(opinião/debate) O que morreu em Cuba com a morte de Fidel Castro?


alfredo-lopes

Preparação da marcha do 1 de Maio. Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

A morte de Fidel Castro não representa para o movimento anarquista, em geral, qualquer dor ou sentimento de perda, apesar de no início da Revolução Cubana muitos anarquistas terem saudado e caminhado em conjunto com o movimento que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista. Houve anarquistas que integraram o próprio movimento 26 de Julho, outros foram activos nas cidades e no movimento sindical. Mas foi sol de pouca dura.

Com a tomada do poder por Fidel e pelos seus companheiros, logo no início da década de 60 começou a repressão contra os anarquistas e contra todos os sectores que contestavam o poder totalitário da nova classe dirigente. Muitos anarquistas foram fuzilados nessa altura e muitos outros estiveram presos durante largos anos. O movimento anarquista, particularmente activo no meio sindical, foi destruído quase por completo, persistindo apenas em sectores do exílio e da emigração. Desde esse momento, o regime cubano assumiu o seu papel de colaborante com o bloco soviético – na repressão e no totalitarismo. Nem socialismo, nem liberdade. Capitalismo de Estado, centralismo e repressão foram, a partir daí, as traves mestras do regime cubano.

Hoje o anarquismo renasce em Cuba e na América Latina, através de militância, espaços, organizações, publicações, etc. Em Cuba tem tido um papel importante no debate de ideias o observatório crítico cubano, animado também por vários activistas do campo libertário, mas não só. Um dos seus colaboradores é o sociólogo e historiador cubano Haroldo Dilla Alfonso, professor universitário, actualmente residente em Santiago do Chile e  ex-director do Departamento de Estudos Latinoamericanos do Centro de Estudos sobre América de La Habana. Assumindo-se como marxista crítico, dissidente do regime, analisa a herança deixada por Fidel Castro, a quem acusa de simbolizar “um tipo de mudança revolucionária jacobinista e voluntarista, cujas conquistas nunca puderam compensar os seus imensos custos humanos”.

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CUBA-LA HABANA-ASISTEN FIDEL Y RAÚL A SESIÓN FINAL DEL 7MO. CO

O que morreu em Cuba com a morte de Fidel Castro?

Haroldo Dilla Alfonso

Morreu Fidel Castro. Com ele desprendeu-se do muro da história o último poster das grandes revoluções do século XX.

Não quer isto dizer que partilhe o afã onírico dos conservadores de todos os tempos acerca do fim das revoluções. Estas vão continuar a acontecer enquanto existirem – recordo aqui Brecht – desejos humanos frente a becos sem saída.  Tão pouco descarto a violência como caminho, porque a violência exerce-se todos os dias – física ou simbólica –, umas vezes desde o mercado, outras desde o estado, e outras desde uma variedade infinita de dominações latentes no quotidiano. Aquela microfísica do poder que tanto nos seduz.

Mas, sim, julgo que Fidel Castro simbolizou um tipo de mudança revolucionária jacobinista e voluntarista, cujas conquistas nunca puderam compensar os seus imensos custos humanos. Pertenceu a um século em que  os líderes cativavam corações cavalgando e armados até aos dentes – Pancho Villa, Trostky, Mao, Giap, Guevara – e não a esta época em que os ícones – Mandela, Ghandi, Luther King, Malala, Mujica – parecem mais interessados em mudanças modestas e graduais, mas duráveis. Como se estivessem optando pelas estratégias intersticiais que Olin Wright se tem empenhado em sinalizar como caminhos para o futuro. Como se, sabendo-o ou não, estejam tirando do esquecimento aquele adágio de Gramsci: a classe antes de ser dominante precisa de ser dirigente.

Ainda que os seus panegiristas se esforcem por mostrá-lo como um pensador do marxismo contemporâneo, na realidade nunca o foi. O marxismo, um produto intelectual ocidental, era demasiado emancipatório e libertário para os seus objectivos. Foi, isso sim, um ideólogo consumado e efectivo que utilizou o marxismo como pretexto. Mas entre as suas fontes nunca houve senão algumas técnicas tiradas da sua versão mais autoritária: o leninismo. Daqui roubou a ideia de partido único, o chamado centralismo democrático e outros adereços que facilitaram uma ligação particularmente proveitosa ao bloco soviético por mais de duas décadas. De outros lados tirou o mais importante, o caudilhismo populista da manipulação de massas; dos seus mestres jesuítas, a arte de encantar interlocutores; dos seus anos como universitário, os métodos de gangsterismo para lidar com os inimigos.

O seu legado é prático. Depois de meio século à frente do Estado Cubano, pode-se reconhecer Fidel Castro como o arquitecto de um projecto de forte vocação justiceira. Os programas sociais que patrocinou produziram uma mobilidade inédita no país. E, em consequência, a criação de um “capital humano” que ainda hoje é garantia da descolagem económica da ilha e do êxito dos seus emigrados. Em termos económicos o seu meio século de governo foi um desastre marcado por subsídios externos, que a sociedade cubana pagou dramaticamente quando o bloco soviético foi derrubado em 1990. Utilizou a economia como um rosário de caprichos caros que se iniciaram com a frustrante Colheita dos 10 Milhões de Toneladas de Açúcar em 1970, mas ao seu voluntarismo deve-se algo positivo: a entrada de Cuba no selecto clube da tecnologia de ponta na área da biotecnologia e da farmacêutica.

