar as forças jihadistas – Daesh e a Frente Fatah al Cham (ex-Frente Al Nosra, ligada à Al Qaeda) – que prosperam sobre o caos generalizado.

Mas há vários obstáculos neste cenário: primeiro, Assad pode mostrar-se indócil e, para resistir ao seu afastamento, sabotar um eventual processo de paz; segundo, as cidades e as brigadas rebeldes que aguentaram durante cinco anos as cargas explosivas e os ataques químicos, dificilmente aceitarão que Assad deixe a Síria; terceiro, no terreno (nomeadamente em Alepo) uma boa parte das brigadas rebeldes têm necessidade, para se manterem, de se aliarem à Frente Fatah al Cham e não estão dispostas a renunciar a essas alianças devido a quaisquer hipotéticas negociações de paz.

O que querem os Estados Unidos…

Washington nunca fez do derrube de Bachar el-Assad uma prioridade. Quando François Hollande quis atacar Damasco, em Setembro de 2013, Obama recusou de imediato. Desde o Verão de 2014 é ainda mais claro: a prioridade é a destruição do Estado Islâmico e, em menor grau, da Fatah al Cham. Nesta medida, o cenário russo duma transição que inclua Assad é aceite pelos Estados Unidos desde Março de 2015.

Os obstáculos a este cenário são, no entanto, tais que, nos meios diplomáticos dos Estados Unidos, evoca-se, por vezes, uma outra hipótese: a divisão do país num Curdistão, num “Arabistão” e num “Alaouistão”, três entidades étnico-religiosas em que cada uma seria, pela força das coisas, o protectorado de uma potência estrangeira. No entanto, este cenário é perigoso – daria início a porem-se em causa, duma forma geral, as fronteiras no Próximo-Oriente – o que nenhum país da zona quer. À palavra negativa de “partilha”, os americanos preferem a de “federalização” (2), um federalismo pervertido já que sujeito a uma estratégia imperialista.

O que quer a Turquia…

Para Ankara, o derrube de Assad já não é uma prioridade e a partilha do país – que conduziria a um Curdistão autónomo – está excluída. Desde a batalha de Kobane, em fins de 2014, o principal objectivo de Erdogan é de combater a dissidência curda na Turquia e travar o fortalecimento de Rojava. É com este objectivo que, com a luz verde de Moscovo e de Washington, o exército turco invadiu uma parte do território sírio para deter as milícias curdas na margem oriental do Eufrates.

A “zona tampão” que também está sob o seu controlo serve de base de apoio aos rebeldes apoiados por Ankara e continua a abrigar fileiras de apoio ao Daesh (3)

Aí podiam ser também implantados campos de refugiados (4). Estes refugiados que a Turquia mantém no seu território são o seu melhor meio de pressão sobre a União Europeia.

Pelo facto de ser apontado a dedo como sendo o principal apoio do Daesh, Erdogan teve, pelo menos, que assumir algumas distâncias face ao Daesh, mas evitará romper completamente, com medo de represálias em solo turco onde os núcleos jihadistas estão muito presentes.

O que quer o Irão…

A prioridade de Teerão é, ao mesmo tempo, a manutenção do actual regime sírio, o seu único aliado no mundo árabe face à Arábia Saudita, e a destruição do Daesh. Sem uma Síria que mantenha a integridade das suas fronteiras, o Irão perderá a sua ligação territorial com o seu principal agente na região: o Hezbollah libanês. E o Daesh, que considera que os heréticos merecem a morte, ameaça directamente as populações xiitas do Iraque e alaouitas da Síria, de que Teerão se afirma protector. Milhares de soldados iranianos e de milícias xiitas pagas por Teerão estão deslocados no Iraque e na Síria para lhe fazerem frente.

O que quer a Arábia Saudita, os Estados Árabes Unidos e o Qatar…

As petromonarquias, que recusam qualquer divisão do país, querem a saída de Assad e estão desiludidas com o fraco empenhamento de Washington sobre esta questão. Ao financiarem e ao armarem as forças rebeldes, entre as quais a Fatah al Cham, estão também a pressionar o aliado americano.

Entre 2011 e 201, os donativos piedosos de homens de negócios e de príncipes do Golfo alimentaram também o Daesh (5), antes dos poderes públicos acabarem com isso – muito tarde, uma vez que o monstro já tinha ganho dimensão e adquirido os meios para o seu autofinanciamento.

A Arábia Saudita teme agora atentados jihadistas sobre o seu solo – em Julho ocorreram três. A Síria e o Yemen são os principais teatros da guerra indirecta que o bloco sunita e o Irão xiita travam, mas, menos decididas, as petromonarquias ainda não ousaram colocar tropas no terreno.