Fidel Castro é imprescindível para se explicar a geopolítica mundial na segunda metade do século XX. A revolução que liderou obrigou os Estados Unidos a olhar a América Latina como algo mais do que um quintal, e a reformular as suas relações na região. O que, conduziu também a monstruosidades como a invasão da Republica Dominicana, em 1965, ou o Plano Condor – mas também à Aliança para o Progresso e alguns dos projectos reformistas mais avançados, como foi sintomaticamente a denominada Revolução em Liberdade da democracia cristã chilena. O aparecimento de projectos alternativos de todo o género – desde o nacionalismo militar até aos chamados “socialismos do século XXI” – são inexplicáveis sem se recorrer de alguma maneira à presença de Fidel Castro na política continental. O seu impacto em África não é necessário ser explicado. Mas como sempre acontece na vida, não há resultados unívocos, e há que reconhecer que muitos êxitos internacionais foram conseguidos com o preço elevado de recursos e de vidas humanas, em momentos apresentados como epopeias militares mas que, em nome da revolução mundial, terminaram apoiando satrapias corruptas e sanguinárias.

Acreditar que com a morte de Fidel Castro termina o castrismo – como oiço e leio na hemorragia de opiniões que se vertem à sombra do sarcófago do Comandante – é duplamente errado.

O castrismo como projecto político – um sistema totalitário que controla todos os aspectos da vida e pede a adesão entusiástica a todos os seus súbditos – já há algum tempo que se está a  extinguir, inclusivamente estava-se já a extinguir com Fidel Castro à frente do estado. O que o seu descolorido irmão Raúl faz é administrar a conversão burguesa da elite pós-revolucionária e em particular dos altos comandos militares e tecnocratas próximos. Há já algum tempo que Fidel Castro era um ancião caprichoso e iracundo que explicava como cozinhar feijão preto, que vociferava contra Obama, que sugeria a Moringa (um planta) como a salvação ambiental planetária, que emitia opiniões sobre as andanças passadas dos Neandertais, entre muitas outras divagações próprias da sua verborreia senil. Desde o seu recolhimento convalescente nunca renunciou falar a um mundo que ele apenas podia imaginar como ouvinte, pois os caudilhos populistas, os autênticos, nunca se retiram.

No entanto, se se fala de castrismo como tradição política, então, pouco se vai com Fidel. O castrismo não originou a tradição nacionalista radical e autoritária da história cubana, mas consagrou-a. Existia antes – larvar ou explícita – e continuará a existir. Este é o grande desafio da sociedade cubana.

Quando em 1974 perguntaram a Chou-En-Lai a sua opinião sobre a revolução francesa ele disse que era um facto demasiado recente para dar a sua opinião. Creio que há mais razões para fazê-lo sobre Fidel Castro. Nada poderá eximi-lo das terríveis responsabilidades relativamente à falta de liberdades e de democracia em Cuba, a divisão da sociedade e a expropriação massiva de direitos aos que emigraram, a maneira irresponsável como jogou com a hostilidade norte-americana e o desastre económico a que conduziu a ilha. Todos os cubanos pagaram alguma coisa pela sua megalomania e o calor das suas bandeiras fez com que, pelo menos, um par de gerações fosse de alguma maneira afectada, pagando preços demasiado altos para uma só vida. Mas nenhum julgamento poderá fazer esquecer uma coisa simples: cativou a imaginação de gerações inteiras que foram beneficiadas por uma revolução que terminou há muito tempo, mas que ainda sobrevive como marca política.

Raúl Castro, com a voz entrecortada pela emoção e pela sua crónica falta de carisma, anunciou umas cerimónias fúnebres em grande. Imagino que as suas cinzas serão colocadas na Praça da Revolução e que os cubanos desfilarão para as ver. Uns voluntariamente e outros “mobilizados” por toda a parafernália de organizações que enquadram a sociedade cubana, cada vez com maiores problemas.

Dizia o grande escritor cubano Lichi Diego que um defeito dos cubanos era a sua aversão em deixarem passar o passado. Não se trata de esquecê-lo, mas tê-lo em conta é evitar chocar a cada momento com a mesma pedra. E superá-lo é a melhor maneira de o recordar. Oxalá a sociedade cubana consiga fazê-lo e avance para um futuro republicano e democrático que não poderá pôr de lado a carga histórica de um processo intenso e contraditório que marcou a história nacional de uma maneira inevitável para os que habitam este século que se faz – juntamente connosco – velho.

aqui:http://www.havanatimes.org/sp/?p=119861

textos relacionados com o anarquismo em Cuba:  http://periodicoellibertario.blogspot.pt/2016/11/fidel-castro-y-el-castrismo-que-balance.html

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