O que querem a França. Grã-Bretanha, a Bélgica…

A prioridade de Paris, Bruxelas e de Londres é de parar o fluxo de refugiados e de erradicar o Daesh, tendo a saída de Bachar el-Assad passado claramente para segundo plano. Desde o início da guerra civil, os serviços franceses e britânicos apoiaram activamente a oposição armada. O intervencionismo franco-britânico culminou em Setembro de 2013, com a preparação – abortada – de um ataque contra Damasco.

Depois a atenção centrou-se no Daesh, primeiro no Iraque e depois na Síria. A operação Chammal, levada a cabo pelo exército francês, foi montada em grande, com forças aeronavais consideráveis – entre os quais o porta-aviões Charles-de-Gaulle -, muito à frente de outros Estados da UE comprometidos com a coligação (Holanda, Bélgica, Reino Unido, Dinamarca).

O que espera a esquerda curda…

A prioridade do PYD sírio é de consolidar a autonomia de Rojava, tirando proveito ao máximo da margem de manobra que os acontecimentos lhe dão: enfraquecimento de Damasco, ajuda material de Washington e de Moscovo, neutralidade de Teerão, benevolência de Paris e Londres. Desde Outubro de 2015, as milícias IPG-YPJ formam, com as brigadas sírias e árabes, as Forças Democráticas Sírias (FDS). Para além dos seus recursos militares, a alternativa política desenvolvida pela esquerda curda tem sido uma vantagem real na relação com as populações locais e nos seus apoios internacionais.

No final de Agosto, aquando da intervenção turca na Síria, russos e americanos tomaram as suas distâncias face às FDS (6)… depois continuaram a ajudá-las sem excesso de discrição (7). Uma atitude que consiste, sem dúvida, em ter o jogo alto face quer aos curdos, quer a Erdogan… A esquerda curda não ficou surpreendida pela duplicidade dos seus aliados de circunstância; em todo o caso, isso constituiu um útil lembrete da necessidade que ela tem de estar perfeitamente independente nos seus objectivos, venha de onde vier a ajuda que receba,

A dificuldade política para as militantes e os militantes curdos é reivindicar uma federalização da Síria sem passarem a imagem de que são “antipatriotas”, defensores duma divisão do país. Por isso, o PYD tem sempre o cuidado de precisar que o seu projecto de “confederalismo democrático” é compatível com a manutenção duma Síria unida. No entanto, a Turquia fará tudo para impedir este cenário, e os ocidentais não vão querer contrariar Ankara nesta questão; por outro lado, há consenso entre Assad e a sua oposição para excluírem o PYD das negociações de paz, e Moscovo e Teerão não farão nada para que não seja assim.

O que queria o regime de Damasco…

Com partilha ou manutenção da integridade do país, o que interessa, antes do mais, ao regime é conservar o “Alaouistão”. E, para Assad e o seu clã, conservar o poder ou, se não for possível, os seus bens. Mas a “reconquista” anunciada do conjunto do território parece totalmente irrealista. Não se mantendo a não ser pela vontade de Moscovo e de Teerão, o regime tem uma margem de manobra bastante estreita.

Guillaume Davranche (Alternative Libertaire Montreuil), com Cem Akbalik (socialista libertário curdo)

aqui: http://www.alternativelibertaire.org/?Syrie-Au-coeur-de-la-melee

 [1] « La réunion de Lausanne sur la Syrie s’achève sans clash mais sans avancée », Letemps.ch, 15 octobre 2016

[2] Henry Kissinger, « A Path Out of the Middle East Collapse », Wall Street Journal, 16 octobre 2015.

[3] Até lá, Washington e Moscovo opunham-se a uma intervenção turca. Porque é que lhe deram luz verde em Agosto de 2016? Em troca do fim do apoio turco ao Daesh? Em troca duma flexibilização face a Assad?

[4]  Fehim Tastekin, « Is Turkey falling into its own Syrian trap ? », Al Monitor, 1er septembre 2016.

[5] A Arábia Saudita e o Qatar terão, eles próprios enquanto Estados, participado neste financiamento? É o que afirmava em privado o Departamento de Estado norte-americano em Agosto de 2014, num mail de Hillary Clinton, revelado pelo Wikileaks.

[6] « Remarks With Russian Foreign Minister Sergey Lavrov at a Press Availability », Genève, 26 août 2016 (no site do Departamento de Estado norte-americano).

[7] « Turquie : Erdogan accuse Washington d’avoir livré des armes aux Kurdes syriens », Lesoir.be, 23 septembre 2016

Tradução Portal Anarquista

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